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domingo, 24 de julho de 2022

Os Maias

José Maria de Eça de Queirós (1845-1900), foi um escritor e diplomata português. É considerado um dos mais importantes escritores portugueses. Foi autor de romances internacionalmente reconhecidos tais como Os Maias, O crime do Padre Amaro e Primo Basílio (Wikipédia). A obra aqui resenhada, intitulada "Os Maias" pertence à fase realista do escritor. O leitor deve lembrar de uma adaptação de tal obra produzida e veiculada pela TV Globo. Este escriba à época não assistiu a produção que contou com 45 episódios, portanto nada pode dizer sobre a mesma.

            Devo confessar que o fato de ser um calhamaço fez com que por várias vezes adiasse o início da leitura de tal livro, a exceção disso, tinha grande expectativa sobre a mesma, afinal, trata-se de uma obra de Eça de Queirós. O livro de Eça narra a história de três gerações da abastada família Maia durante o século XIX. A trama perpassa os principais acontecimentos históricos tais como a fuga da família real portuguesa para o Brasil (1808) e a Comuna de Paris (1871). A história se inicia com Afonso da Maia, o avô de Carlos, personagem principal da obra. Eça retrata o cotidiano, os costumes, o pensamento de uma típica família da elite lisboeta daquele século. O livro tem ênfase na terceira geração da família, a do neto Carlos que tem como seu principal amigo João da Ega, personagem esta que é alter ego do próprio Eça de Queirós. Carlos é filho de Pedro da Maia que se casou com Maria Monforte uma brasileira, filha de um comerciante de escravos. Tal união se deu sem a aprovação do avô Afonso. Pedro fugiu com a moça, porém, o casal sempre fez planos para retornar à casa paterna e obter o perdão do pai e a aceitação da união tendo como trunfo o casal de filhos que tiveram.

            Maria Monforte, no entanto, abandona o marido e leva a filha pequena consigo. Procurada por agentes do ex-marido, avisa que a filha havia morrido. Pedro retorna com o menino Carlos e pede desculpas ao pai. Ele estava certo. Não deveria ter se unido à brasileira. Um fato interessante na obra é o de que as personagens brasileiras (homens ou mulheres) não são consideradas confiáveis. Pedro não supera a desilusão e se suicida. O menino Carlos é criado pelo avô Afonso. João da Ega (também de família rica) voltando de viagem internacional se estabelece na casa da mãe e resolve visitar o amigo Carlos que também havia chegado a pouco de uma longa viagem. Os dois rapazes levam uma vida vazia, despreocupada e, bastante agitada no âmbito dos relacionamentos com o sexo oposto, nada, porém a sério. Isso muda quando Carlos conhece uma linda mulher (brasileira) que possuía um passado que não estava à altura da família Maia, afinal, já fora casada, possuía uma filha (Rosa) e já havia sido sustentada como amante por um brasileiro rico.

            Carlos instala secretamente a jovem Maria Eduarda em uma propriedade da família, a fim de que possa com ela conviver enquanto pensa como contar ao avô, porém, preocupado com a decepção que ele teria, é aconselhado por João a manter o relacionamento em segredo, afinal o avô (doente) tem poucos anos de vida pela frente e não deveria desapontá-lo. Dâmaso Salcede, amigo de Carlos, por despeito, faz publicar uma nota difamatória num jornal da imprensa marrom expondo o relacionamento de Carlos com Maria Eduarda. Carlos resolve chamar Dâmaso para um duelo, como este se recusa, João da Ega redige e faz com que Dâmaso copie de próprio punho uma carta de retratação em favor de Carlos. Tal carta expõe ao ridículo o autor da difamação, que, em verdade nada tinha de falsidade. A obra tem ao final uma revelação surpreendentemente trágica.

            A honestidade me cobra, portanto, afirmo que a leitura dessa obra ficou aquém do que esperava. No entanto, procurarei ler outras obras do autor. Ninguém lê o mesmo livro, portanto indico com a ressalva!

Sugestão de boa leitura:

Título: Os Maias.

Autor: Eça de Queirós.

Editora: Garnier, 2021, 529 pág.

 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Clube da luta

 

      Chuck Palahniuk (1962) é um escritor estadunidense de ascendência ucraniana. O seu trabalho mais popular é "Clube da Luta", que foi posteriormente adaptada para o cinema (Wikipédia). 

        Devo dizer que várias vezes peguei o livro nas mãos, mas acabava deixando para outro momento. Não tinha grandes expectativas quanto ao mesmo. E devo dizer que mesmo após sua leitura, não o considero uma peça brilhante da literatura estrangeira, mas, as premissas acerca das quais a obra se desenvolve trazem grande significado filosófico. 

        Como já disse em outras oportunidades, "ninguém lê o mesmo livro". O envolvimento com uma dada obra é sempre algo particular. O nível de interpretação da mesma, idem. Assisti também o filme e devo dizer que ele é uma das poucas exceções à regra de que "os livros são sempre melhores do que as adaptações para o cinema". O próprio autor afirmou que o filme dirigido por David Fincher  e estrelado por Brad Pitt é um aprimoramento de sua obra escrita. Compartilho dessa opinião. O filme é ainda melhor que a obra escrita.

            Como disse, "ninguém lê o mesmo livro", portanto não tenho a pretensão de fazer uma análise definitiva deste, meus parcos conhecimentos filosóficos e a modéstia resultante disso me impedem de tal empreitada. O filme foi indicado apenas para o Oscar de Melhor Edição de Som (2000) o qual acabou levando. A película foi muito criticada e a bilheteria ficou aquém do esperado, mas, particularmente gostei da adaptação, pois elevou a obra escrita a um patamar acima.

            A personagem principal não tem nome, chamarei apenas de narrador. A intenção do autor foi a de identificá-lo com qualquer pessoa comum da sociedade de consumo de massa estadunidense. Ele tem um emprego entediante no setor administrativo em uma montadora de automóveis. O narrador compensa seu vazio existencial gastando seu dinheiro em móveis de grife para seu apartamento. Não tem namorada e nem amigos. Considera descartáveis todos os relacionamentos, seja com os colegas de trabalho ou com as pessoas que conhece. Tinha como hábito fazer compras de artigos supérfluos e também a faxina de seu apartamento com o intuito de liberar o estresse diário.

             Ao consultar um médico sobre a insônia que sofria, este se recusa a dar-lhe drogas para dormir e aconselha-o a visitar grupos de apoio à pessoas que sofrem verdadeiramente tais como os de câncer, etc. Este se torna um hábito e um vício, frequenta-os como se doente fosse, porém, passa a se sentir um farsante quando reconhece a personagem Marla Singer que também faz o mesmo (ambos utilizam identidades falsas nestes grupos). Conversa com ela e combinam de não frequentar os mesmos grupos de apoio. Ambos são pessoas que não se ajustam à sociedade e pensam na morte como válvula de escape, porém, Marla está um passo a frente neste quesito.

            Em uma viagem de avião conhece Tyler Durden, a personagem que é o seu exato oposto. Tyler desafia as regras e as leis. É um contestador do sistema capitalista e sabotador contumaz, nem por isso ele é socialista. Trata-se de uma pessoa que deseja se vingar da escravidão do corpo e da mente imposta pela sociedade por meio de atos de rebeldia, de violência e de sabotagem. O narrador que era uma pessoa bastante introvertida torna-se amigo de Tyler e vai morar com ele quando o apartamento em que morava explode. Tyler monta o Clube da Luta (bem como as regras deste) no qual cidadãos das mais variadas profissões vão e têm como objetivo esmurrar-se uns aos outros, porém de forma organizada, um contra um e uma luta por vez. Durante o dia tais homens exercem suas profissões sem comentar como adquiriram os hematomas e cicatrizes. 

            O Clube da Luta cresce e se espalha por todo os Estados Unidos da América. A obra traz forte crítica à sociedade de consumo de massa (capitalismo), às relações descartáveis da sociedade atual (trabalho, amizades, etc.), também traz uma referência a que o Clube da Luta colocava seus membros em contato com sua verdadeira essência masculina, prejudicada pela educação dos meninos que era levada a cabo por mulheres. Paro aqui para evitar spoilers. Fica a dica da leitura e do filme disponível em vários canais de streamings.

Sugestão de boa leitura:

Título: Clube da luta.

Autor: Chuck Palahniuk.

Editora: Leya, 2012, 272 pág.


segunda-feira, 11 de julho de 2022

On the road: O manuscrito original

 

    Largar tudo e sair sem rumo certo, nem data marcada para voltar, é um desejo que povoa a mente de milhões de pessoas, mas, a verdade é que raros são aqueles que levam a termo tal desafio. Muitas são as músicas que falam desse tema e em número ainda maior os livros que sobre esse tema discorrem. São vários os compositores que influenciados por tais obras literárias escreveram letras de músicas concernentes ao tema. Algumas produções cinematográficas uniram obra literária adaptada e tais músicas.

            On the road (na estrada) do escritor estadunidense Jack Kerouac (1922-1969) é a bíblia da geração Beat. A geração Beat segundo a Revista Mundo Estranho tinha como características: a intensidade em tudo, seja no estilo narrativo, nos temas, nos personagens; a escrita compulsiva e o fluxo de pensamento desordenado, caótico¹. 

        A geração Beat foi o embrião do movimento hippie e surgiu do cansaço de tais artistas e intelectuais perante um mundo todo regrado surgido no período da Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de um movimento de contracultura. Vários elementos remanescentes do movimento hippie se denominavam Beatniks, dentre eles o maior nome sem dúvida é o de John Lennon (1940-1980) que se inspirou no movimento Beat para dar nome à sua banda Beatles².

            On the road foi originalmente traduzido para o português (brasileiro) por Eduardo Bueno (Peninha). Peninha afirma que o livro mudou sua vida e que chegou a refazer a viagem feita pelas personagens Sal Paradise, Dean Moriarty, Marylou, etc. É importante que se diga que Sal, possivelmente é o alter ego do próprio Jack Kerouac. Afinal, o engajamento profundo e a vivência das experiências levado ao extremo para depois contá-las em obras literárias são as características principais do movimento a que Kerouac fazia parte.

            Sal (Jack) viajou de leste para oeste dos Estados Unidos da América, com uma mochila nas costas e quase nenhum dinheiro. Pedia e ganhava caronas na carroceria de caminhões e também em carros de passeio. Algumas vezes tinha que contribuir no rateio do combustível. O objetivo de tal viagem era conhecer a si próprio, largando a vida convencional para ter uma experiência "mística" e assim tentar entender o significado da existência humana. No caminho, o objetivo era fazer tudo aquilo que desse vontade, sem ligar para moralismos e muitas vezes nem mesmo para a lei. Dessa forma pequenos furtos, direção perigosa no trânsito, álcool, drogas e sexo livre e desprotegido faziam parte da rotina de tais viajantes. 

            A obra de Kerouac ganhou adaptação para o cinema de Walter Salles em 2012, a qual considerei boa, pois já havia lido o livro e sabia o que esperar. Talvez não funcione tão bem para quem não leu.

P.S. Tendo lido demasiados elogios para a obra literária, minha expectativa ficou muito alta, tanto que comprei a obra física para a minha biblioteca e digital para a leitura. Após a leitura, considero que se trata de um bom livro, mas, aquém do que esperava. Talvez eu apanhe por falar isso (risos)!

Sugestão de boa leitura:

Título: On the road: O manuscrito original.

Autor: Jack Kerouac.

Editora: L&PM, 2011, 464 pág.

 

Referências:

1. https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-geracao-beat/ - acesso em 04 de Julho de 2022.

2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gera%C3%A7%C3%A3o_beat - acesso em 04 de Julho de 2022.

 

 


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Declínio de um homem

          Osamu Dazai (1909-1948) é considerado um dos maiores escritores da literatura japonesa do século XX. Ele é conhecido por seu estilo de escrita irônica e pessimista. É também um expoente na literatura do estilo Watakushi shosetsu, que se trata de romances escritos na primeira pessoa do singular e nos quais são incorporados elementos autobiográficos. 
        O autor também ficou conhecido por sua obsessão com o suicídio, traço marcante em seus livros e também em sua vida, visto que tentou o suicídio por diversas vezes até que no dia 13 de junho de 1948, juntamente com sua última mulher (Tomie Yamazaki) propositadamente lançou-se ao canal Tamagawa no qual ambos vieram a morrer afogados (Wikipédia).

            Antes de qualquer observação acerca da obra se faz necessário dizer que a leitura do livro "Declínio de um homem" possui gatilhos emocionais e que não é aconselhável para pessoas sensíveis ao tema (suicídio). A obra é um clássico da literatura japonesa, contendo elementos autobiográficos. A personagem principal é um jovem chamado Yozo que é na verdade alter ego de Osamu Dazai.

            Na obra, a personagem Yozo lê os registros que fez em três cadernos sobre sua vida e as dificuldades que encontrou no trato com as demais pessoas. Por meio da personagem Yozo, o autor expõe muitas das fraquezas e medos que o acompanharam em sua curta vida. Yozo (tal como Dazai) é um sujeito muito reflexivo sobre o sentido da vida. Desastrado, depressivo e com um sentimento de inadequação para a convivência em sociedade, porém com necessidade de aceitação, Yozo (então na escola) incorpora uma personagem na qual finge ser extrovertido e brincalhão sendo portanto o palhaço da turma, quando sua alma é apenas tristeza.

            O jovem Yozo rompeu com sua família, passou por dificuldades extremas, virou mendigo e passou a pedir esmolas. Algumas pessoas lhe ajudaram pagando o aluguel para que saísse das ruas. No trabalho, não consegue se relacionar bem com seus colegas. Yozo não possui nenhuma autoconfiança, especialmente com as mulheres das quais tem verdadeiro temor quando com elas precisa entabular conversas. Apesar disso, Yozo é considerado por estas um rapaz de uma beleza diferente, frágil, mas que não passa despercebida. Mesmo com seu pouco jeito com as mulheres, estas nunca lhe faltaram, talvez pelo contexto do país no qual grande parte da população masculina estava mobilizada para as atividades militares japonesas. No entanto, as mulheres buscam em Yozo a mera satisfação de seus desejos carnais momentâneos.

            A vida de Yozo tem a marca da degradação. Ele se entrega aos vícios cuja manutenção seu trabalho não é capaz de manter se valendo de recursos amealhados junto a algumas mulheres com quem se relaciona. O vício do alcoolismo destrói a sua saúde e a compulsão sexual que sacia sendo um assíduo frequentador de bordéis drena seus parcos recursos. A degradação da vida de Yozo é tamanha que ele acaba sendo internado numa instituição de doentes mentais, quando então ele descreve a situação de alguns destes e considera que não deveria estar lá. Yozo tem alguns poucos momentos iluminados, no entanto, sua vida é vazia de significado, como se ele tivesse sido enviado ao mundo por engano, pois, sente que este mundo não é o seu lugar. Fica a dica!

 Sugestão de boa leitura:

Título: Declínio de um homem.

Autor: Osamu Dazai.

Editora: Estação Liberdade, 2021, 152 pág.

 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço

 

Adriana Negreiros nasceu em 1974, em São Paulo, cresceu em Fortaleza e vive no Porto, em Portugal. Iniciou-se no jornalismo em 1996, como repórter de política do Diário do Nordeste, e trabalhou nas Revistas Veja, Playboy e Cláudia. Graduou-se em Filosofia pela USP, tem na obra "Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço" seu livro de estréia. (Companhia das Letras).

            Após ler o livro tomei conhecimento de que era a obra de estreia da referida autora. "E que estreia" foi o que pensei. A autora tem uma predileção pela pesquisa e desenvolvimento de obras que retratem a mulher. Afirma que sua intenção é a de resgatar as mulheres da invisibilidade a que muitas vezes lhes é imposta. 

            A obra aqui resenhada é uma narrativa do cangaço realizada sob o viés feminino, sendo este o seu diferencial em relação às demais obras já publicadas que abordavam sobretudo o modus operandi do cangaço, em especial do bando de Lampião. Adriana observou que muitas dúvidas sobre o real papel das mulheres no cangaço permaneciam e realizou uma intensa pesquisa para lançar luzes sobre o cotidiano e a realidade das mulheres dentro do cangaço. E obteve grande sucesso.

            A personagem central é Maria Bonita, mas, a autora discorre sobre o cotidiano não apenas desta, mas, das demais mulheres que ingressaram no bando e também sobre a forma como o bando agia. Inversamente ao que se popularizou, a maioria das mulheres cangaceiras ingressaram no bando sob ameaças, era acompanhar o cangaceiro ou morrer. Na época havia um temor muito grande por parte dos pais de que algum cangaceiro se encantasse por suas filhas. Este era o temor destas também. 

            Dentre as cangaceiras, algumas quando ainda brincavam de boneca foram raptadas, estupradas e obrigadas a seguir com os cangaceiros. No cotidiano, Elas deviam estar sempre disponíveis para o seu "marido", não havia possibilidade de escolha. A morte do cangaceiro não era a libertação delas, pois ficavam à disposição de qualquer cangaceiro do bando que a quisesse como mulher. E elas torciam para que isso ocorresse, pois, se assim não fosse seriam eliminadas para não contar segredos do bando.

            As mulheres cangaceiras quando capturadas pelas volantes eram tratadas com grande violência e quase sempre eram estupradas pelos policiais. Acreditava-se que elas participavam do cangaço por livre vontade, o que na quase totalidade dos casos não correspondia a verdade. Sofriam violência de seus companheiros e quando capturadas, os policiais buscavam vingar-se dos "maridos" cangaceiros, violentando-as. As mulheres tinham armas para a sua defesa pessoal, mas não participavam dos embates. Nem elas tinham essa intenção, nem os cangaceiros queriam que elas fizessem parte das refregas. 

        Sobre Maria Bonita, ela era uma mulher à frente de seu tempo. Insatisfeita e irritada com as traições do marido, viu em Lampião o passaporte para deixar o casamento. A autora afirma que, de forma geral, não se pode falar que com o ingresso das mulheres no cangaço, seus parceiros se tornaram menos violentos ou que elas estimulavam a violência destes, pois, a única mulher que tinha alguma voz perante o seu parceiro era Maria Bonita, porém, raramente Lampião atendia seus pedidos de clemência para alguma pessoa cuja sentença de morte fora por ele determinada. 

            Adultério (por parte da mulher) era algo não tolerado por nenhum cangaceiro. Lampião deixava tais casos para serem decididos pelo marido traído. Quase sempre o castigo era a morte. O nível de violência é que variava. A traição da mulher ao seu "cabra" era algo imperdoável na visão da própria Maria Bonita. A propósito, Maria Bonita tinha como nome Maria Gomes de Oliveira e era conhecida como "Maria de Déa" e ninguém no bando a chamava de Maria Bonita. Tal apelido lhe foi dado após sua morte. Enfim, concluo, dizendo que a leitura dessa obra é prazerosa e culturalmente enriquecedora!

Sugestão de boa leitura:

Título: Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço.

Autor: Adriana Negreiros.

Editora: Objetiva, 2018, 296 pág.

 


domingo, 19 de junho de 2022

Um certo Capitão Rodrigo

 

    A obra "Um certo Capitão Rodrigo" faz parte da trilogia "O tempo e o vento" do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Publicada separadamente, no entanto, é encontrada no volume 1 (O Continente). Caso o leitor tenha lido a trilogia ou o volume citado, trata-se da mesma trama lá encontrada. 

    A obra "O tempo e o vento" ganhou duas apresentações audiovisuais: a série de 1985 com Tarcísio Meira (1935-2021) no papel de Capitão Rodrigo e o filme de 2013 cujo referido papel foi protagonizado pelo ator Thiago Lacerda. Particularmente, prefiro a versão de 1985. A trama tem inspiração nos fatos históricos do tempo nela retratado, dentre estes a Guerra da Cisplatina (1825-1828) e a Revolução Farroupilha (1835-1845), mas não é de forma alguma uma obra histórica.

            Em "Um certo Capitão Rodrigo", a trama se inicia com a chegada do Capitão Rodrigo ao fictício povoado de Santa Fé no ano de 1828. A referida personagem tem uma personalidade bastante caricata, fanfarrão, mulherengo, aventureiro, porém generoso. Rodrigo é festeiro e alegre e busca a felicidade nas coisas simples do dia a dia. 

            O povoado de Santa Fé tem poucos habitantes, é um lugar pacato e, Rodrigo ao nele chegar não é bem recebido. Sua farda e fanfarronice causa ojeriza aos locais. Logo na chegada arranja confusão com Juvenal Terra que o chama para briga, Rodrigo então pede desculpas e diz que não está a fim de briga. Juvenal diz para ele que não deve esquentar assento em Santa Fé, pois, ali o povo é ordeiro, pacífico e não gosta de sujeitos que tirem o sossego do lugar. Afirma para ele que ali nada há para o seu estilo de vida, pois, as mulheres ou são casadas ou para se casar, sendo todas sérias. Rodrigo fala que gostou das paisagens do local, que pode ficar um pouco ou quem sabe o resto da vida. E diz que quando enjoar ele pega seu cavalo e como chegou, vai embora.

            O Capitão Rodrigo se aloja em um quarto na venda do Nicolau. Rodrigo, mulherengo, logo começa a dormir com Paula (a esposa deste) quando ele não se encontra em casa. A personalidade de Rodrigo quebra o sossego do local, as moças por sua vez se encantam por sua beleza. A família Amaral é a mais poderosa da localidade e, em Santa Fé eles ditam as regras. Era dia de Finados, quando Rodrigo chegou a Santa Fé e, no cemitério conhece Bibiana, a filha do melancólico e racional Pedro Terra. Bibiana é irmã de Juvenal. O Capitão Rodrigo encanta-se com a moça de 22 anos, que resiste há anos as investidas de Bento Amaral, filho do Coronel Amaral, poderoso mandatário do povoado.

             Conforme ficou sabendo da chegada de Rodrigo, o Coronel Amaral solicitou ao Padre Lara que avisasse-o que devia seguir seu caminho, pois não era do interesse da comunidade a sua permanência. Rodrigo pede ao Padre Lara para que consiga um encontro com este. O Padre Lara é um religioso que embora seja benquisto pelo povo não ousa contrariar a elite local. Rodrigo vai à casa do coronel com o intuito de conseguir o consentimento para a sua permanência, pois não deseja confusão e ir embora está fora de cogitação dada atração que sente pela filha de Pedro Terra. Ele que jamais levou moça alguma a sério, passa a afirmar que a terá como mulher, mesmo que para isso precise com ela se casar.

            No povoado todos, inclusive sua própria família, atestam que Bibiana muito se parece com sua avó Ana Terra, pois tem o mesmo gênio. O pai não gosta de Bento Amaral, por isso, jamais fez pressão para que ela com este se casasse, porém, via em Rodrigo o oposto do que desejava para a sua filha. Ver sua filha casada com Rodrigo era ainda pior do que vê-la casada com o rico herdeiro do Coronel Amaral, pelo menos com este ela teria conforto e um marido presente. Em seu ver, Rodrigo era um aventureiro e mulherengo incorrigível que após encher ela de filhos, em um dia qualquer a abandonaria  sem lhe dar satisfações e seguiria sua vida errante. 

            Bibiana, no entanto, que jamais almejou se casar, apaixonara-se por Rodrigo. Não demorou e a discórdia se instalou entre os dois pretendentes à mão de Bibiana. Bento Amaral desafia Rodrigo para um duelo. Rodrigo prontamente aceita. Com local e hora marcado, bem como escolhidos as armas e os padrinhos de cada lado. Rodrigo faz seu testamento oral (para o caso de vir a falecer) e diz que em sua família (os Cambarás) nenhum Cambará macho levou desaforo para casa. Disse ainda que nenhum Cambará macho morreu na cama, todos morreram jovens, seja nas batalhas ou em duelos e, que também ele não almeja chegar à velhice. Paro aqui para não dar spoiler, muito havia o que falar da referida obra, porém não quero estragar o prazer da descoberta na leitura.

Sugestão de boa leitura:

Título: Um certo Capitão Rodrigo.

Autor: Érico Veríssimo.

Editora: Companhia das Letras, 2005, 1ª edição, 192 pág.


domingo, 5 de junho de 2022

Covidei-me

 

        Sou uma das pessoas mais cuidadosas quanto ao uso de máscara, dessa forma, nem mesmo nas caminhadas pelas ruas a dispenso. Em meu ofício de lecionar, mesmo após a liberação para uso ou não, continuei utilizando. Foi com surpresa que após ter sintomas que poderiam ser de um estado gripal, recebi a notícia de que estava com Covid 19. A enfermeira que me atendeu disse-me que o vírus estava ativo e colocou-me uma pulseira, orientando-me sobre a necessidade do isolamento. Em seguida fiz uma consulta médica na UBS Presidente Vargas de minha cidade e somente tenho a elogiar o atendimento que recebi, seja pela atendente, a enfermeira que realizou o exame, a médica, sem esquecer, é claro o pessoal de apoio, inclusive aquele que faz a limpeza da unidade, que constitui um trabalho tão importante e tão invisibilizado pela sociedade. Passado o susto inicial, no meu caso, possuo comorbidades, avisei minha família para que se precavessem de cuidados para o meu retorno para casa.

            Minha esposa sugeriu-me que ficasse isolado na biblioteca de casa, a princípio não era essa a minha ideia, depois, considerei acertada. Nela tinha TV, computador e, claro, livros, muitos livros. Colocamos um colchão e ali fiquei isolado e, somente saía do espaço para ir ao banheiro, ocasiões em que utilizava duas máscaras. Minha família também utilizou máscaras em casa. O cuidado com a higienização dos locais em que eu tocava também foi seguido à risca. Felizmente, obtivemos sucesso e ninguém mais pegou a doença. Minha filha fez exame, porém, o caso dela era apenas dor de garganta, consultou, foi medicada e melhorou. Eu tive os seguintes sintomas: inicialmente dor de garganta, depois, sensação de obstrução das narinas (pouco muco), dor nos pulmões, tosse seca, dor de cabeça, febre leve e dores no corpo. Também tive uma espécie de conjuntivite, mesmo agora, estou colocando colírio para lubrificar os olhos, pois tenho a sensação de irritação (secura). Na volta ao trabalho, a sensação de cansaço ao lecionar foi grande (respiração ofegante). Pretendo marcar consultas com médicos pneumologista e oftalmologista para verificar estas situações.

            Quanto ao fato de me contagiar mesmo utilizando a máscara, sei que foi no local de trabalho, pois vários colegas também foram contagiados e no prazo de sete dias não estive em outro local, além de casa, onde ninguém teve a doença. Penso que talvez tenha sido no momento do lanche, ocasião em que mesmo observando algum espaço, retirava a máscara e, infelizmente, sabemos que o vírus não dá uma trégua para as refeições. Ou, quem sabe, em classe, tenha inadvertidamente colocado a mão contaminada nos olhos, vai saber. Estou escrevendo estas linhas, apenas para sugerir que continuem/voltem a usar máscaras especialmente em locais fechados, pois, se é verdade que com a vacinação os casos graves da doença ocorrem em menor proporção, ter Covid é incômodo e tira temporariamente profissionais do trabalho e estudantes das aulas. As novas variantes são ainda mais contagiosas e ninguém pode prever como seu organismo vai reagir à doença e se poderá deixar alguma sequela. No meu caso, levando em conta as comorbidades que tenho, penso que as três doses que tomei foram de grande valia contra uma manifestação mais grave da doença.  Ainda hoje li que os casos de contágio de Covid aumentaram 78% em trinta dias.

P.S. Apesar de ficar na biblioteca, pouco li, não estava com ânimo para tal. Cuide-se e aos seus! Viva a vacina! Viva o SUS!