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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o martelo

 

É importante que eu diga que no meio literário há o consenso de que nenhum leitor lê o mesmo livro, afinal, a interpretação da obra também passa pela bagagem cultural e de vida de cada pessoa. Como o leitor sabe, não sou  formado em filosofia, então, na condição de leigo, escrevo apenas as minhas impressões sobre a obra em questão. "Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900) foi um filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano do século XIX, nascido na atual Alemanha. Escreveu vários textos criticando a religião, a moral, a cultura contemporânea, exibindo uma predileção pela metáfora, ironia e aforismos (WIKIPÉDIA)". A obra tem como título completo "Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o martelo". O que o autor afirma ser a filosofia do martelo diz respeito a sua intenção de quebrar ideologias que são em seu entender ídolos com pés de barro, ou seja, não se sustentam. Nietzsche afirma ser loucura sacrificar a vida por uma causa ideológica, pois, em seu ver tudo é ilusão, portanto deve-se apenas desfrutar da vida. Segundo Nietzsche dizer sim à vida é esperar menos do futuro, lamentar menos o passado que não foi bom e aceitar a vida como ela é. E considera doentio quem nega a vida como ela é (apesar de seus inúmeros pesares). Nisso critica a moral cristã, pois faz com que o homem abra mão dos seus instintos carnais para viver um ideal que em seu ver não passa de ilusão.

            O autor faz fortes críticas à cultura ocidental e à Igreja (a qual considera fator de atraso da sociedade). Como o leitor pode constatar nestas poucas linhas, o filósofo era polêmico, por isso mesmo, odiado por uns, amado por outros. Ninguém passa indiferente à leitura de sua obra. O próprio Nietzsche se considerava muito avançado para a época que estava inserido e alegava ser este o motivo de seus livros não venderem o que ele esperava. O filósofo odiava o método dialético de Sócrates e se colocava em defesa dos interlocutores humilhados pelo filósofo grego. Afirmava que a arte e não a razão deveria ser endeusada, pois, as forças ativas estariam ligadas à criação (arte) e as forças reativas à moral. Nietzsche afirmava que o racionalismo em excesso estava acabando com a humanidade.

            Interessante observar como o autor insere o termo niilismo, pois, no dicionário o mesmo se refere ao ponto de vista que considera as crenças e os valores tradicionais infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Nietzsche chama de niilistas as pessoas que desperdiçam a vida moldando sua mente e sua forma de viver em conformidade com as ideologias, a moral ou a crença cristã de uma vida após a morte, que (em seu ver) eram ídolos (com pés de barro) que pretendia destruir com sua filosofia do martelo para que o homem, enfim, livre pudesse viver (mesmo que a vida não tivesse nenhum sentido). Ao dizer sua famosa frase "deus morreu", Nietzsche estava na verdade afirmando que sua filosofia demonstrava/confirmava a morte de todas as utopias. O filósofo criticava até mesmo o ideal de igualdade dos comunistas e questionava sobre a quem interessava ou servia, pois, segundo ele a sociedade é desigual por natureza e a maioria dos indivíduos da sociedade é medíocre. Também o conceito de bem e de mal, não passou incólume ao olhar e à mente ferina do filósofo, pois, dizia que tais conceitos mudam com o passar do tempo e se diferenciam de uma região do mundo para outra e, afinal, quem afirmou que são verdadeiros? Trata-se de apenas mais um ídolo com pés de barro.

            Rememorando as instigantes aulas da disciplina isolada de filosofia de meu curso universitário nos quais tive a honra de ser aluno da Mestra Ruth Rieth Leonhardt, digo que concluí com êxito a leitura desta obra filosófica pois tenho mais dúvidas do que certezas e, segundo a citada professora esta é a função da filosofia!

Sugestão de boa leitura:

Título: Crepúsculo dos ídolos ou de como se filosofa com o martelo.

Autor: Friedrich Nietzsche.

Editora: Vozes de bolso, 2014, 120 pág.

 

 


sábado, 12 de fevereiro de 2022

Hibisco roxo

 


               Chimamanda Ngozi Adichie é uma das mais importantes e influentes jovens autoras em língua inglesa da atualidade. Ela nasceu em 15 de setembro de 1977 em Enugu, estado de Anambra na Nigéria. No entanto, cresceu na cidade universitária de Nsukka, no sudeste daquele país. Seu pai era professor universitário e sua mãe foi a primeira mulher a trabalhar como administradora naquele local. Chimamanda estudou medicina e farmácia por um ano e meio na Universidade da Nigéria. Foi editora da revista The Compass nesse período. Aos 19 anos mudou-se para os Estados Unidos para estudar comunicação e ciências políticas, na Universidade Drexel, na Filadélfia, porém, logo transferiu-se para a Universidade de Connecticut. Em 2003, concluiu seu mestrado em escrita criativa na Universidade John Hopkins de Baltimore, e em 2008 recebeu o certificado como mestre de artes em estudos africanos pela Universidade Yale. Na condição de autora recebeu vários prêmios e dentre as obras que publicou se destacam: Hibisco roxo (2003), Meio Sol amarelo (2006), No seu pescoço (2009), Americanah (2013), Sejamos todos feministas (2014), Para educar crianças feministas (2017). Atualmente divide o seu tempo de vida e de trabalho entre os Estados Unidos da América e o seu país natal, a Nigéria (Fonte: Wikipedia).

            Meu primeiro contato com a obra de Chimamanda foi por meio do livro "Sejamos todos feministas", ocasião em que coloquei seu nome na minha lista de autores a seguir, tamanha a potência do seu discurso. Em "Hibisco roxo" Adichie mostra as cicatrizes da colonização inglesa e dos constantes golpes de estado na ainda curta história da Nigéria (o país tem pouco mais de sessenta anos de independência). Um dos efeitos benéficos da leitura dessa obra é a desconstrução do estereótipo de que não apenas a Nigéria, mas, de que todo o continente africano é vítima, a de que é uma região onde somente há pobreza. A autora mostra em seu livro uma Nigéria rica, porém, com grande desigualdade social. A trama tem como personagens principais Kambili (uma menina de 15 anos), seu irmão Jaja, os pais Eugene e Beatrice e a tia Ifeoma.

            Eugene é um rico empresário, dono de um jornal que faz oposição ao governo golpista e de várias indústrias no ramo de alimentos. Eugene é chamado de "Papa" pelos integrantes da família e com sua fortuna se dedica à filantropia, ajuda a comunidade local, inclusive faz significativas doações em dinheiro para a Igreja. Eugene segue o cristianismo e critica fortemente as tradições culturais e religiosas ancestrais (nativas). Trata-se de um nigeriano que deseja viver como se europeu fosse. Eugene apesar de ser considerado um santo homem pelas pessoas de sua comunidade é um pai e esposo muito severo. Sua esposa Beatrice é submissa, ela se diz grata pela vida confortável que seu marido lhe oferece, no entanto, é vítima de sua violência. Ela também não consegue se opor ao marido e a forma áspera deste no trato com os filhos. Eugene é um fundamentalista religioso, pensa ser o guardião a zelar pelo bom caminho dos entes familiares. Ele pensa estar fazendo o que se espera de um pai cristão exemplar e temente a Deus. Eugene exige que seus filhos tirem notas máximas e sejam cada um o melhor estudante de sua turma. Em certa ocasião, Kambili não consegue ser a primeira da turma e volta para casa com os elogios de seus professores por ser uma excelente aluna (segunda colocada da turma), mas recebe castigos físicos de seu pai por não ter alcançado a única obrigação que tinha (ser a primeira colocada). Eugene somente deixa seus filhos visitarem seu próprio pai e avô (Papa Nnukwo) duas vezes por ano (Natal e Ano Novo) e durante quinze minutos. O motivo são as crenças deste na religião tradicional tidas por Eugene como pagã.

            No livro, Adichie apresenta a Nigéria por meio de descrições do cotidiano das pessoas (ricas como a família de Kambili) cujos filhos vão à escola particular num veículo Mercedes-Benz com motorista e das pessoas pobres que Kambili vê perambulando pelas ruas ganhando a sua sobrevivência na informalidade. Apesar de a Nigéria ser apresentada como um país rico (é uma potência petrolífera) há a descrição do descaso das autoridades com a infra-estrutura rodoviária e energética ofertada. Ifeoma, tia de Kambili é professora universitária, tendo ficado viúva, se recusa a casar-se novamente, pois, gosta de sua vida de viúva e considera que ruim é o patriarcado, o machismo arraigado no homem nigeriano padrão. Ifeoma também foi educada em escola cristã, mas, respeita as tradições ancestrais de seu pai (Papa Nnukwo) e de parcela significativa da sociedade. Ifeoma cria seus três filhos de forma respeitosa, libertária, ouve suas opiniões, exerce, portanto sua autoridade de forma não autoritária. Eugene é convencido por sua irmã a deixar os filhos passarem uma semana do período de férias na casa dela, onde Kambili e Jaja tomam conhecimento de como é viver de forma humilde. Kambili dorme no quarto de sua prima Amaka e fica constrangida em vê-la com a roupa de baixo, algo que aprendeu (em família) ser imoral. O pai de Kambili tem chave reserva de seu quarto para vigiar o comportamento da filha (em visitas surpresa). Kambili conhece um jovem padre que visita a casa de sua tia e passa a sentir algo por ele com que não sabe lidar direito, sendo ele um padre e ela uma pessoa com as emoções sempre reprimidas.

            Enfim, o leitor pôde constatar ao ler esta resenha que trata-se de uma obra que mostra um país africano (a Nigéria) como ela é (livre do estereótipo), as cicatrizes da colonização e a consequente aculturação da sua população, da desigualdade social, do patriarcado/machismo e o empoderamento de mulheres feministas ainda que incipiente. Quanto ao título e demais desdobramentos da obra, deixo para que o leitor descubra lendo-a, pois a recomendo fortemente!

Sugestão de boa leitura:

Título: Hibisco roxo.

Autor: Chimamanda Ngozi Adichie.

Editora: Companhia das Letras, 1ª ed., 2011, 328 pág.

 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A sociedade do cansaço

 


            Byung-Chul Han (1959) é um filósofo e ensaísta sul-coreano. Han é também professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma extensa obra marcadamente crítica à atual sociedade do trabalho e à forma como a tecnologia é utilizada no processo produtivo e suas consequências no campo social. O livro "A sociedade do cansaço" é pequeno quanto ao número de páginas, porém, denso quanto ao conteúdo. Tenho o hábito de grifar e fazer anotações à lápis, quando concluí a leitura observei que raros eram os parágrafos que não haviam grifos (risos). O filósofo sul-coreano afirma que cada época teve suas epidemias (virais ou bacteriológicas). Também nós fazemos parte da história, pois, a pandemia de Covid 19 será alvo de estudo de futuras gerações de estudantes e cientistas.

            Han faz uma comparação entre a sociedade anterior e a atual. Para o filósofo, embasado em Michel Foucault (1926-1984), a sociedade anterior era dominada pela negatividade e baseava-se no método de "vigiar e punir". Han afirma que a sociedade contemporânea é marcada pelo excesso de positividade, ou seja, é a sociedade do desempenho, da alta produtividade. Se na sociedade anterior ele tinha um patrão ou funcionário (apontador) especialmente designado que controlava o seu tempo exigindo dele a maior produtividade possível, na sociedade atual, ele é o apontador de si próprio. Pensa ter liberdade, afinal, a empresa não determina seu horário de trabalho ou o libera para realizar seu trabalho em home - office, no entanto, a moeda de troca exigida é a produtividade, melhor, a alta produtividade. O sujeito entra numa neura de demonstrar competência e muitas vezes exige de si próprio, mais do que o próprio patrão ou apontador o faria. Os capitalistas, obviamente, já constaram que dar a "liberdade" para o funcionário tendo como contrapartida a produtividade é altamente vantajoso.

            Ao se ver reconhecido como funcionário de grande produtividade, este procura manter o nível de produção ou superá-lo, pois, é seu dever, depende somente dele e a empresa é tão boa. Mas este excesso de "positividade" em buscar manter a produtividade ou superá-la, leva-o ao esgotamento físico e, principalmente mental. O trabalhador se torna escravo e tem como seu feitor ele próprio. O autor cita a frase "yes, we can" (sim, nós podemos) do ex-presidente estadunidense Barack Obama como um grande exemplo dessa ideologia. Sim, posso conseguir o que eu quiser, basta me dedicar! E isso, pode funcionar algumas vezes. Pode funcionar para algumas pessoas. Mas, nem sempre e nem para todas as pessoas. O resultado é a frustração, a depressão, enfim, o adoecimento físico e, principalmente mental.

            O autor afirma que a sociedade atual está perdendo a capacidade da contemplação, pois, não mais se aprofunda naquilo que vive e sente pelos sentidos. Os indivíduos sabem um pouco de tudo, mas, nada com profundidade. Conseguem realizar várias tarefas simultaneamente, mas, não conseguem abstrair, elaborar um raciocínio profundo acerca de um problema, ou da leitura de uma obra. Evitam o tédio e vivem suas vidas de forma rasa, seja nas relações sociais ou na busca do conhecimento. Segundo Han, o tédio profundo é um processo criativo, pois, em meio a ele ocorre a contemplação e declara "se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual". Sobre a violência que marca a nossa sociedade, Han conclui que ela é doença com causa neural. A cobrança que a sociedade faz (ou que o próprio indivíduo faz sobre si mesmo) quanto à busca de um grande desempenho produtivo mantendo-se altamente competitivo leva ao adoecimento. Enfim, para Han, vivemos numa sociedade do excesso ou da falta, é  tudo ou nada e, como tal administra-se doses cavalares de estímulos, o indivíduo é competente ou fracassado (não há meio termo). Ser normal é ser uma pessoa altamente competente, produtiva, porém, esvaziada, adoecida! Se você ainda é capaz de contemplar, de sorrir, de viver alegremente,  você não está bem, pois, foge ao padrão de normalidade!

 

Sugestão de boa leitura:

Título: A sociedade do cansaço.

Autor: Byung-Chul Han.

Editora: Vozes, 2015, 136 pág.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O Decamerão

 

"O Decamerão" é uma obra escrita e publicada na Europa do Medievo que tem por autor o poeta e crítico literário Giovanni Boccaccio (1313-1375) nascido em Certaldo, na região da Toscana, na Província de Florença (atual Itália). Boccaccio, filho de pai bancário, não quis ganhar a vida trabalhando no comércio como era a vontade de seu pai preferindo dedicar-se à leitura, ao trabalho de editor e a transcrição de obras na condição de copista, pois, a máquina de imprensa de Gutenberg somente viria à luz no século seguinte. O autor de "O Decamerão" é considerado o pioneiro do humanismo na Europa e juntamente com Dante Alighieri (1265 -1321) e Francesco Petrarca (1304 - 1374) é considerado parte das Três Coroas que fundam a Literatura Italiana. Inversamente aos dois autores citados, a formação de Boccaccio era apenas a indispensável (conhecimentos básicos) para a vida prática. Leitor ávido, foi além, e, de forma autodidata supriu as lacunas do conhecimento a que não teve acesso na formação oficial.

            O autor viveu o auge da pandemia de Peste Negra na Europa tendo se isolado entre os anos de 1348 a 1353 para evitar o contágio (ocasião aproveitada para escrever "O Decamerão"). Na narrativa da obra um grupo de jovens tendo perdido seus familiares ou, por eles terem sido abandonados, resolvem procurar um lugar para buscar relaxamento e descontração ante o cenário de caos (mortes, fome e violência) que tomara conta de Florença. O grupo formado por sete moças e três rapazes encontra um local a alguns quilômetros da cidade e nele se estabelece. Como bons moços, comportam-se adequadamente e em conformidade com os princípios familiares aprendidos. Pampinea (27 anos) é a mais velha e a líder do grupo (todos são maiores de 18 anos). Para passar o tempo e fazer com que todos (sem exceção) aproveitem bem os momentos que passarão juntos, resolvem criar tarefas que todos devem cumprir. A obra, cujo título é "O Decamerão" faz menção às dez jornadas (dias) em que cada um dos dez jovens conta uma novela sobre um tema pré-determinado. A cada dia é escolhida uma pessoa para exercer o "reinado" e esta pessoa coordenará as demais nas atividades diárias e também indicará o tema das novelas. O livro, em sua versão integral (a que li) traz cem novelas que, apesar de serem assim intituladas, são na verdade contos, pois, o livro tem pouco mais de mil páginas e, como o leitor sabe, o formato novela fica entre o conto e o romance. Então, tendo como referência o tamanho, são contos.

            Todo calhamaço (livro com mais de quinhentas páginas) assusta muitos leitores, é o caso da obra citada. Li também que muitos leitores se cansam com o fato de ler tantas narrativas sobre o mesmo tema (dez de cada). Digo que, apesar de o gênero a que pertence o livro (contos) não ser o meu preferido, a sua leitura é imperdível. Espanta que ainda na Idade Média (com toda a repressão moral e religiosa que havia) uma obra como essa tenha sido escrita e publicada. Lembremos que a Idade Média já se fazia moribunda, mas, a Sociedade Moderna ainda não havia se estabelecido. A obra traz narrativas picantes que tratam dos vícios e das virtudes do ser humano. Transborda de erotismo num texto escrito de forma elegante, sem se deixar levar pela vulgaridade. Faz críticas à classe política e eclesiástica de uma forma ferina e ao mesmo tempo leve, descontraída, pois traz no tempero grandes doses de humor. O leitor, caso deseje ler esta obra, deve fazê-lo como ao consumir uma caixa de licores, degustando parcimoniosamente (sem pressa) e, certamente, dessa forma descontraída, encontrará relaxamento e motivos para rir em meio ao caos que também nós vivemos. Escapismo é a palavra. Escapemos da doença, da morte, da angústia, enfim, do caos. Devo dizer que não se trata de um livro de humor, mas, de narrativas inteligentes e/ou bem humoradas. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: O Decamerão.

Autor: Giovanni Boccaccio.

Editora: Nova Fronteira, 2018, 1008 pág.


domingo, 23 de janeiro de 2022

O harém de Kadafi

 

 


       Muammar Muhammad Abu Minyar al-Gaddafi (1942-2011) foi o presidente da Líbia desde o ano de 1969 (quando na condição de militar liderou o golpe que depôs o monarca Idris I) até sua morte (execução) em 2011. Kadafi (na pronúncia em português) governou a Líbia com mãos de ferro apoiadas em seu serviço secreto que o abastecia com todas as informações quanto a seus opositores que eram estimulados a permanecer em silêncio ou silenciados. Kadafi era tido como excêntrico e chamava a atenção sua guarda presidencial feminina que o acompanhava nas viagens que fazia ao exterior. Também fazia parte do espetáculo, preterir os hotéis luxuosos e  instalar tendas para nelas receber as autoridades durante os dias em que ficava em território estrangeiro. Kadafi, porém, não era apenas excêntrico, era controverso, polêmico e, suas atitudes pouco democráticas fizeram com que multiplicasse o número de inimizades dentro e fora do país.

            Kadafi nascido em Sirte (cidade em que foi capturado e morto), filho de beduínos pobres cujo pai esforçou-se em colocá-lo na escola por considerar ter grande inteligência, acabou por aderir à carreira militar onde rapidamente galgou postos de comando. E foi na condição de líder militar que chegou ao poder líbio ao destituir a monarquia. Buscou sempre a união árabe (no que fracassou) e, mais tarde a união africana (também sem sucesso). No governo, publicou o Livro Verde no qual propunha uma alternativa ao socialismo real e ao capitalismo. Era um grande marqueteiro, fazia discursos inflamados e chamava a atenção mundial para temas com os quais podia capitalizar sua imagem, porém, poucas eram as ocasiões que seu discurso estava afinado com sua prática. Narcisista, estimulava a adoração à sua imagem como uma espécie de "pai de todos".

            O Governo de Kadafi caiu em meio à Primavera Árabe, ocasião em que a população saiu às ruas incitada e organizada por lideranças que  por meio das redes sociais tinham como objetivo exigir democracia, liberdade e respeito aos direitos civis. Os protestos, tal como peças de dominó enfileiradas foram se sucedendo no norte da África desde a Tunísia e atingindo países como a o Egito e a Líbia, porém, à exceção destes países citados, noutros não logrou êxito. Há estudos que demonstram que tais protestos tiveram auxílio estrangeiro (Soft Power ou Guerra Híbrida) com a intenção de desestabilizar governos refratários aos interesses das grandes potências. Tanto é verdade, que a virada na Guerra Civil Líbia se deu com a entrada das potências (Estados Unidos, Inglaterra, França e Itália) que à frente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) bombardearam as forças leais a Kadafi mudando o curso dos acontecimentos.

            As potências obviamente afirmaram que com o auxílio pretendiam retirar uma ditadura dando condições à instalação da democracia naquele país. No entanto, sabemos que estas parecem acreditar que onde há petróleo, a democracia deve receber mais estímulos. De forma alguma, criticamos as razões que levaram o povo líbio a querer mudanças na política do país, entretanto, não somos, ingênuos de acreditar que as potências o fizeram de forma desinteressada. O tempo até aqui decorrido mostrou que a revolução frustrou o sonho de dias melhores. O caos domina o país, traficantes de drogas controlam cidades, guerrilheiros tribais disputam o poder e controlam áreas do território, a economia colapsou,a pobreza aumentou enormemente.

            A jornalista francesa Annick Cojean publicou em 2012 o livro "O harém de Kadafi". Nele a autora conta a história de Soraya, uma jovem e bela estudante de 15 anos, que fora escolhida pela direção da escola em que estudava para entregar flores ao então presidente líbio em visita à cidade. Muammar recebeu as flores e afagou o cabelo de Soraya, era a senha, a líder da guarda presidencial feminina viria mais tarde buscá-la, tinha sido escolhida para o harém. Na obra, Cojean publica os relatos de Soraya, que por cinco anos teria sido mantida como escrava sexual do ditador (um grande consumidor de viagra). No palácio havia uma área em que ficavam alojadas as moças que podiam ser chamadas a qualquer momento do dia ou da noite para atender aos desejos sexuais dele. Kadafi que em seus discursos pregava os bons costumes (segundo a religião islâmica) e exaltava e valorizava o papel das mulheres na sociedade, as tratava como objetos sexuais, inclusive obrigando-as a  consumir drogas. Cojean viajou para a Líbia (após a morte de Kadafi) para buscar provas dos fatos relatados por Soraya e descobriu que o assunto virou tabu naquele país, ninguém quer falar. Parte da população, porque admirava o ex-presidente e ele está morto e, os opositores porque afirmam que isso prejudica a imagem do país no exterior. No entanto, encontrou provas e locais tais como descritos por Soraya.

Sugestão de boa leitura:

Título: O harém de Kadafi.

Autor: Annick Cojean.

Editora: Verus, 2012, 4ª edição, 238 pág.

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Torto arado

 


            O livro Torto arado do escritor Itamar Vieira Junior (ganhador em 2018 do Prêmio Leya e, em 2020 dos Prêmios Jabuti e Oceanos) foi uma grata surpresa no ano de sua publicação (2019). Seu sucesso foi tanto que suas vendas o colocam na lista dos mais vendidos ainda hoje. Não são poucos os críticos literários que afirmaram que vimos nascer um clássico da literatura nacional. Um clássico (como bem sabe o leitor) é uma obra que sobrevive ao tempo e continua a ser lida pelas novas gerações dada a importância do seu conteúdo (que não se esgota).

            A obra é dividida em três partes: Fio de Corte, Torto Arado e Rio de Sangue. Os acontecimentos da trama são apresentados por três diferentes narradoras. É um livro de conteúdo profundo, nem por isso pesado. A leitura é prazerosa e discorre sobre temas brasileiros, alguns "invisibilizados", mas que constituem grandes cicatrizes no tecido social. Temas como a disputa pela terra, o processo escravagista, a desigualdade social, a concentração da terra, o analfabetismo, a fome, a pobreza e, os aspectos positivos como a grande riqueza cultural dessa nação miscigenada a partir das diferentes matrizes (africana, indígena e europeia). O livro pertence ao gênero do realismo mágico tão popularizado na obra de Gabriel García Márquez. Isso se evidencia quando o autor discorre sobre as entidades da religiosidade africana e indígena unidas aos santos da religião católica, configurando aquilo que todos sabemos, o sincretismo religioso, que mais do que uma adaptação, foi uma forma de resistência à opressão reinante.

            A trama tem como personagens principais as irmãs Bibiana e Belonísia que sofrerão um trauma que mudará para sempre suas vidas. Personagens de destaque também são Zeca Chapéu Grande, o líder religioso (uma espécie de Xamã) que se comunica com as entidades. Severo, por sua vez é o líder sindical dos camponeses quilombolas, cujo trabalho consiste no esclarecimento e na organização da comunidade quilombola na busca pela demarcação de sua terra, o que contraria os interesses do latifúndio. A obra trata ainda da escravidão ainda hoje existente em nosso país, na forma de condições degradantes do trabalho, ou seja, análogas a escravidão. Notícias como estas, não raramente aparecem nos noticiários e geralmente envolvem latifúndios das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

            O leitor deve ter percebido que estou me esforçando em não dar spoilers, faço isso porque considero que deve ler esta obra e, não quero estragar o prazer que terá. Sabemos que ninguém lê o mesmo livro. Cada leitor encontrará nuances diferentes, porém, uma coisa é certa, a obra permite uma ampla discussão sobre o nosso país, pois, apresenta o Brasil profundo, não ficando nas camadas superficiais de uma máscara da pátria e de seu povo, que já não convencem ninguém, aqui ou no exterior.

            Recomendo fortemente a leitura! Oportunidade única de ler um clássico ainda quente, pois, recém saído do forno!

           

Sugestão de boa leitura:

Título: Torto arado.

Autor: Itamar Vieira Junior.

Editora: Todavia, 2019, 1ª edição, 264 pág.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A importância da leitura e da análise do que se lê (2021)

 

        O ano de 2021 em pouco diferiu de 2020 passando a impressão de ser sua continuidade. A pandemia parece já durar uma década, tamanha as limitações impostas à normalidade das relações sociais. A realidade socioeconômica observada diariamente nas ruas e os noticiários sobre o péssimo desempenho da economia nacional também não ajudam nenhum pouco. O ano de 2021, tal como o ano anterior, foi extremamente desgastante do ponto de vista físico, mental e emocional. Sendo a leitura algo que me proporciona relaxamento e prazer, foi na leitura que consegui um pouco de paz ante o desastroso cenário socioeconômico que se descortina para a maioria da população brasileira.

            Ao contrário do que planejava, não escolhi de forma criteriosa minhas leituras tomando como base os parâmetros levantados pela análise das leituras do ano anterior. Tendo em vista que a vida é curta, optei por ler obras de autores famosos com os quais não havia tido nenhum contato. Embora não houvesse a intenção deliberada, li setenta e dois livros, cinco a mais do que em 2020. Afinal, mais importante que a quantidade de livros que se lê é a qualidade da literatura lida.

            A iniciativa deste artigo não é a de se gabar, mas, a de inspirar. Algumas pessoas já me disseram que se iniciaram no hábito da leitura (ou a ele regressaram) ao ler as resenhas de livros que publico. Digo que também fui influenciado em tal sentido por mestres(as) que tive em toda a minha vida estudantil. Também foi assim quanto ao ato de escrever. A vida é uma troca entre gerações, apenas repasso as boas energias que recebi. No ano que passou em relação a autoria/continentes, assim foram as minhas leituras: Oceania: 1,4%; Ásia: 12,5 %; África: 2,8%; Europa: 33,3%; América: 50%. Das leituras de obras de autores americanos, a América Latina parece com 73% e a América Anglo-Saxônica com 27%. Quanto a leitura de obras latino-americanas por país: Brasil: 92% (33,3% da leitura global); Colômbia: 8%. Quanto a autoria/gênero das leituras realizadas: 77,8% sexo masculino e 22,2% sexo feminino. Outubro foi o mês que li mais (10 livros) e o mês que li menos, tal como em 2020, foi Maio (1 livro) e isso se explica pela sobrecarga do trabalho no Magistério nesta época. A partir desta análise, desejo ler em 2022 mais obras de autores latino-americanos (além do Brasil), africanos, asiáticos e, também mais obras de mulheres. Também decidi desencalhar os maiores calhamaços da estante, portanto, isso implicará em uma menor quantidade de livros a serem lidos ao longo de  2022.

             As dez melhores leituras foram: 1. Bolívar: O libertador da América (Marie Arana); 2. Torto Arado (Itamar Vieira Júnior); 3. Memorial de Maria Moura (Rachel de Queiroz); 4. Olga (Fernando Morais); 5. Flores para Algernon (Daniel Keyes); 6. Silêncio (Shusaku Endo); 7. A morte de Olivier Bécaille (Émille Zola); 8. O amante de Lady Chaterlley (D. H. Lawrence); 9. A escrava Isaura (Bernardo Guimarães); 10. Todo dia (David Levithan). Como sempre faço, para evitar injustiças atribuo menções honrosas para as seguintes obras: A Consolação da Filosofia (Boécio); 24 horas da vida de uma mulher e outras novelas (Stefan Zweig); Eu acuso! A verdade em marcha (Émille Zolla); Relato de um náufrago (Gabriel García Márquez); Notas do subsolo (Fiódor Dostoiévski); Depois de Auschwitz (Eva Schloss); O curioso caso de Benjamin Button (F. Scott Fitzgerald); Os dez dias que abalaram o mundo (John Reed); Uma esperança mais forte que o mar (Melissa Fleming); Cabul no inverno: vida sem paz no Afeganistão (Ann Jones); O livreiro de Cabul (Asne Seierstad); O harém de Kadafi (Annick Cojean).

            Em se tratando de boas leituras, foi um ótimo ano. Agora é escolher as leituras deste ano e torcer/orar pelo fim da pandemia!

P.S. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro (2021) a média de leitura do brasileiro é de 2,43 livros por ano. Que tal participar na melhora desse índice? O país e, principalmente VOCÊ, só tem a ganhar!