Powered By Blogger

domingo, 29 de janeiro de 2023

A importância da leitura e da análise do que se lê (2022)

 

            O ano de 2022 foi tenso, a geopolítica mundial cada vez mais complexa que deu origem a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, sem falar nos pontos de tensão em outras regiões, tais como: Taiwan, Irã, Kosovo, etc. As eleições presidenciais no Brasil e a tensão por ela gerada quanto ao risco de um possível golpe de Estado, a crise econômica e a queda do poder aquisitivo da população trabalhadora. Os contágios e mortes por Covid, que embora tenham se reduzido, persistem. O ano de 2022, tal como o ano anterior, foi extremamente desgastante do ponto de vista físico, mental e emocional. Sendo a leitura algo que me proporciona relaxamento e prazer, foi na leitura que consegui um pouco de paz ante o desastroso cenário socioeconômico que se descortina para a maioria da população brasileira.

            Em 2022 resolvi fazer uma nova especialização (Direitos Humanos e Movimentos Sociais), ao assim proceder, não visei ganhos financeiros (estou no topo da carreira no Magistério Estadual). A iniciativa de estudar é porque acredito que o cérebro é como os músculos, se não os utilizamos eles definham. O curso que concluí é um dos que sempre quis fazer (ainda falta um). O tempo que dediquei aos estudos, lendo obras concernentes ao curso, obviamente me tomou tempo, que em anos anteriores dediquei à leitura de obras literárias de minha livre escolha. Dessa forma, li apenas trinta e oito livros de literatura no ano passado (costumo ler cerca de setenta livros por ano).

            A iniciativa deste artigo não é a de se gabar, mas, a de inspirar. Algumas pessoas já me disseram que se iniciaram no hábito da leitura (ou a ele regressaram) ao ler as resenhas de livros que publico. Digo que também fui influenciado em tal sentido por mestres(as) que tive em toda a minha vida estudantil. Também foi assim quanto ao ato de escrever. A vida é uma troca entre gerações, apenas repasso as boas energias que recebi. No ano que passou, não fui muito criterioso na escolha das leituras, em relação a autoria/continentes, assim foram as minhas leituras: Oceania: 0,0%; Ásia: 2,7%; África: 0,0%; Europa: 28,9%; América: 68,4%. Das leituras de obras de autores americanos, a América Latina parece com 76,9% e a América Anglo-Saxônica com 23,1%. Quanto a leitura de obras latino-americanas por país: Brasil: 90% (47,3% da leitura global); Colômbia: 5% e Cuba 5%. Quanto a autoria/gênero das leituras realizadas: 76,3% sexo masculino e 23,7% sexo feminino. Março e Abril foram meses que li mais (7 livros/mês) e o mês que li menos, foi Dezembro (1 livro) e isso se explica pela sobrecarga do trabalho no Magistério nesta época. Em Janeiro também li apenas um livro, mas, foi Os Miseráveis (calhamaço para ninguém desdenhar). A partir desta análise, desejo ler em 2023 mais obras de autores latino-americanos (além do Brasil), africanos, asiáticos e, também mais obras de mulheres.

             As dez melhores leituras foram: 1. Os Miseráveis (Vitor Hugo); 2. O cortiço (Aluísio Azevedo); 3. Cachorro Velho (Teresa Cárdenas); 4. Um certo Capitão Rodrigo (Érico Veríssimo); 5. Ana Terra (Érico Veríssimo); 6. Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço (Adriana Negreiros); 7. Forrest Gump (Winston Groom); 8. Senhor e servo e outras histórias (Liev Tolstói); 9. O Sedutor do Sertão ou O Grande Golpe da Mulher Malvada (Ariano Suassuna); 10. Clube da Luta (Chuck Palahniuk). Como sempre faço, para evitar injustiças atribuo menções honrosas para as seguintes obras: Terra das Mulheres (Charlotte Perkins Gilman); Terra dos Homens (Antoine de Saint-Exupéry); A mulher que era o general da casa (Paulo Moreira Leite); Odorico na cabeça (Dias Gomes); Uma confissão (Liev Tolstói); Do que vivem os homens (Liev Tolstói); Riacho Doce (José Lins do Rego); O crepúsculo da democracia: Como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política; (Anne Applebaum); O declínio de um homem (Osamu Dazai); Infância, adolescência e juventude (Liev Tolstói); Do amor e outros demônios (Gabriel García Márquez); O Pagador de Promessas (Dias Gomes); O Menino Grapiúna (Jorge Amado). A minha decepção literária do ano foi com a famosa obra Os Maias (Eça de Queiroz). Sei que se trata de um clássico, mas, para mim não funcionou, talvez porque minha expectativa era muito alta. Enfim, encerro desejando-lhe um feliz ano novo, obviamente repleto de boas leituras!

           

domingo, 25 de dezembro de 2022

Vidas à deriva


 Há uma velha máxima de que os livros são sempre melhores que suas adaptações para o cinema. Vidas à deriva cujo título original é "Adrift" (Á deriva) é mais um exemplo disso. Li o livro há algum tempo e gostei muito, porém, não o resenhei neste espaço. Com a chegada das férias e, a vontade (necessidade) de distensionar a mente, ao ver o catálogo da Netflix, lá estava o filme inspirado na tragédia vivida pela estadunidense Tami Oldham Ashcraft (autora do livro), imediatamente comecei a assisti-lo.

            A mãe de Tami lhe deu à luz com apenas quinze anos de idade, por essa razão, Tami foi criada pela avó, afinal sua mãe não tinha maturidade suficiente para a empreitada materna. Apesar disso, Tami sempre teve contato com sua mãe. Após cursar o Ensino Médio (High School) nos Estados Unidos, Tami contrariando sua mãe, resolveu não ingressar na Universidade, optando, por virar mochileira e, juntamente com uma amiga saiu à deriva, ou seja, sem rumo certo em uma kombi usada, por ela adquirida. Tami e sua amiga foram até uma praia onde acamparam. Nesta praia tomou conhecimento de uma oferta de emprego de um veleiro cujo proprietário precisava de tripulantes e não exigia experiência. Após uma conversa franca onde ela deixou claro que sua relação com ele seria apenas profissional, aceitou a função de cozinhar e fazer vigia, fez uma viagem de teste de dois dias e, feito isto, velejou com Fred (o proprietário do barco) rumo à Polinésia Francesa. Segundo a autora, Fred foi sempre um cavalheiro.

            O termo à deriva ou, nas palavras de Zeca Pagodinho: "Deixa a vida me levar, vida leva eu" resume a vida de Tami. Sempre se inserindo em veleiros como tripulante, sem um rumo certo para ir mas, com o único objetivo de não voltar para casa, pois, embora ocasionalmente falasse com sua mãe, a relação entre elas não era muito boa.  No Taiti, Tami conhece o velejador inglês Richard e, eles se apaixonam à primeira vista. Iniciam um namoro, porém, após alguns dias Richard recebe uma tentadora proposta financeira de um casal de idosos que pretende voltar para os Estados Unidos de avião e precisa que alguém conduza o veleiro de volta. Ante a recusa de Tami, em seguir junto, Richard cogita desistir da missão, porém, em troca de duas passagens aéreas de volta para o Taiti e dinheiro suficiente para navegar com Richard durante um ano, ela acaba cedendo.

            O casal, apesar dos esforços, para fugir, acaba sofrendo a ação de um furacão de nível 4 que produz sérias avarias no veleiro, inclusive quebrando o mastro. No filme, como também no livro, há a intercalação de momentos anteriores à tragédia e aqueles em que a única preocupação era conseguir chegar a algum lugar e sobreviver. O livro traz relatos diários das atividades e pensamentos da autora determinada a não morrer por sede ou fome no gigantesco Oceano Pacífico. A aparelhagem do veleiro estava estragada, não havia como se comunicar. A parte interna do barco havia se convertido em uma piscina, Tami teve que bombear manualmente a água para fora do barco. A velejadora improvisou uma vela e, com os instrumentos de navegação rudimentares que tinha à mão, sextante e relógio, tentava chegar ao Havaí. A cada novo dia, calculava onde estava e corrigia a rota. Olhava o horizonte com binóculos e nada encontrava. Os dias iam passando (foram quase cinquenta dias à deriva). Quando, enfim, passou um navio, seus tripulantes não viram os sinais de localizador por ela disparados. O motor do veleiro (sim, veleiros transoceânicos têm motor para situações de emergência, porém, para trajetos curtos) também não funcionou.

            Tami, que era vegetariana, se viu obrigada a comer carne de peixes (crus), os quais teve que conseguir por meio de caça submarina. Isso se deu quando as provisões de enlatados (para situações de emergência) acabaram. O drama por ela vivido, no livro prende a atenção e leva o leitor a querer saber o que acontecerá a cada novo amanhecer. No filme não funcionou tão bem, pois, apesar de não ser um filme ruim, não empolga. Nas páginas finais do livro, a autora fala para uma de suas filhas uma frase emblemática: "A vida é como velejar, algumas vezes com vento a favor, noutras com vento contrário". Movido pela curiosidade, fui procurar como os barcos à vela navegam com vento contrário e aprendi que precisam ajustar as velas e fazer manobras, ora para estibordo (lado direito do rumo da embarcação), ora para bombordo (lado esquerdo). Assim é a vida, muitas vezes traçamos uma linha reta para atingir nossos objetivos, mas, os ventos contrários podem nos fazer desistir ou, usar da persistência, manobrando e mesmo que lentamente alcançar a meta! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Vidas à deriva: A história real que deu origem ao filme.

Autor: Tami Oldham Ashcraft.

Editora: Astral Cultural, 2018, 271 pág.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Riacho Doce

 

O paraibano José Lins do Rego (1901-1957) se popularizou como um romancista da decadência dos senhores de engenhos e tinha como característica escrever com grande agilidade, apesar de dizer a todos que o ato de escrever era difícil. A matéria-prima de suas obras estava nas memórias e reminiscências (vividas e internalizadas pela transmissão oral por seus predecessores) de um sistema econômico de origem patriarcal, com o trabalho semi-escravo do eito, ao lado de outro aspecto importante da vida nordestina, o cangaço e o misticismo. O conjunto de sua obra pode ser classificado em três tópicos: 1. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino do Engenho, Doidinho, Banguê, Usina e Fogo Morto; 2. O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita e Cangaceiros; 3. Obras independentes com ligações nos dois ciclos: O moleque Ricardo, Pureza e Riacho Doce; e desligadas dos ciclos: Água-mãe e Eurídice. Sua carreira como literato o lançou à “imortalidade” como membro eleito da Academia Brasileira de Letras – ABL. José Lins tentou produzir obras desligadas dos temas que o popularizaram, porém, como assinalou Manuel Bandeira: “era um motor que só funcionava bem queimando bagaço de cana”.

A obra Riacho Doce (1939) é dividida em três partes. A primeira parte tem como personagem principal, Ester, a professora de Eduarda, uma melancólica adolescente sueca que alimentava sonhos de liberdade. Eduarda apelidada carinhosamente de Edna, não gostava do frio da Suécia, seu país natal. Sonhava com uma terra de clima quente e de paisagens verdejantes. A jovem não gostava da submissão a que era submetida por sua família no que concerne à educação e à religião, principalmente por parte de sua avó Elba. Edna também detestava o trabalho no sítio da família no qual vivia. A adolescente pensava que merecia algo melhor do que casar e continuar a viver cuidando de animais numa propriedade rural. Ester abre os olhos e a mente de Eduarda, para a vida e para o mundo. A menina se encanta pela professora, a quem considera a pessoa mais linda que já viu. Ester não é loira e de pele alva como todas as pessoas que Edna conhece e, se parece com uma boneca espanhola que tanto gostaria de ter, mas que pertence a uma de suas colegas de classe. A professora Ester se interessa pela adolescente no sentido de auxiliá-la a passar por tais problemas existenciais, porém, Edna vê em Ester o objeto do maior sentimento que um dia já teve. As pessoas da pequena vila não demoram a perceber que algo "estranho" permeava a relação entre as duas e reage. A professora é demitida e volta para a sua terra de origem. Edna sofre com sua ausência.

Eduarda cresce e se casa com Carlos, um jovem engenheiro do setor de petróleo que, querendo ganhar muito dinheiro e, também dar à esposa a possibilidade de morar em terras tropicais brasileiras, antigo sonho desta, resolve aceitar uma proposta de trabalho em uma perfuração de poço de petróleo em Riacho Doce (na verdade, uma praia de Maceió) no estado de Alagoas. Riacho Doce é o título da segunda parte do livro. Após semanas de travessia marítima, o casal chega à Riacho Doce e é instalado em uma grande e bela casa. Edna conta com funcionárias para os afazeres domésticos, portanto, dorme até tarde e, passeia pela praia, mergulha no mar, enquanto Carlos passa o dia fora de casa trabalhando. A sueca, chamada pelas outras mulheres de forma desdenhosa de "galega", talvez com um certo sentimento de inveja pelo fato de que a bela loira chama a atenção dos homens do local. Eduarda, no entanto, olha a todos e todas com ar de superioridade e, apesar de adorar Riacho Doce, seu clima, praia e mar, continua insatisfeita com a vida. Edna casou-se com Carlos sem amá-lo, movida unicamente pelo desejo de fugir da vida que levava no sítio de sua família. O casal não vive bem, Carlos ama Edna, porém, esta evita tanto quanto possível ter relações sexuais com ele. Ela sente nojo dele, odeia ser por ele tocada. A jovem esposa sueca passa seus dias contemplando a natureza na praia, nadando e nos momentos em que se encontra em sua casa, ouvindo e tocando instrumentos musicais.

A terceira parte do livro tem por nome "Nô", trata-se de um jovem nativo, considerado muito belo pelas mulheres, sendo que muitas perderam a cabeça por ele, no entanto, ele se relaciona com elas, sem jamais se apaixonar por nenhuma. Nô é o "sonho de consumo" de mulheres solteiras e também das casadas. O rapaz é neto de "Mãe Aninha", uma líder espiritual nativa que faz benzimentos, rezas e que atrai até mesmo uma certa antipatia dos sacerdotes religiosos pelo papel que exerce e no qual tem mais influência que estes. Mãe Aninha "fechou" o corpo de Nô contra qualquer mal, seja, disparos de arma de fogo, golpes de faca e, até mesmo, o amor por uma mulher. Nô, segundo sua avó jamais se apaixonaria, mulheres seriam apenas para sua diversão, pois, o neto jamais desviaria do caminho traçado por esta. Nô é também oprimido pelo fanatismo religioso da avó a quem é submisso e crédulo. No entanto, Edna e Nô se conhecem, e apaixonam-se à primeira vista. Tornam-se amantes e numa vila pequena,  nada passa despercebido. A "Mãe" Aninha torna a vida de ambos um inferno, mas, sempre potencializando seus ataques com seus poderes místicos (ou não) à jovem mulher sueca. O sentimento que une os dois belos jovens é uma explosão de desejo, portanto, incontrolável e isso ameaça a paz da localidade conduzida à mão firme pela conservadora e religiosa "Mãe" Aninha. Fico aqui para não dar spoiler! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Riacho Doce.

Autor: José Lins do Rego

Editora: José Olympio, 2011, 304 p.


domingo, 4 de dezembro de 2022

Do que vivem os homens?


    Costumo dizer que não tenho compromisso com o erro, dessa forma estou sempre disposto a mudar de posicionamento, caso eu obtenha novos conhecimentos teóricos ou experimentais que assim me convençam. Prova disso são essas linhas que parecem distantes, mas, são de um artigo deste ano: '[...] Não tenho a predileção pela leitura de contos, menos ainda de resenhá-los neste espaço. Gosto de obras com maior número de páginas para nelas fazer uma imersão". 
      Tendo reservado parte de meu tempo para um novo curso de pós-graduação, optei por leituras mais leves e menos extensas, deixando de lado os calhamaços (livros com mais de quinhentas páginas). Resolvi dar oportunidade aos livros de contos, que são leituras rápidas, tendo como objetivo o relaxamento, a descontração. E eis que peguei o gosto pela leitura de contos, talvez tenha ajudado o fato de ter me debruçado sobre as produções literárias do russo Liev Tolstoi (1828-1910). Tentei também as HQ's (histórias em quadrinhos), mas não funcionou.

        Tenho o hábito de utilizar camisetas estampadas com frases literárias ou críticas de autores e obras. Uma delas dizia o seguinte: "Era tão pobre, mas tão pobre, que só tinha dinheiro". Alguns estudantes me perguntaram: "como uma pessoa pode ser pobre, se tem dinheiro?" Expliquei que uma pessoa pode ter dinheiro, mas, pode ser pobre de cultura, de educação, de honestidade, de solidariedade, de fraternidade, etc. Certa vez entabulei uma conversa com um empresário da capital do estado (Paraná), disse a ele que não tinha uma piscina em minha casa, mas, que tinha uma biblioteca (o que, em meu ver, é algo muito mais importante) e que nunca tive e não tenho ambição por dinheiro, basta-me ganhar o suficiente para ter algum conforto material, mas, não propriamente esbanjar ou viver luxuosamente. O empresário disse que eu era pobre até nos pensamentos e passou a falar sobre a piscina que tinha em sua casa e, também sobre as viagens que o dinheiro lhe proporcionava. Penso que a frase da camiseta é acertada, a pobreza não é apenas a resultante da falta de recursos financeiros, da mesma forma, a riqueza não se encontra apenas na acumulação do vil metal. Lembro que uma vez conversei com uma ex-empresária de minha cidade, a qual largou os negócios e passou a viver melhor após ter se conscientizado que caixão não tem gaveta (para levar dinheiro).

            Com tais palavras, não digo que ter dinheiro é desimportante, mas, que viver para acumulá-lo (sem viver) é escravidão e, escravos costumam ser pobres, de uma forma ou de outra. Mas, como diria Odorico Paraguaçu de "O Bem Amado" da obra de Dias Gomes (1922-1999), "Vamos botar de lado os entretantos e partir logo pros finalmentes". No conto "Do que vivem os homens?" de Liev Tolstói, o humilde sapateiro Simon, sai para fazer cobranças referentes a trabalhos prestados em seu estabelecimento e obviamente não quitados. Antes de sair, ele pega o pouco dinheiro que possui em casa, com a intenção de juntá-lo ao que arrecadar com as cobranças e, comprar peles para que sua esposa faça casacos, com os quais possam suportar melhor o duro inverno russo. Simon, não tem tido dias fáceis, com seu trabalho, tem conseguido apenas o suficiente para comprar alimentos. As roupas de frio dele e de sua esposa estão em estado deplorável. Ela vive reclamando da falta de dinheiro para fazer frente a outras necessidades. Ocorre que os devedores também estão passando por dificuldades financeiras e, Simon não consegue juntar o valor necessário. Aborrecido e humilhado pela situação de pobreza, sem coragem de voltar para a casa e dar a má notícia para a esposa. Antevendo as reclamações desta, ele entra num bar e se embriaga e, ao sair observa que volta para casa com menos dinheiro do que quando saiu. No caminho, já na madrugada, encontra um homem (quase congelado) deitado no chão e praticamente sem roupas, imediatamente, passa para ele seu casaco puído e o leva para casa, não sem imaginar as broncas da esposa, quanto ao fato de levar um estranho para dar hospedagem e alimentação num lar onde o alimento que há é pouco até para os que nele habitam. Paro aqui, para não dar spoiler! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:


Título: Do que vivem os homens?
Autor: Liev Tolstói.
Editora: E-Book Kindle, 2020, 33 pág

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O sedutor do Sertão ou o grande golpe da mulher e da malvada

Ariano Vilar Suassuna (1927-2014) foi um escritor, dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta, artista plástico, professor universitário, advogado e palestrante brasileiro. Ariano é conhecido principalmente por sua obra-prima  "O Auto da Compadecida" que se constituiu em grande sucesso no cinema e na TV. Sua obra aborda o folclore nordestino acerca de fatos históricos daquela região e do país. O coroamento da obra de Suassuna se deu com sua eleição para a Academia Brasileira de Letras em 1989, para a Academia Pernambucana de Letras (1993) e Academia Paraibana de Letras (2000). O livro aqui resenhado é o primeiro contato deste escriba com a obra impressa do escritor paraibano por nascimento e pernambucano por opção, do qual apenas tinha assistido o filme sobre "O Auto da Compadecida", o qual contava com as inesquecíveis personagens de João Grilo e Chicó "trazidos à luz" respectivamente por Matheus Nachtergaele e por Selton Mello. Também havia assistido entrevistas de Ariano Suassuna, as quais traziam o seu humor impagável, dentre as quais uma dada ao saudoso apresentador Jô Soares no talk show por ele apresentado. Nesta ocasião ele levou a platéia e o apresentador às lágrimas ao tecer comentários sobre seu pavor em voar ante as recomendações agourentas acerca dos procedimentos a serem tomados quanto a possibilidade de um desastre aéreo.

            A obra "O sedutor do Sertão" foi escrita em menos de trinta dias e tinha como objetivo virar filme, plano que foi frustrado e, por isso foi engavetada e publicada somente em 2020, ou seja, seis anos após a morte do autor. A obra de Ariano Suassuna além do característico bom humor tem sempre um tom de crítica social. O período ambientado na trama é o início da década de 1930, a qual foi marcada por vários movimentos revolucionários no país e, em especial, na Paraíba, ocasião em que lideranças do município de Princesa Isabel quiseram fazer dele um novo estado, independente portanto, da Paraíba. O líder de tal movimento era o Coronel José Pereira que, apesar de fazer parte do mesmo partido político do presidente (governador) João Pessoa era inimigo deste. O pai de Ariano Suassuna (João Suassuna), antecedeu João Pessoa no governo da Paraíba e ao se retirar do cargo, voltou a morar em sua fazenda em Taperoá (sertão da Paraíba). João Suassuna que continuou na política, porém como deputado federal, foi acusado injustamente da morte de João Pessoa. Seu pai foi absolvido no tribunal, porém, foi assassinado logo em seguida. Há rumores (nunca confirmados) de que parentes de João Pessoa estariam envolvidos em tal morte. A mãe de Ariano, em dificuldades financeiras, vendeu a fazenda e a família se mudou para a capital de Pernambuco (Recife). É nesta cidade que Ariano completa seus estudos e estréia na literatura.

            Na trama de "O sedutor do Sertão" a personagem principal é Malaquias Pavão que tem em Miguel Biôco, seu fiel companheiro nas andanças pelo interior paraibano. Malaquias sempre que fiscalizado pelas autoridades, afirma ganhar a vida vendendo garrafadas (remédios feitos a partir de raízes e folhas de plantas) e impressos de contos e poemas. Malaquias, utiliza qualquer planta para fazer as ditas garrafadas, o segredo de seu sucesso é o discurso e encenações (exploração da boa fé das pessoas) onde seu ajudante Miguel Biôco que, como exemplo, aparece andando com muletas ante o ajuntamento de pessoas, toma uma garrafada "milagrosa" e fica "curado", abandonando as muletas. Malaquias ganha muito dinheiro vendendo cachaça sem selo, isso longe da polícia, pois era considerado um delito grave. Malaquias faz várias trapaças, logra pessoas e lhes toma aquilo que lhe é de interesse, seja dinheiro ou cavalos. Malaquias tem duas paixões, o cavalo Rei de Ouro, considerado o melhor do Sertão e Silviana, a bela esposa de Sinfrônio Perigo, de quem é sócio no contrabando de cachaça do Brejo que vende no Sertão. Ambos tentam passar a perna um no outro, Sinfrônio quer ficar com todo o dinheiro do negócio e também com o cavalo de  Malaquias, que por sua vez, quer para si, a mulher de Sinfrônio e, obviamente, ficar com todo o dinheiro. As personagens percorrem o interior da Paraíba e encontram grupos armados, ora leais ao Presidente João Pessoa, ora leais ao Coronel José Pereira, sendo obrigados a fingir que são apoiadores, ora de um, ora de outro, devido ao risco de morte em afirmar ser opositor. O autor faz uma crítica à polarização da época que dividiu a sociedade em amigos e inimigos. Como se isso não bastasse, havia ainda os inesperados encontros com os bandos do cangaço, os quais não apoiavam nenhuma das partes. Paro aqui para não dar spoiler. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: O sedutor do Sertão ou grande golpe da mulher e da malvada.

Autor: Ariano Suassuna.

Editora: Nova Fronteira, 2020, 248 pág.

 

sábado, 19 de novembro de 2022

Ana Terra


 A obra "Ana Terra" tal como "Um certo Capitão Rodrigo" (já publicada nesse espaço) faz parte da trilogia "O tempo e o vento" do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Publicada separadamente, no entanto, é encontrada no volume 1 (O Continente). Caso o leitor tenha lido a trilogia ou o volume citado, trata-se da mesma trama lá encontrada. A trama tem inspiração nos fatos históricos do tempo nela retratado, dentre estes a Guerra Guaranítica (1753-1756), a Guerra da Cisplatina (1825-1828) e a Revolução Farroupilha (1835-1845), mas não é de forma alguma uma obra histórica.

            A história da personagem Ana Terra é contada no livro a partir do ano de 1777 quando esta contava vinte e cinco anos de idade e continuava solteira. É interessante, diria até poético, que a personagem ao narrar os fatos trágicos de sua vida afirma que estes sempre ocorreram em dias ventosos. Ana morava com seus irmãos Horácio e Antônio na fazenda de seus pais Maneco Terra e D. Henriqueta. Apesar de já estar com idade avançada para casamento (segundo os costumes da época), Ana não tinha interesse em buscar casamento, além do que as terras onde moravam eram muito distantes da cidade mais próxima (Rio Pardo). Tudo muda quando Ana encontra um índio ferido às margens do riacho onde lavava as roupas da família. Ana apavorada, corre avisar a família, o pai e os irmãos tratam o indígena da etnia Tapes. No entanto, quando recuperado, o índio resolve ficar e ajudar na lida da lavoura. Seu Maneco, gostaria que ele fosse embora, mas, também precisa de ajuda na lavoura. Certo dia, Ana vai lavar roupa e pressente que alguém a vigia, olha para trás e Pedro Missioneiro (o indígena) salta sobre o seu corpo e Ana que havia achado o índio bonito e, que a todo momento o observava, não oferece nenhuma resistência, beijam-se e fazem amor. Outras vezes isso ocorre, até que Ana descobre estar grávida.

            Ana comunica Pedro e pede para que fujam juntos, uma filha que perde a virgindade antes do casamento ou, pior ainda, que fica grávida sem ser casada, era uma desonra para a família. Pedro que tem uma aura mística sobre si, diz que não pode fugir e que tudo correrá como o destino determina para ele. Maneco Terra ao saber do fato manda os filhos Horácio e Antônio matarem Pedro em um local distante. Ana vê os irmãos saírem com armas e uma pá. Pedro não volta. Maneco Terra e irmãos não dirigem mais a fala à Ana. D. Henriqueta é a única a conversar com Ana.Os dias passam e Ana Terra dá a luz a um menino bonito, ao qual deu o nome Pedro (em homenagem ao pai da criança). Maneco e os tios ignoram a presença da criança que vai crescendo tendo a atenção unicamente da mãe e da avó. Maneco Terra começa a progredir e compra três escravos (um deles morre atingido por um raio). Os irmão aconselham a irmã a não se deitar com os escravos. Ana (irritada), descarrega toda a raiva que sentia contra os irmãos e o pai chamando-os de assassinos. Sempre que o filho pergunta do pai, Ana diz que ele morreu na guerra. Os anos passam, Horácio (o mais velho dos irmãos) se muda para Rio Pardo, estabelece um comércio e casa-se por lá. Antônio permanece trabalhando com o pai na fazenda e, casa-se com Eulália. Antônio e Eulália têm uma linda filha, a qual deram o nome de Rosa. Pouco tempo após cortar o cordão umbilical de sua neta, D. Henriqueta faleceu.

            Ana e Eulália ficam responsáveis pelos afazeres domésticos, os homens cuidam do cultivo do trigo, com o qual almejam ganhar muito dinheiro. Pedro cresce e demonstra cada vez mais interesse pela agricultura, o avô percebe e começa se render aos encantos deste, Ana vê o pai conversando com o seu filho, mas não interfere. Chega a notícia de que os castelhanos estão saqueando as fazendas e praticando atrocidades contra as pessoas que encontram. As mulheres e as crianças são orientadas por Maneco Terra a se esconderem no mato. Ana encaminha Eulália, Rosa e Pedro para se esconderem na mata, mas, volta para a casa, junto do pai e irmão. Questionada sobre as razões da volta, Ana diz que na casa há roupa de mulher e que ela ficará para despistar os bandidos, com isso procurando colocar a salvo Eulália e as crianças, pois, caso contrário, os castelhanos procurariam nos arredores. O pai pergunta se ela sabe o que pode lhe acontecer, Ana sem dizer palavra, dá a entender que sim. Os bandidos chegam, matam Antônio que tentou negociar para que não praticassem violência com eles e, mesmo ante a resistência possível de Maneco e dos escravos, estes são atingidos por tiros e caem desfalecidos. Os bandidos destroem a casa procurando dinheiro e jóias, questionada, Ana nega haver dinheiro em casa (ela não conta onde está o baú com dinheiro de seu pai). Os bandidos separam para levar em carroças, tudo o que há de valor na casa, a colheita de trigo e as provisões de alimentos. Levam também as poucas cabeças de gado bovino da propriedade.

            Ana é estuprada pelos bandidos, em estado de choque, desmaia. Quando volta à consciência, vê que os castelhanos se foram e que seu pai, seu irmão e os dois escravos estão mortos. Vai à mata à procura das crianças e da cunhada. Ana não conta à Eulália o que lhe aconteceu, ela percebe mesmo assim. Ela comunica à Eulália e às crianças que todos estão mortos e que eles precisam enterrar os corpos. A noite chega, as crianças dormem, Ana ouve o choro de Eulália. No dia seguinte, Ana acorda antes dos demais e descobre que a vaca mimosa fugiu dos bandidos e voltou, ela ordenha a vaca e, com grande felicidade acorda os demais oferecendo uma caneca de leite para cada um. Na manhã seguinte passa pela fazenda dos Terras duas carroças com a família de Marciano Bezerra com destino à Santa Fé, um povoado que estava sendo instalado nas terras do Coronel Ricardo Amaral. Ana e Eulália precisam decidir o que farão do resto de suas vidas, ficar na fazenda da família e reconstruí-la, tentando sobreviver ante os perigos de uma terra isolada, ou abandoná-la, se juntando à família de Marciano Bezerra e usar o dinheiro deixado pelo pai para se estabelecer no distante povoado. Fico por aqui para não dar spoiler! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Ana Terra.

Autor: Érico Veríssimo.

Editora: Companhia das Letras, 2005, 112 pág.

sábado, 12 de novembro de 2022

Uma semana triste para a cultura ou se eu morrer antes de você

  Esta semana foi particularmente triste para a cultura. Na terça-feira (08/11) perdemos o roqueiro Dan Maccaferty (1946), o vocalista original da banda escocesa Nazareth. Dan se celebrizou com sua inconfundível, potente e rouca voz. Sua música foi para mim, a porta de entrada no gênero musical que a juventude atual afirma ser gosto musical de velho. É muito bom ser velho! No dia seguinte, a quarta-feira (09/11) perdemos também Gal Costa (1945) e sua inconfundível voz, uma das maiores cantoras da MPB, além de ser uma artista dotada de consciência social, algo extraordinário em um tempo em que a alienação e o individualismo imperam. No mesmo dia, o apresentador, ator, cantor, compositor Rolando Boldrin (1936) também deixou este plano. Sobre Rolando Boldrin há algum tempo escrevi neste espaço o artigo "A carapuça que te cabe...cabe?". Neste artigo citava Boldrin quando ele, talentosamente (como sempre) contava o "causo" do "Amigo da Onça". Caso o leitor deseje ler este artigo digite/copie o link abaixo:

 https://avistademeuponto.blogspot.com/2013/09/a-carapuca-que-te-cabe-cabe.html.

            Outra lembrança que tenho de Boldrin e que considero muito oportuna se deu quando ele magistralmente declamou o poema "Se eu morrer antes de você" de Padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira) (disponível no You Tube) e cuja letra publico aqui.

 

Se eu morrer antes de você

 

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:
Chore o quanto quiser, mas não brigue com
Deus por Ele haver me levado.

Se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir chorar, não se preocupe.
Se tiver vontade de rir, ria.

Se alguns amigos contarem algum fato a
meu respeito, ouça e acrescente sua versão.
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.

Se me criticarem demais, defenda-me.
Se me quiserem fazer um santo, só porque morri,
mostre que eu tinha um pouco de santo, mas
estava longe de ser o santo que me pintam.

Se me quiserem fazer um demônio, mostre que
eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas
que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo.

Espero estar com Ele o suficiente para continuar
sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa
sobre mim, diga apenas uma frase:
"Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis
mais perto de Deus!"

Aí, então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la, mas
não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar.

E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de
minha nova tarefa no céu.
Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha
na direção de Deus.

Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz
vendo você olhar para Ele.
E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí,
sem nenhum véu a separar a gente,vamos viver,
em Deus, a amizade que aqui nos preparou
para Ele.

Você acredita nessas coisas?

Então ore para que nós vivamos como quem
sabe que vai morrer um dia, e que morramos
como quem soube viver direito.

Amizade só faz sentido se traz o céu para
mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo
o seu começo. Mas, se eu morrer antes de
você, acho que não vou estranhar o céu..
Ser seu amigo... já é um pedaço dele..."