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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço

 

Adriana Negreiros nasceu em 1974, em São Paulo, cresceu em Fortaleza e vive no Porto, em Portugal. Iniciou-se no jornalismo em 1996, como repórter de política do Diário do Nordeste, e trabalhou nas Revistas Veja, Playboy e Cláudia. Graduou-se em Filosofia pela USP, tem na obra "Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço" seu livro de estréia. (Companhia das Letras).

            Após ler o livro tomei conhecimento de que era a obra de estreia da referida autora. "E que estreia" foi o que pensei. A autora tem uma predileção pela pesquisa e desenvolvimento de obras que retratem a mulher. Afirma que sua intenção é a de resgatar as mulheres da invisibilidade a que muitas vezes lhes é imposta. 

            A obra aqui resenhada é uma narrativa do cangaço realizada sob o viés feminino, sendo este o seu diferencial em relação às demais obras já publicadas que abordavam sobretudo o modus operandi do cangaço, em especial do bando de Lampião. Adriana observou que muitas dúvidas sobre o real papel das mulheres no cangaço permaneciam e realizou uma intensa pesquisa para lançar luzes sobre o cotidiano e a realidade das mulheres dentro do cangaço. E obteve grande sucesso.

            A personagem central é Maria Bonita, mas, a autora discorre sobre o cotidiano não apenas desta, mas, das demais mulheres que ingressaram no bando e também sobre a forma como o bando agia. Inversamente ao que se popularizou, a maioria das mulheres cangaceiras ingressaram no bando sob ameaças, era acompanhar o cangaceiro ou morrer. Na época havia um temor muito grande por parte dos pais de que algum cangaceiro se encantasse por suas filhas. Este era o temor destas também. 

            Dentre as cangaceiras, algumas quando ainda brincavam de boneca foram raptadas, estupradas e obrigadas a seguir com os cangaceiros. No cotidiano, Elas deviam estar sempre disponíveis para o seu "marido", não havia possibilidade de escolha. A morte do cangaceiro não era a libertação delas, pois ficavam à disposição de qualquer cangaceiro do bando que a quisesse como mulher. E elas torciam para que isso ocorresse, pois, se assim não fosse seriam eliminadas para não contar segredos do bando.

            As mulheres cangaceiras quando capturadas pelas volantes eram tratadas com grande violência e quase sempre eram estupradas pelos policiais. Acreditava-se que elas participavam do cangaço por livre vontade, o que na quase totalidade dos casos não correspondia a verdade. Sofriam violência de seus companheiros e quando capturadas, os policiais buscavam vingar-se dos "maridos" cangaceiros, violentando-as. As mulheres tinham armas para a sua defesa pessoal, mas não participavam dos embates. Nem elas tinham essa intenção, nem os cangaceiros queriam que elas fizessem parte das refregas. 

        Sobre Maria Bonita, ela era uma mulher à frente de seu tempo. Insatisfeita e irritada com as traições do marido, viu em Lampião o passaporte para deixar o casamento. A autora afirma que, de forma geral, não se pode falar que com o ingresso das mulheres no cangaço, seus parceiros se tornaram menos violentos ou que elas estimulavam a violência destes, pois, a única mulher que tinha alguma voz perante o seu parceiro era Maria Bonita, porém, raramente Lampião atendia seus pedidos de clemência para alguma pessoa cuja sentença de morte fora por ele determinada. 

            Adultério (por parte da mulher) era algo não tolerado por nenhum cangaceiro. Lampião deixava tais casos para serem decididos pelo marido traído. Quase sempre o castigo era a morte. O nível de violência é que variava. A traição da mulher ao seu "cabra" era algo imperdoável na visão da própria Maria Bonita. A propósito, Maria Bonita tinha como nome Maria Gomes de Oliveira e era conhecida como "Maria de Déa" e ninguém no bando a chamava de Maria Bonita. Tal apelido lhe foi dado após sua morte. Enfim, concluo, dizendo que a leitura dessa obra é prazerosa e culturalmente enriquecedora!

Sugestão de boa leitura:

Título: Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço.

Autor: Adriana Negreiros.

Editora: Objetiva, 2018, 296 pág.

 


domingo, 19 de junho de 2022

Um certo Capitão Rodrigo

 

    A obra "Um certo Capitão Rodrigo" faz parte da trilogia "O tempo e o vento" do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Publicada separadamente, no entanto, é encontrada no volume 1 (O Continente). Caso o leitor tenha lido a trilogia ou o volume citado, trata-se da mesma trama lá encontrada. 

    A obra "O tempo e o vento" ganhou duas apresentações audiovisuais: a série de 1985 com Tarcísio Meira (1935-2021) no papel de Capitão Rodrigo e o filme de 2013 cujo referido papel foi protagonizado pelo ator Thiago Lacerda. Particularmente, prefiro a versão de 1985. A trama tem inspiração nos fatos históricos do tempo nela retratado, dentre estes a Guerra da Cisplatina (1825-1828) e a Revolução Farroupilha (1835-1845), mas não é de forma alguma uma obra histórica.

            Em "Um certo Capitão Rodrigo", a trama se inicia com a chegada do Capitão Rodrigo ao fictício povoado de Santa Fé no ano de 1828. A referida personagem tem uma personalidade bastante caricata, fanfarrão, mulherengo, aventureiro, porém generoso. Rodrigo é festeiro e alegre e busca a felicidade nas coisas simples do dia a dia. 

            O povoado de Santa Fé tem poucos habitantes, é um lugar pacato e, Rodrigo ao nele chegar não é bem recebido. Sua farda e fanfarronice causa ojeriza aos locais. Logo na chegada arranja confusão com Juvenal Terra que o chama para briga, Rodrigo então pede desculpas e diz que não está a fim de briga. Juvenal diz para ele que não deve esquentar assento em Santa Fé, pois, ali o povo é ordeiro, pacífico e não gosta de sujeitos que tirem o sossego do lugar. Afirma para ele que ali nada há para o seu estilo de vida, pois, as mulheres ou são casadas ou para se casar, sendo todas sérias. Rodrigo fala que gostou das paisagens do local, que pode ficar um pouco ou quem sabe o resto da vida. E diz que quando enjoar ele pega seu cavalo e como chegou, vai embora.

            O Capitão Rodrigo se aloja em um quarto na venda do Nicolau. Rodrigo, mulherengo, logo começa a dormir com Paula (a esposa deste) quando ele não se encontra em casa. A personalidade de Rodrigo quebra o sossego do local, as moças por sua vez se encantam por sua beleza. A família Amaral é a mais poderosa da localidade e, em Santa Fé eles ditam as regras. Era dia de Finados, quando Rodrigo chegou a Santa Fé e, no cemitério conhece Bibiana, a filha do melancólico e racional Pedro Terra. Bibiana é irmã de Juvenal. O Capitão Rodrigo encanta-se com a moça de 22 anos, que resiste há anos as investidas de Bento Amaral, filho do Coronel Amaral, poderoso mandatário do povoado.

             Conforme ficou sabendo da chegada de Rodrigo, o Coronel Amaral solicitou ao Padre Lara que avisasse-o que devia seguir seu caminho, pois não era do interesse da comunidade a sua permanência. Rodrigo pede ao Padre Lara para que consiga um encontro com este. O Padre Lara é um religioso que embora seja benquisto pelo povo não ousa contrariar a elite local. Rodrigo vai à casa do coronel com o intuito de conseguir o consentimento para a sua permanência, pois não deseja confusão e ir embora está fora de cogitação dada atração que sente pela filha de Pedro Terra. Ele que jamais levou moça alguma a sério, passa a afirmar que a terá como mulher, mesmo que para isso precise com ela se casar.

            No povoado todos, inclusive sua própria família, atestam que Bibiana muito se parece com sua avó Ana Terra, pois tem o mesmo gênio. O pai não gosta de Bento Amaral, por isso, jamais fez pressão para que ela com este se casasse, porém, via em Rodrigo o oposto do que desejava para a sua filha. Ver sua filha casada com Rodrigo era ainda pior do que vê-la casada com o rico herdeiro do Coronel Amaral, pelo menos com este ela teria conforto e um marido presente. Em seu ver, Rodrigo era um aventureiro e mulherengo incorrigível que após encher ela de filhos, em um dia qualquer a abandonaria  sem lhe dar satisfações e seguiria sua vida errante. 

            Bibiana, no entanto, que jamais almejou se casar, apaixonara-se por Rodrigo. Não demorou e a discórdia se instalou entre os dois pretendentes à mão de Bibiana. Bento Amaral desafia Rodrigo para um duelo. Rodrigo prontamente aceita. Com local e hora marcado, bem como escolhidos as armas e os padrinhos de cada lado. Rodrigo faz seu testamento oral (para o caso de vir a falecer) e diz que em sua família (os Cambarás) nenhum Cambará macho levou desaforo para casa. Disse ainda que nenhum Cambará macho morreu na cama, todos morreram jovens, seja nas batalhas ou em duelos e, que também ele não almeja chegar à velhice. Paro aqui para não dar spoiler, muito havia o que falar da referida obra, porém não quero estragar o prazer da descoberta na leitura.

Sugestão de boa leitura:

Título: Um certo Capitão Rodrigo.

Autor: Érico Veríssimo.

Editora: Companhia das Letras, 2005, 1ª edição, 192 pág.


domingo, 5 de junho de 2022

Covidei-me

 

        Sou uma das pessoas mais cuidadosas quanto ao uso de máscara, dessa forma, nem mesmo nas caminhadas pelas ruas a dispenso. Em meu ofício de lecionar, mesmo após a liberação para uso ou não, continuei utilizando. Foi com surpresa que após ter sintomas que poderiam ser de um estado gripal, recebi a notícia de que estava com Covid 19. A enfermeira que me atendeu disse-me que o vírus estava ativo e colocou-me uma pulseira, orientando-me sobre a necessidade do isolamento. Em seguida fiz uma consulta médica na UBS Presidente Vargas de minha cidade e somente tenho a elogiar o atendimento que recebi, seja pela atendente, a enfermeira que realizou o exame, a médica, sem esquecer, é claro o pessoal de apoio, inclusive aquele que faz a limpeza da unidade, que constitui um trabalho tão importante e tão invisibilizado pela sociedade. Passado o susto inicial, no meu caso, possuo comorbidades, avisei minha família para que se precavessem de cuidados para o meu retorno para casa.

            Minha esposa sugeriu-me que ficasse isolado na biblioteca de casa, a princípio não era essa a minha ideia, depois, considerei acertada. Nela tinha TV, computador e, claro, livros, muitos livros. Colocamos um colchão e ali fiquei isolado e, somente saía do espaço para ir ao banheiro, ocasiões em que utilizava duas máscaras. Minha família também utilizou máscaras em casa. O cuidado com a higienização dos locais em que eu tocava também foi seguido à risca. Felizmente, obtivemos sucesso e ninguém mais pegou a doença. Minha filha fez exame, porém, o caso dela era apenas dor de garganta, consultou, foi medicada e melhorou. Eu tive os seguintes sintomas: inicialmente dor de garganta, depois, sensação de obstrução das narinas (pouco muco), dor nos pulmões, tosse seca, dor de cabeça, febre leve e dores no corpo. Também tive uma espécie de conjuntivite, mesmo agora, estou colocando colírio para lubrificar os olhos, pois tenho a sensação de irritação (secura). Na volta ao trabalho, a sensação de cansaço ao lecionar foi grande (respiração ofegante). Pretendo marcar consultas com médicos pneumologista e oftalmologista para verificar estas situações.

            Quanto ao fato de me contagiar mesmo utilizando a máscara, sei que foi no local de trabalho, pois vários colegas também foram contagiados e no prazo de sete dias não estive em outro local, além de casa, onde ninguém teve a doença. Penso que talvez tenha sido no momento do lanche, ocasião em que mesmo observando algum espaço, retirava a máscara e, infelizmente, sabemos que o vírus não dá uma trégua para as refeições. Ou, quem sabe, em classe, tenha inadvertidamente colocado a mão contaminada nos olhos, vai saber. Estou escrevendo estas linhas, apenas para sugerir que continuem/voltem a usar máscaras especialmente em locais fechados, pois, se é verdade que com a vacinação os casos graves da doença ocorrem em menor proporção, ter Covid é incômodo e tira temporariamente profissionais do trabalho e estudantes das aulas. As novas variantes são ainda mais contagiosas e ninguém pode prever como seu organismo vai reagir à doença e se poderá deixar alguma sequela. No meu caso, levando em conta as comorbidades que tenho, penso que as três doses que tomei foram de grande valia contra uma manifestação mais grave da doença.  Ainda hoje li que os casos de contágio de Covid aumentaram 78% em trinta dias.

P.S. Apesar de ficar na biblioteca, pouco li, não estava com ânimo para tal. Cuide-se e aos seus! Viva a vacina! Viva o SUS!

 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Cachorro Velho

 

    É conhecida a frase de que nos pequenos frascos se encontram os grandes perfumes. Em se tratando de literatura, obviamente isso não faz sentido. Há obras maravilhosas da literatura mundial que constituem calhamaços que desencorajam as pessoas menos disciplinadas na leitura. Há porém, livros como "Cachorro Velho" de Teresa Cárdenas (1970) que nos impressionam fortemente mesmo com um número pequeno de páginas. 

        Teresa Cárdenas é uma escritora, roteirista, atriz, bailarina e ativista social cubana. A escritora é uma das mais destacadas figuras da nova geração de escritores cubanos, sendo que recebeu o Prêmio David (1997), o Prêmio Nacional da Crítica Literária (2000), o Prêmio Casa de las Américas (2005), dentre outros. É ainda uma bailarina renomada e exerce também o ofício de contadora de histórias. 

        A escritora se lamenta da pequena participação de autores negros na literatura mundial, creditando isso à falta de oportunidades concedidas às/aos mesmas(os). A Editora Pallas se insere nesse espaço com a missão de publicar no Brasil autores negros das mais diferentes nacionalidades. Algo muito importante num país que foi um dos últimos a abandonar o sistema escravista. Recentemente, tivemos a passagem do 13 de Maio (abolição da escravatura) e, 134 anos depois, os descendentes das pessoas escravizadas têm muito pouco o que  comemorar, pois, o racismo estrutural ainda é uma das características principais da nação brasileira.

            Cachorro Velho é título e também a personagem principal da obra de Teresa Cárdenas. Trata-se de um negro que nasceu em uma fazenda cubana (engenho de açúcar) e dela jamais saiu, portanto, não conhece os arredores desta. Sua mãe era africana e dela foi separado ainda muito pequeno. Conta-se que recebera o nome Eusébio dado pelo padre católico que o batizou e um nome africano dado por sua mãe, nome este que ninguém na fazenda lembra, pois, sua mãe fora vendida. Ainda bebê, buscava encontrar sua mãe pelo olfato, portanto, cheirava as mulheres que o pegavam no colo, fato pelo qual foi apelidado de Cachorro Velho pelo Senhor de Escravos que via nele atitude semelhante ao dos referidos animais. Cachorro Velho tem 70 anos e sente que está perdendo sua vitalidade e teme ser "descartado" pelo patrão, caso este faça a fria conta dos benefícios e prejuízos de sua manutenção. A idade levou Cachorro Velho a ser designado para a função de porteiro da fazenda.

            A sua atual pouca utilidade, faz com que o patrão já não adquira roupas novas para ele que anda esfarrapado pela fazenda. Seus amigos é que lhe arrumam algumas surradas vestes para cobrir o velho e maltratado corpo. Com mais tempo disponível, ele rememora sua infância e a difícil vida de escravo. Não acredita no divino e/ou no sobrenatural, embora isso seja algo muito cultuado pelos demais negros. Acredita que o inferno é a vida na escravidão e que o paraíso é ser livre, como o senhor de escravos. Ele conta que todos os escravos não podem fitar os olhos do senhor, precisam manter a cabeça baixa perante ele, falar com ele somente se preciso e, com voz suave e de cabeça baixa. Demonstra resignação ao acreditar que o senhor é dono do destino deles e a ditar se eles podem se casar ou continuar vivendo. Ele remói suas feridas psicológicas e não alimenta nenhuma esperança de ter um resto de vida melhor. Nunca conheceu o amor, não se considera normal, pois, se relacionou com várias mulheres, mas, nunca teve tal sentimento com nenhuma delas.

            O mais próximo que teve do amor, foi quando jovem, era encarregado de levar os cavalos do senhor até o rio para dar água e banho neles, quando numa destas ocasiões, viu uma linda moça negra nadando nua no rio, que lhe sorriu e chamou-o para a água, ele se atirou na água, porém, ela fugiu nadando numa velocidade que ele não era capaz de acompanhar, gritou-lhe perguntando seu nome e ela respondeu Assunción. Jamais a viu novamente, embora jamais tenha desistido de procurá-la. Beira, a escrava que produz remédios caseiros a partir de ervas medicinais é a sua melhor amiga. Ele se pergunta, se quando era jovem, caso tivesse se casado com Beira sua vida teria sido diferente, mas, não o fez e nem mesmo sabe se ela queria isso. Beira é tida pelos negros da fazenda como feiticeira, de ter poderes sobrenaturais. 

            Na fazenda, os negros escravizados buscam preservar sua cultura e fazem suas festas (quando o senhor permite), ocasião em que dançam, bebem e comem seus pratos típicos. A chegada de uma jovem escrava fugida (Aísa) de um engenho vizinho e que é escondida por Beira causa uma mudança no rumo da vida das personagens principais da trama. Encerro aqui para não estragar o prazer da leitura desta obra pelo leitor. Esse breve relato representa pouco do que a obra proporciona. Indico fortemente sua leitura.

Sugestão de boa leitura:

Título: Cachorro velho.

Autor: Teresa Cárdenas.

Editora: Pallas, 2010, 142 pág.

 


sábado, 7 de maio de 2022

O Cortiço

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913) foi um romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista, jornalista, desenhista e pintor. O autor de O Mulato (1881) e Casa de Pensão (1884) tem no livro O Cortiço (1890) sua obra-prima. A obra de Aluísio Azevedo pertence ao gênero naturalista (uma radicalização do realismo) que baseia-se na observação fiel da realidade e no empirismo. Azevedo não é somente um ficcionista, é um cientista social, pois sua literatura tem como base personagens tido como comuns entre aqueles que povoavam os inúmeros cortiços da cidade do Rio de Janeiro naquele distante século XIX. Aluísio acreditava apenas no que era cientificamente comprovável e, adepto do determinismo, acreditava que  o homem sofria as influências do meio em que vive. O determinismo postulava que fatores como a raça, o meio social e o momento histórico determinavam as atitudes e o caráter das pessoas. Hoje sabemos que o homem sofre as influências do meio, mas, que não é um ser passivo, pois,  pode transformá-lo de acordo com suas necessidades (possibilismo).

            Na obra, o protagonismo cabe ao cortiço que se constituía numa sucessão de pequenas casas ou quartos num mesmo terreno para a moradia de pessoas pobres. O autor apresenta como uma das personagens principais o capitalista João Romão, um homem sem escrúpulos no que tange a exploração econômica de seus subordinados ou com quem realiza negociatas. Bertoleza é uma escrava de ganho e, como tal, repassa dinheiro para o seu senhor e poupa parte dele para a compra de sua alforria. O senhor de escravos (proprietário de Bertoleza) morre e João Romão até então amigo de Bertoleza, passa a viver com esta e a cuidar de seu dinheiro. Cobrado por Bertoleza, João Romão falsifica um documento de alforria para enganá-la e fica com seu dinheiro, o qual utiliza para construir o cortiço. Miranda é dono de um sobrado vizinho ao cortiço de propriedade de João Romão. Miranda casou-se por interesse, sua esposa (Dona Estela) é infiel, porém, Miranda a suporta, pois, seu objetivo de vida era ser rico. Miranda compra um título de barão junto à Coroa brasileira.

            João Romão compra uma pedreira junto ao cortiço e contrata o português Jerônimo, que, juntamente com sua esposa Piedade (também portuguesa) muda-se para o cortiço. No cortiço, Jerônimo atrai os olhares da fogosa Rita Baiana, que se recusa a casar (com homem nenhum) pelo desejo de continuar a ser uma mulher livre. Jerônimo se apaixona por Rita Baiana, o que desagrada Firmo, o homem com quem Rita Baiana tem um caso de longa data. Jerônimo que era um homem sério e dedicado à família (esposa e filha) e também muito trabalhador, torna-se preguiçoso, festeiro e adúltero. Sua relação com Rita Baiana acaba ocasionando uma trágica briga com o capoeirista Firmo. João Romão se incomoda com o baronato de Miranda, o qual, por sua vez, em crise financeira promove o arranjo do casamento de sua filha Zulmira com o endinheirado João Romão. Para casar-se com Zulmira, João Romão precisa livrar-se da escrava Bertoleza e suborna o delegado de polícia para que procure o herdeiro de seu ex-proprietário para que este a retome e a conduza de volta para a senzala.

            O cortiço, no qual a trama acontece, é um microcosmos da sociedade da época vivida por Aluísio Azevedo (o Rio de Janeiro do século XIX). Os acontecimentos são ficticiamente ambientados no bairro de Botafogo. No cortiço, homossexuais, lésbicas, mascates, escravos, ex-escravos, mulheres abandonadas pelos maridos, mães solteiras, curandeiros, criminosos, alcoólatras e gigolôs se fazem presentes. Na rotina diária do cortiço,  homens e mulheres exercem sua sexualidade livre, porém, não como na atualidade se faz, ao erguer uma bandeira e contrariar regras impostas pela sociedade ou pela igreja. O autor mostra as personagens numa condição animalizada e, desta forma, movidos pelos seus instintos agem naturalmente. No cortiço, há várias personagens que demonstram possuir desvios das condições mentais consideradas normais. Os traumas de tais personagens via de regra se referem às duras condições de sobrevivência que a miséria lhes impôs, como exemplo, a mulher que abandonada pelo marido se entrega ao alcoolismo e que sofre abusos sexuais quando se encontra nessa condição e até uma personagem masculina que vive na extrema miséria, mas, tem uma fortuna guardada em seu quarto no cortiço. João Romão, o inescrupuloso proprietário do cortiço, aparece como benfeitor (abolicionista) perante  a sociedade, mas, é um sujeito disposto a tudo para defender os seus interesses. A tragédia marca o fim da obra.

            O cortiço caiu na prova de literatura do vestibular que fiz naqueles distantes anos 1990 (Só havia lido um resumo da obra em preparação). Fato que aumentou a curiosidade acerca desse livro. Li somente agora, devia tê-lo feito antes!

P.S. Há também o filme (que assisti), porém, a adaptação não é tão boa quanto o livro!

Sugestão de boa leitura:

Título: O cortiço.

Autor: Aluísio Azevedo.

Editora: Panda Books, 2017, 1ª edição, 304 pág.

 

domingo, 1 de maio de 2022

O Crepúsculo da Democracia

 

Anne Elizabeth Applebaum (1964) é uma escritora e jornalista estadunidense que desenvolveu sua carreira escrevendo artigos para alguns dos jornais mais importantes do mundo sobre o comunismo e a transição do socialismo para o capitalismo levado a cabo pelos países da Europa Oriental. Anne reside na Polônia, país no qual contraiu matrimônio com o político polonês Radoslaw Sikorski com o qual tem dois filhos. Applebaum foi ganhadora do Prêmio Pulitzer de não-ficção geral em 2004. Embora radicada na Polônia, Anne viaja muito pela Europa e não raras vezes se desloca para o seu país natal, os Estados Unidos da América. Entre seus livros de maior destaque encontra-se "Entre o Oriente e o Ocidente" e "Gulag: uma história". Applebaum é fluente em inglês, francês, polonês e russo.

            O título da obra aqui resenhada é auto-explicativo. Em "O crepúsculo da democracia: como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas", Applebaum conta sobre o estarrecimento que teve quando observou que do seu círculo próximo de amizades inclusive pessoas que recebia na sua casa para banquetes, após algum tempo, já não a cumprimentavam devido a divergência políticas. Anne se define como uma pessoa cuja ideologia a coloca na centro-direita ou mesmo na direita do espectro político. Ocorre que muitas das suas antigas amizades foram inviabilizadas. Muitas dessas pessoas afirmam que Anne é uma esquerdista, embora a jornalista afirme que ela se mantém fiel a ideologia que sempre teve e que a coloca no canto oposto da esquerda política. Antenada, Applebaum acompanha a trajetória de seus amigos e amigas e observa atônita que muitas dessas pessoas defendem posições antidemocráticas e praticam discursos de ódio.

            Na obra, Anne discorre sobre a polarização política que ocorre em vários países cuja rachadura do tecido social só faz aumentar. Comenta sobre as bolhas que se formam nas redes sociais onde quem pensa diferente é excluído ou se auto-exclui. Se informando por meio de redes sociais e sites nem sempre confiáveis quanto à qualidade da informação e, sem disposição para fazer a checagem de tais notícias, as pessoas acreditam com uma fé inquebrantável em fake news produzidas ao gosto do consumidor. A autora discorre também sobre o fascínio que o discurso autoritário desperta em pessoas que acreditam que as coisas podem ser resolvidas facilmente com o uso da força. O discurso de ódio é dirigido contra tudo aquilo que é diferente, seja o imigrante, a população LGBTQIA+, os esquerdistas, etc.

            Applebaum registra que muitas vezes tais discursos de ódio versam sobre problemas inexistentes naquele país, porém, políticos utilizam tais falas para capitalizar apoios. Ela cita a Hungria que sequer tem problema considerável quanto a entrada de imigrantes, mas, cujos discursos políticos e noticiários debatem o tema o tempo todo. Anne se diz assustada com os discursos de ódio evocando a xenofobia, o racismo, etc. proferidos por pessoas com as quais conviveu. Tais discursos versam sobre como o passado era glorioso, de que nele havia dignidade, heroísmo, etc. E denotam grande preconceito contra judeus, muçulmanos, esquerdistas, etc. A autora também afirma que a violência, seja ela, verbal ou física contra funcionários públicos, jornalistas e juízes só aumenta.

            A autora faz uma constatação importante, ela sugere que a chamada velha mídia (a mídia tradicional) perdeu a exclusividade de pautar os temas para a discussão da sociedade. Hoje quem faz isso são as redes sociais que escancararam a complexidade do mundo. As redes sociais, têm um aspecto democrático, ao possibilitar que mais parcelas da sociedade possam se ver representadas nas discussões, porém, a tendência de formação de bolhas de pensamento único tendem a manter apenas aqueles que compartilham de tal ideologia. Sem o confronto com  o discurso contraditório, as pessoas tomam como verdade, interpretações dos fatos e não os fatos em si e, dessa forma se tornam agressivos contra quem discorda da verdade, que é a única possível, a sua verdade. Os fatos já não importam. Como as redes sociais são várias e, inúmeros são os canais e sites existentes nas redes sociais, as pessoas não se entendem ao dialogar sobre determinados fatos, pois, cada um teve acesso a interpretações dos fatos e não aos fatos em si.

            A autora lembra dos fundadores dos Estados Unidos e como eles se preocuparam com o risco que políticos populistas e autoritários poderiam causar à democracia estadunidense colocando contrapesos para evitar o risco da aventura autoritária. Anne considera que não há garantias suficientes colocadas em qualquer constituição, em qualquer país do mundo, mas, que a resistência aos projetos autoritários de poder representados por políticos (por ela citados) em vários países, precisa ser sempre vigilante e atuante. Um desafio enorme tendo em vista a cacofonia que se tornou atualmente o debate sobre a política, a cultura, enfim, a sociedade.

Sugestão de boa leitura:

Título: O crepúsculo da democracia.

Autor: Anne Applebaum.

Editora: Record, 2021, 1ª ed., 167 pág.

 


sábado, 23 de abril de 2022

O Pagador de Promessas

 

    O livro "O Pagador de Promessas" do romancista, contista e teatrólogo Dias Gomes (1922-1999) é uma peça teatral do gênero dramático. Para quem não é familiarizado com a leitura de obras escritas para o teatro, elas vêm estruturadas em atos e cenas inclusive com as indicações do autor para a representação conforme ele a idealizou.

         A narrativa se desenvolve  acerca do pagamento de uma promessa cuja graça foi alcançada por Zé do Burro (personagem principal). O burro de nome Nicolau acompanhava seu tutor a todo lugar onde ia. Zé considerava o animal como seu melhor amigo. Ocorre que uma tempestade de raios ao atingir uma árvore fez com que um galho caísse sobre o animal. Acometido de forte hemorragia, o animal começou a definhar apesar de todos os cuidados prestados pelo "doutor". 

        Para salvar seu amigo, Zé recorreu a curandeiros, mas, foi em um terreiro de candomblé em que diante da imagem de Iansã (orixá feminino correspondente a Santa Bárbara no rito católico) que ele fez a promessa de dividir em partes iguais seu sítio com algumas pessoas despossuídas de terra e carregar uma cruz tão pesada quanto a de Cristo até a Igreja de Santa Bárbara que distava sete léguas (46,2 km) e colocá-la no altar da referida igreja. 

        Rosa, a matuta e sexy esposa de Zé do Burro o acompanha e eles chegam de madrugada e encontram a igreja ainda fechada. Pelo local passava um cafetão cuja alcunha é "Bonitão" que logo busca se inteirar do fato inusitado e se engraça com a atraente esposa de Zé do Burro. Rosa corresponde, talvez pela carência em um matrimônio no qual pouca atenção recebe.

            Após se inteirar da promessa de Zé do Burro, Bonitão se oferece para encontrar um hotel para eles descansarem, porém, Zé afirma que receia que a cruz seja roubada e Bonitão lhe diz que a região tem muito ladrão e que ele poderia levar Rosa para um hotel próximo para que ela então descansasse. Ardil que funcionou e dessa forma Bonitão e Rosa ficam juntos no hotel. 

           Amanhece o dia de Santa Bárbara e logo pela manhã a Igreja é aberta e o sacristão conversa com Zé do Burro e fica sabendo das intenções deste. O padre Olavo conversa com Zé do Burro e o questiona sobre sua promessa, momento em que começa a confusão. A promessa feita em um terreiro de candomblé em frente a uma imagem de Iansã para ser paga em frente a um altar da igreja católica de Santa Bárbara em troca da salvação de um animal quadrúpede (um burro) não tem a aceitação do padre que se recusa a deixá-lo entrar na Igreja. Logo a cidade toda fica sabendo do fato, e com a confusão formada, muitos querem se aproveitar da situação. 

        O comerciante busca fazer publicidade de seu estabelecimento junto ao burburinho e um jornal sensacionalista amplia o acontecimento dando ao mesmo significados totalmente distorcidos. Zé do Burro que apenas queria pagar sua promessa estampa a pagina principal do jornal ora como um revolucionário comunista que é contra a exploração do homem pelo homem, ora como um militante em favor da reforma agrária. Para a polícia passa a ser visto como um agitador social comunista que passa a vigiá-lo. O povo começa a ver nele um novo Cristo e pessoas vão até ele pedir a cura de suas doenças.

        O jornal continua a imprimir suas manchetes dando a ele novos tons: "místico ou agitador?" e a questionar o papel da Igreja na recusa de receber a cruz no altar embora não tenha nenhum interesse no desfecho do caso que lhe está possibilitando o aumento da publicidade em suas páginas e do incremento de vendas de exemplares.

            Preocupado com a dimensão que o caso tomou, o bispo vai até a paróquia para tentar resolver a situação. O bispo diz estar preocupado com a dimensão política que o caso tomou, pois, pode afetar a imagem da Igreja Católica. O padre Olavo afirma que somente viu pelo aspecto religioso no qual condenou o curandeirismo e o paganismo. O bispo tenta fazer com que Zé renuncie à sua promessa (sem sucesso). 

        A obra denuncia a intolerância religiosa, a opressão do Estado por meio da polícia e divulga aspectos da cultura popular, os bailes, a prostituição e a ingenuidade das pessoas e, claro, a ação da imprensa sensacionalista, cuja opinião é mais importante do que o fato em si. O final, obviamente, tem uma carga dramática espetacular que não revelarei aqui, apesar da ampla popularidade que alcançou. 

          A peça foi retratada em duas versões cinematográficas e, em uma minissérie pela TV Globo. Indico a versão cinematográfica de 1962, sob a direção de Anselmo Duarte e com Leonardo Villar no papel de Zé do Burro e Glória Menezes (então moça) no papel de Rosa, a qual apesar de ser em preto e branco é a melhor.

Sugestão de boa leitura:

Título: O Pagador de Promessas.

Autor: Dias Gomes.

Editora: Nova Fronteira, 2010, 152 p.