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sábado, 29 de maio de 2021

Carta aberta aos/às prefeitos(as)

 

            Vivemos um triste e obscuro tempo. A polarização que há muito tempo tomou conta de nosso país ideologizou até mesmo aquilo que não tem ideologia, o vírus da Covid 19 que ameaça a vida de todas as pessoas independentemente de sua ideologia ou classe social. Em todos os períodos em que a humanidade passou por epidemias/pandemias foram as autoridades da Ciência que a conduziram para o livramento do mal que a todos atingia, importa ouvi-las. Negar/subestimar a doença e a forma como ela se propaga, como se ela fosse apenas um pensamento ruim, é uma atitude irracional e irresponsável e, em todos os tempos conduziu ao desastre. O vírus é real e espreita o lar de todos. Importa agir com elevado humanitarismo, pois, cada vida importa e salvar vidas é a mais importante e nobre missão que o destino lhes confiou nesse triste momento histórico, que para sempre será lembrado, como o foram outros momentos de epidemias/pandemias pelas quais a humanidade passou. Os cientistas e historiadores, futuramente se debruçarão sobre os dados acerca da transmissibilidade do vírus, as ações tomadas e, as que deveriam e não foram tomadas por quem estava em condições de decidir, além, é claro,  da macabra contabilidade das mortes, das quais, muitas poderiam ser evitadas.

            Sou também Professor, mais, especificamente da área da Geografia. Na Geografia há um lema muito apreciado por seus profissionais e que diz: "Pense globalmente, aja localmente". Esse lema afirma que se todos pautarmos nossas ações para tornar melhor o local onde vivemos, o mundo como um todo será melhor. Essa é a missão que lhes cabe, nesse momento, de forma elevada a enésima potência. Novamente convido-os/as a se desarmar de suas ideologias partidárias e lhes digo, que também eu venho desarmado das minhas (embora não pertença aos quadros de nenhum partido político), pois, venho como cidadão e como educador e, que tal como qualquer outro, conhece a fundo a realidade das escolas e o comportamento dos estudantes (crianças e adolescentes). Vossas Senhorias sabem que os adultos não estão se comportando e tendo os cuidados necessários para evitar o contágio, como esperar isso de crianças e adolescentes? Afinal, eles não atingiram o grau de amadurecimento, de consciência sobre o risco que os cerca, além disso, são muito dispersivos, distraídos e sociáveis, carentes de contato humano, o que dificulta manterem o distanciamento. As salas de aulas são mal ventiladas e, a variante P1 de Manaus e a variante indiana B1 (que já chegou ao país) são extremamente contagiosas. As máscaras de tecido (mais utilizadas) oferecem apenas 70% de proteção e, em todos os locais onde as aulas presenciais voltaram, a taxa de transmissão e mortes aumentou (não sou eu quem diz isso, são os cientistas).

            Entendo que Vossas Senhorias estejam em "saias justas" que lhes são impostas pelo Governador do Estado e pelo Presidente da República. Entendo que ter boas relações com estas autoridades é importante para trazer recursos para vossos municípios. Entendo também que muitas pessoas da sociedade os/as criticarão por tomar medidas de segurança, mas, importa ouvir as vozes mais sensatas, as da Ciência. Mas, entendo também, que são vocês que serão responsabilizados(as) pelo aumento dos contágios que as autoridades da Ciência dizem que irão ocorrer com a retomada das aulas presenciais, pois, assim foi em Manaus e em vários locais do Brasil e do Mundo. Como educador, digo que deficiências na aprendizagem poderão ser recuperadas futuramente. Como pai, digo que prefiro encaminhar meus filhos à consultas psicológicas a arriscar suas vidas e as nossas mandando-os à escola para ter aula presencial, afinal, precisamos estar vivos para encaminhá-los na vida. O Governador do Estado não quer ficar mal com o Presidente da República e coloca nas suas mãos a decisão do retorno às aulas e, inclusive, indiretamente os/as pressiona, mas, a responsabilidade pelas mortes de estudantes, pais e demais familiares com quem os estudantes convivem serão "debitadas nas vossas contas" em termos judiciais e de consciência. O mesmo Governador (surrealmente) está tomando medidas restritivas no que lhe cabe responsabilidade (sobre a circulação de pessoas em órgãos do Governo), alguma dúvida sobre quem recairá a responsabilidade? Quanto ao Presidente está tendo suas ações/inações quanto à pandemia em curso sendo analisadas pela CPI, nesse momento, deixemo-lo de lado.

            Lembro que 1098 pessoas esperam por leitos de Covid no estado, 543 esperam leitos de UTI e que apenas 16,5% da população foi vacinada e acredita-se que a terceira onda será catastrófica. Não basta vacinar os educadores (cuja maioria ainda nem recebeu a primeira dose) que somente estarão plenamente imunizados daqui a 120 dias. A volta às aulas somente será relativamente segura com 70% da população vacinada. Nenhuma carência/transtorno psicológico é maior do que a falta de um ente querido (pais, avós, etc.) para a criança e/ou adolescente. A volta às aulas presenciais deve ocorrer quando houver segurança para todos(as). Vossas Senhorias, diferentemente do Presidente e do Governador, vêm de perto a tragédia ocorrendo e, muitas vezes, conhecem as pessoas que morrem e, cuja falta a comunidade se ressente. Reafirmo que salvar vidas é a mais nobre missão que o destino lhes confiou. Importa pecar pelo excesso, mas, nunca pela falta de esforços e por fazer ouvidos moucos à Ciência. Só a Ciência e os esforços coletivos de toda a sociedade apressarão o fim da pandemia. Cabe-lhes conduzir a comunidade nesse difícil trajeto de escuridão! Sejam luz!

sábado, 22 de maio de 2021

O bolsonarismo e o fim da era do politicamente correto

          No inicio de seu mandato, mais especificamente em seu discurso de posse, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que com sua posse, o povo brasileiro seria libertado do socialismo e do politicamente correto. Libertar o povo do socialismo é algo no mínimo cômico, afinal, quando foi, em que momento da história nacional, o Brasil foi socialista? O socialismo é um sistema socioeconômico que tem como principal característica a supressão da propriedade privada dos meios de produção (fazendas, bancos, indústrias, etc.). Isso nunca ocorreu no Brasil, portanto, jamais houve socialismo. Ao escrever estas linhas, me vejo obrigado a afirmar obviedades, mas, vivemos uma triste e obscura época em que afirmar o óbvio é uma necessidade premente. A chamada "constituição comunista", ou seja, a Constituição Federal (1988) apenas procurou garantir o atendimento a demandas estancadas da sociedade pela ditadura militar (1964-85).

            A "constituição cidadã" como chamada por Ulisses Guimarães (1916-92) procurava implantar no Brasil um Estado de Bem-Estar Social (social-democracia) oferecendo à população, em sua maioria pobre, a gratuidade do acesso à educação pública (das séries iniciais à Universidade), ao atendimento médico-hospitalar (SUS), à aposentadoria pública (garantida pelo Estado), quem já se informou sobre os problemas que o sistema privado chileno trouxe aos cidadãos daquele país sabe do que estou falando. O Brasil é talvez o único país do mundo onde o pobre que não pode pagar pelos serviços atualmente prestados pelo Estado (educação, saúde, previdência social, etc.) defende sua total privatização. Na Europa, a classe média se opõe à elite econômica (do patrimônio), pois sabe que esta ao fim e ao cabo defende ideais quanto ao papel do Estado que lhes são prejudiciais. No Brasil, há o pobre de direita, que apesar de fazer parte da classe trabalhadora e de não possuir fazendas, bancos, indústrias, etc. se une à elite patrimonial do país, porém, enquanto esta defende seus privilégios históricos, o pobre de direita (a classe média) conserva a sua pobreza.

            É com grande exasperação que assisto o Ministro da Economia Paulo Guedes reclamar do aumento da expectativa de vida da população brasileira, algo que seria comemorado por qualquer governo sensato e com senso humanitário. Guedes que já criticou o governo Lula (2003-2010) no qual, segundo ele, a empregada doméstica teria ido até para a Disneylândia, por conta do aumento do poder aquisitivo da classe trabalhadora no período, voltou à carga e criticou o fato de que o FIES financiou até a entrada do filho do porteiro na Universidade, evidenciando pensar que Universidade não é lugar de pobre. Guedes, como "Chicago boy" que é, parece não se conformar com a utilização de recursos públicos para a manutenção de Universidades públicas e para o ingresso de filhos de trabalhadores na formação superior, afinal, Universidade é local onde se formam pensadores e, gente que pensa (sobretudo das classes populares), incomoda os conservadores. Sobre a crise econômica agravada pela pandemia, Guedes disse que o Governo Federal devia ajudar as grandes empresas, pois, colocar recursos públicos nas empresas pequenininhas seria perder dinheiro. Ora, são estas as mais frágeis e as que mais oferecem empregos segundo o CAGED. Nessa fala Guedes demonstra que sua ação não é pautada em princípios de Estado e de administração racional, mas, de ideologia de classe, a classe dos super-ricos, do grande capital. Quanto aos funcionários públicos, disse serem parasitas, ou seja, sugam os recursos do Estado e nada oferecem em troca. Nesta fala, Guedes busca convencer a população de que serviços públicos não devem ser ofertados de forma pública e gratuita, dessa forma, prega o Estado Mínimo, mas, omite que o objetivo é colocar o Estado e seus recursos financeiros a serviço exclusivo dos super ricos, do rentismo (do qual ele faz parte).

            Bolsonaro, por meio de suas falas absurdas, joga cortinas de fumaça para desviar a atenção do povo, enquanto seu governo é extremamente eficiente em esquartejar o patrimônio nacional e o entregar na bandeja para o grande capital nacional e estrangeiro. Sua retórica carregada de preconceitos, ódio e pouca ou nenhuma racionalidade mantém fiel seu eleitorado formado por conservadores privilegiados, liberais fanáticos e trabalhadores analfabetos políticos. O bolsonarismo revelou ao mundo a face oculta do povo brasileiro que intelectuais ao criar o mito fundador nacional, tentaram esconder. O bolsonarismo é anterior a Bolsonaro.

sábado, 15 de maio de 2021

Os eleitores órfãos de FHC

     Quando Fernando Henrique Cardoso foi escolhido para ser o candidato à sucessão de Itamar Franco (1930-2011) nas eleições de 1994, um parlamentar situacionista contestou um cacique político idealizador/apoiador da chapa FHC (PSDB)/Marco Maciel (PFL), afirmando: "Vocês estão loucos, o homem (FHC) é comunista"! O cacique político acostumado aos meandros do poder mesmo nos tempos da ditadura militar (1964-85) e, cuja influência política alcançava toda a aldeia tupiniquim (que conhecemos como Brasil), confidenciou ao seu interlocutor: "Às vezes, para que nada mude, é necessário mudar"! 

        FHC tomou para si o título de "Pai do Plano Real", cuja verdadeira paternidade é de Itamar Franco que nunca perdoou a traição de FHC, que, sob seu apoio, foi lançado como candidato para um mandato tampão (a Constituição Federal não permitia reeleição), após o qual, Itamar desejava ser o candidato situacionista e retornar ao Planalto, porém, FHC em mais um casuísmo eleitoral (algo comum na história nacional), alterou a Constituição Federal, num "golpe branco" que contou inclusive com denúncia da compra de votos de parlamentares (caso Ronivon Santiago), possibilitando a sua reeleição em 1998. 

      FHC afirmou que não sabia da compra de votos de parlamentares, porém, me pergunto: Como parlamentar constituinte e que contribuiu na elaboração da Carta Constitucional (1988) ele não sabia que mudar a Constituição Federal de forma a beneficiar aqueles que à época eram detentores de  cargos políticos do Poder Executivo (ele, inclusive) era algo ética e moralmente condenável? Permitir a reeleição (via emenda constitucional) para os próximos mandatários, não haveria o que falar (exceto a compra de votos). Essa se tornou uma das muitas manchas na biografia de FHC, pois, se não partiu dele a iniciativa para a alteração constitucional, contou com sua anuência, pois, não se colocou contrário.

            O "príncipe dos sociólogos" (como FHC é conhecido com certa galhofa), foi escolhido para ser Ministro da Fazenda durante o governo de Itamar Franco para fazer a condução política do Plano Real.  Itamar Franco desde sua posse, em sucessão a Fernando Collor de Melo (PRN) que teve o mandato abreviado por um impeachment, concentrou esforços na área econômica e, trouxe para o governo uma  equipe de economistas experientes, cujos conhecimentos vinham de planos econômicos anteriores que ajudaram a construir, pois, sabiam o que funcionou e onde fracassaram. FHC ocupava o cargo de Ministro das Relações Exteriores e, nesse período, a equipe econômica já trabalhava na montagem do Plano Real. 

            Há entrevistas gravadas do político e economista de formação Ciro Gomes (PDT) em que ele conta toda essa história. FHC foi o lançador da nova moeda, o Real e, capitalizou para si o sucesso de todo o Plano Real, algo descabido. Como sabemos, uma mentira contada mil vezes se torna verdade, não faltam artigos jornalísticos escritos por jornalistas e políticos atribuindo a FHC, a paternidade do Plano Real, motivados pelo contexto de época. Era preciso capitalizar a campanha eleitoral de FHC e, funcionou, a eleição sob o mote "do Salvador da Pátria que nos livrou da hiperinflação", uma das muitas heranças malditas da ditadura militar, se deu com vitória no primeiro turno por meio da rotineira estratégia conservadora da "exploração do medo", pois, à Lula foi atribuído o grande risco da descontinuidade do Plano Real e, dessa forma, do fim da  estabilidade econômica.

            Enfim, concluo dizendo que o cacique político estava certo, no governo FHC (1995-2002) nada mudou, o ordenamento social vigente permaneceu. As iniciativas de cunho social foram tímidas demais. O governo do tucano ficou marcado pela implantação selvagem do fundamentalismo neoliberal no país e, pelo processo de privatização eivado de vícios que ficou conhecido como privataria (privatização+pirataria). O Estado de Bem-Estar Social previsto na Constituição Federal começou a ser desmontado e continua pelas mãos de Bolsonaro na perseguição do ideal de Estado Mínimo para o povo. 

        O eleitor de FHC/Bolsonaro perseguiu com a eleição destes, a imutabilidade do ordenamento social e, nisso foi exitoso. No entanto, entre os eleitores arrependidos de Bolsonaro, há um certo saudosismo de FHC, e isso tem sua razão de ser, afinal, mesmo para quem votou em FHC, se ver na condição de eleitor de Bolsonaro e tudo o que ele representa, sob o ponto de vista ético e moral, é algo a se esconder da biografia pessoal, pois, é fator de constrangimento.

sábado, 8 de maio de 2021

O país da hipocrisia





        A pandemia de Covid 19 escancarou a desigualdade social existente em nosso país. A crise sanitária alargou e aprofundou o fosso que sempre separou os privilegiados e os excluídos. A penúria volta aos lares de milhões de pessoas abandonadas pelo Estado Brasileiro que acena com um arremedo de auxílio emergencial. O Governo Federal empunha a bandeira do neoliberalismo com um fanatismo de corar de vergonha o presidente da nação símbolo do liberalismo mundial, os Estados Unidos, cujo presidente (Biden) acena com mais Estado.
        O Governo Bolsonaro demonstra ser incapaz de apresentar soluções para a crise sanitária, ambiental, econômica e política, pois, é a causa de muitos dos problemas que afligem a sociedade. O país virou motivo de pena, quando não de repulsa perante as nações civilizadas. Bolsonaro foi humilde quando disse que chegava ao poder para destruir tudo que o Partido dos Trabalhadores (PT) fez, pois, está ido além, há retrocessos em todas as áreas.
           Segundo o IBGE, somos a décima segunda economia e o nono país mais desigual dentre as pouco mais de duzentas nações do planeta. Há pouco tempo, sob o governo progressista de Lula (2003-2010) o Brasil se viu alçado à sexta posição dentre as maiores economias mundiais e viu a desigualdade social ter uma tímida, mas, importante redução. E isso incomodou muito os setores conservadores da sociedade.
             Os conservadores são aquelas pessoas que adoram fazer caridade nas épocas festivas, tais como o Natal, mas que não medem esforços no resto do ano e, principalmente em épocas eleitorais para evitar que a justiça social se implante de fato. Há ainda aqueles que se dizem cristãos e contraditoriamente apóiam/patrocinam os promotores do atraso social. Lembro de Paulo Freire (1921-1997) quando disse: "Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade".
            Paulo Freire é o terceiro teórico mais citado no mundo e cujas contribuições para a educação são estudadas em inúmeras universidades, dentre estas a prestigiadíssima Harvard. A extrema direita odeia Paulo Freire e, ao fazer isso, mostra seu caráter reacionário, cruel, mesquinho e egoísta ao não aceitar a evolução da sociedade. Ao não concordar que a Educação seja um lugar onde as pessoas aprendam a pensar e se tornem aptas a contribuir na melhoria da sociedade, as elites brasileiras demonstram preferir que as escolas formem um "trabalhador do tipo bovino, com muita capacidade muscular para o trabalho e com pouco cérebro para refletir", tal como o engenheiro mecânico Frederick Taylor (1856-1915) considerava ser o trabalhador ideal.
           Vi uma fotografia de um muro pichado com a frase: "a miséria não acaba porque dá lucro". A frase, de uma realidade nua e crua (que demandaria um artigo apenas para sua reflexão) escancara o projeto pensado pelas elites para o nosso país. Afinal, nenhum país historicamente posicionado entre as maiores economias mundiais se tornaria tão desigual sem que isso fizesse parte de um projeto. O projeto de acumulação selvagem. A lei do mais forte. Até mesmo o capitalismo, para funcionar de "forma azeitada" precisa de uma melhor distribuição de renda, embora por sua natureza, opere para a concentração em poucas mãos evidenciando, no mínimo, a necessidade da intervenção estatal nos moldes propostos pelo economista e capitalista John Maynard Keynes (1883-1946).
        Esse país tem suas raízes na escravidão, a escravidão legalmente não mais existe, mas, a mentalidade escravocrata nunca saiu da mente de nossas elites, quando eu digo elites, me refiro à elite econômica e a elite cultural. A elite econômica (do patrimônio) que, tal como o senhor de escravos e a elite cultural que lhe é subserviente (com origem na classe média) na qualidade de feitor de escravos, tudo fazem desde 1888, para que apesar das mudanças, nada mude de fato.
            Após a carreata dos patrões ocorrida em cerca de quinhentas cidades do Brasil em pleno 1º de maio, dia do trabalhador, uma dúvida me assalta a mente: Será que após a abolição da escravatura, os ex-senhores de escravos faziam carreatas com suas carruagens ou o que o valha na passagem da data de 13 de maio visando o bem do Brasil e dos seus líderes, enquanto estes trabalhavam para que os recém-libertos continuassem agrilhoados à senzala da pobreza e que jamais tivessem acesso à Casa Grande de uma vida com dignidade humana?

sábado, 1 de maio de 2021

A poesia que há no silêncio

 

          Em meu ofício de professor, certa vez, uma estudante, questionou-me sobre as características de uma menina bonita. Respondi-lhe que, para mim, uma menina bonita seria estudiosa, educada, simpática, esforçada, solidária e boa filha. Percebi sua cara de espanto e acrescentei que vivemos em uma sociedade que valoriza mais o "ter" e que dá pouco valor ao "ser" e, que isso está errado. Ela ouviu e assentiu e, continuei a aula, voltando ao tema específico desta. Penso que a estudante (em plena adolescência), estava refletindo sobre os ditos padrões de beleza impostos pela indústria da moda e, por meio da mídia, internalizados pela sociedade. Todos temos necessidade de aceitação e ela estava refletindo como se encaixava ante o que a sociedade espera dela. 

          É angustiante para qualquer pessoa, perceber que foge aos padrões ditados pelos fundamentalistas de plantão. Isso é ainda mais grave quando se trata de crianças e adolescentes. Não por acaso, cada vez mais, jovens procuram os consultórios de psicólogos e psiquiatras e, isso é algo necessário. No entanto, muitas vidas já se perderam e se perdem, pela falta de empatia das pessoas para com as demais. Vidas que, por esse motivo, foram abreviadas pelos autores de suas próprias histórias e, em número imensamente maior, vidas que se perdem à margem invisibilizadas por não atenderem aos padrões de "normalidade" ditados pela sociedade. Vivemos em uma sociedade doente. Eu concordo com o compositor e cantor Caetano Veloso quando diz "de perto ninguém é normal" e acrescento que muita gente está doente e se trata por conta de gente que está doente e não busca tratamento. Digo isso, não como indireta a quem quer que seja, embora não falte quem tome para si (vestindo a carapuça) artigos que escrevo de forma generalista. 

        Neste espaço, que prezo muito, não me escondo por trás das palavras para criticar a quem quer que seja. Falo de ideias, de atitudes (quando coletivas) e nunca de pessoas. Quando necessário falar de pessoas, somente faço, se forem públicas e suas atitudes (boas ou ruins) forem de interesse societário, aí as nomino. Penso que a discussão deve ficar sempre no campo das ideias e nunca avançar para o lado pessoal. Se o que escrevo incomoda, essa é a minha missão. Levar o leitor a refletir, a ser confrontado com uma visão diferente acerca dos fatos. Há que se ter maturidade para ler, refletir, concordar ou discordar, sem perder a empatia. Quando ando nas ruas, observo pessoas que torcem a cara quando me vêem, outras me cumprimentam efusivamente. Assim é a vida, o diferente assusta, pois, não se molda à caixa à qual a outra pessoa está confortavelmente instalada e, para outras pessoas, significamos o fato de saberem não estar sozinhas, pois, conosco se identificam.

        Recorrendo novamente à música, lembro de Raul Seixas (1945-89) quando entoava a música "maluco beleza"  afirmando que "as pessoas se esforçam em serem normais, fazendo tudo igual e, ele aprendendo a ser louco, maluco total, misturando a maluquez com a lucidez e, sabendo que o caminho escolhido é fácil seguir, por não ter onde ir". Ditar padrões de normalidade é um ato terrorista efetivado por pessoas e grupos que se recusam a pensar fora da confortável caixa em que se instalaram. O que é ser normal? Quem disse que a normalidade é saudável? Penso que o "normal" é um sujeito que, tal como todo o tecido social, está adoecido. 

            Entendo que é mais fácil ir a favor da correnteza do que ir contra ela, no entanto, a maioria das pessoas sequer sabe que é levado pela correnteza e, pensa conduzir sua vida, quando pouco ou nenhum controle tem sobre ela. Às vezes precisamos nos distanciar do barulho do convívio social para nos encontrarmos conosco. Precisamos de momentos a sós. Neles podemos refletir, ler um bom livro, ouvir música, contemplar a natureza. Cada pessoa precisa ser a melhor amiga de si mesma e tudo deve fazer para proteger essa amizade. Esqueça as negativas recebidas, talvez isso ocorra apenas porque você pensa "fora da caixa", o que assusta as pessoas ditas "normais". Viver em meio ao ruído das pessoas e da sociedade é inevitável, mas, sempre que possível, busque o silêncio. Nele a sabedoria e a poesia se revelam. Tenha sempre empatia, afinal, todas as pessoas estão doentes, embora muitas não saibam disso, pois, todas, sem exceção, estão vivendo momentos difíceis.

sábado, 24 de abril de 2021

O curioso caso de Benjamin Button

 

             

       O que é o tempo? Essa é uma pergunta simples cuja resposta é complexa. Quem a responde de forma simples, certamente não entendeu a profundidade das reflexões que ela traz em seu bojo. Tanto é assim que o tempo é tema constante na pauta das reflexões e discussões de filósofos. 
         Este humilde escriba, adora ler obras de filosofia, mas, jamais se alçaria ao patamar de filósofo, por não ter a formação instrucional para tal, pois, acredita que nem mesmo que fosse "expert em astrologia", poderia assim se considerar. 
        Apesar disso, em março de 2011, publiquei neste espaço uma humilde reflexão sobre o tema intitulado "Em TEMPO, sobre o TEMPO" (o artigo pode ser encontrado no blog A Vista de Meu Ponto!). Nele, de forma proposital, citei 36 vezes a palavra TEMPO, assim mesmo, em caixa alta, para evidenciar sua onipresença a atuar sobre as nossas vidas, ora nos impulsionando, ora nos oprimindo.
        Quando era um jovem professor, os adolescentes se identificavam mais comigo do que atualmente. Era comum, os adolescentes me segurarem no corredor para conversar. Eu pensava que isso ocorria porque eu era um bom professor, mas, hoje vejo, que jovem como era, não muito mais velho do eles, era devido a minha juventude que se identificavam comigo.
         Hoje, alguns bons invernos depois (nasci nessa estação), os estudantes perguntam a minha idade e eu respondo sempre "25 anos", e, eles riem, dizendo "isso é impossível..., o senhor deu aula para os meus pais". E eu respondo sempre citando o genial advogado, poeta, radialista, compositor e ator brasileiro Mario Lago (1911-2002) quando disse: "Eu fiz um acordo com o tempo...nem ele me persegue, nem eu fujo dele...qualquer dia a gente se encontra... e dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento".
         Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940), conhecido no meio literário como F. Scott Fitzgerald foi escritor, romancista, contista, roteirista e poeta. É considerado um dos maiores nomes da literatura estadunidense. Sua obra mais famosa é "O Grande Gatsby", na qual faz uma profunda crítica à sociedade dos anos 1920. 
        A intenção deste artigo é falar sobre uma obra deste autor, que tal como sua já citada obra mais famosa, também virou filme de Hollywood. Trata-se do livro "O curioso caso de Benjamin Button", no qual Benjamin nasce com a aparência e as características de um idoso para o constrangimento de seus pais e a contrariedade do médico da família. 
        A obra faz uma crítica à sociedade, que não aceita pessoas ou atitudes, que fujam dos padrões de normalidade. É a chamada caixinha em que todo mundo tem que se enquadrar e quem não se enquadra leva pauladas da sociedade "encaixada". Ninguém pode ser diferente daquilo que se espera dele. Tem que ser "normal" embora nem sempre a dita normalidade, seja um bom modelo a seguir. 
        Na trama de Fitzgerald, Benjamin (o bebê) começa a falar e já trava conversas fundamentadas de quem tem experiência de vida, e ao começar a andar, pede a seu pai uma bengala. Com o passar do tempo vai rejuvenescendo cada vez mais e, juntamente com seu rejuvenescimento, seu espírito, sua mente e seus interesses passam a ficar condizentes com a nova faixa etária. Benjamin tem uma vida de conquistas profissionais e amorosas, mas, sempre com as dificuldades que a "natureza" lhe impôs. Ao casar-se com uma moça mais nova, ela vai envelhecendo enquanto ele fica cada vez mais moço.
       É impossível ler o conto de Fitzgerald sem lembrar do ator, comediante, diretor, compositor, roteirista, cineasta, editor e músico britânico Charles Chaplin (1889-1977) quando disse: "A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está de trás para a frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado para fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo para poder aproveitar a aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade, Você vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho no colo, volta para o útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando...E termina tudo com um ótimo orgasmo. Não seria perfeito?".



Sugestão de boa leitura:

Título: O curioso caso de Benjamin Button.

Autor: F. Scott Fitzgerald.

Editora: L&PM, 2016, 96p.





sábado, 17 de abril de 2021

Sobre o Estado burguês e a ditadura do proletariado

         A comunicação é algo de suprema importância para a sociedade humana. Dela depende a democracia para o seu pleno funcionamento. Não há democracia sem imprensa livre e, não há imprensa livre sem o direito à liberdade de expressão de seus profissionais. O povo precisa estar bem informado sobre os fatos que afetam a sociedade, porém, nem sempre isso interessa aos governantes.

               Quando ditadores se instalam no poder, costumam atribuir à imprensa e aos seus profissionais, todas as ofensas possíveis. Nada que a imprensa publica é verdadeiro, tudo é manipulação com fins políticos, dizem. É verdade que em muitas empresas de comunicação há uma minoria de profissionais que não prezam pela ética no jornalismo, os quais, ao ter pela frente personagens públicas que não professam da sua "fé", agem como inquisidores numa cruzada aos "hereges", destruindo-lhes suas reputações na fogueira das convicções (desprovidas de provas), para satisfazer a seu público e patrocinadores, quando não para meramente regozijar (no ataque) a quem lhe desperta ódio por pensar diferente ou representar algo que defenestra. Sobre isso a ex-presidenta Dilma disse: "prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".

            A imprensa faz barulho e, precisa ter cada vez mais, todas as tonalidades. Neste espaço de divulgação de ideias, digito minhas letras "vermelhas" e  que representam o sangue derramado pela classe trabalhadora ao longo de sua luta histórica por direitos. Os espaços de escrita e publicação de ideias costumeiramente são negados aos trabalhadores. Todo espaço precisa ser ocupado, pois, parafraseando Neil Armstrong (1930-2012) quando esteve na lua, representa "um pequeno passo na direção da democracia plena e um grande salto conquistado para a classe trabalhadora" dado o seu simbolismo. 

            Isto posto, digo que muitos escritos brilhantes se produziu para a divulgação em jornais e revistas visando sua popularização, ou seja, alcançar os diversos estratos sociais e de formação instrucional da população. Digo isso, porque já li artigos publicados com tal intenção, mas, que constituíam verdadeiros tratados científicos, dada sua linguagem academicista. Há que se saber, que ao escrever, deve-se ter em mente o perfil do  público alvo. Dessa forma, o academicismo deve dar lugar à inteligibilidade, ou seja, a capacidade de expressar (de forma clara) o tema para o público geral e não apenas aos intelectuais.

            É nessa intenção, que tento trazer uma explicação sobre algo não compreendido por grande parcela das pessoas e, que costuma ser objeto de manipulação por parte de alguns. Na obra de Karl Marx (1818-1883) há a alusão a uma "ditadura do proletariado". E muito se fala que os simpatizantes do socialismo desejam, tal como seu ideólogo maior, a implantação de uma ditadura. Ocorre que para Marx, o termo ditadura, não tinha o significado que hoje conhecemos como designador de regimes autoritários (de exceção). Marx entendia que o Estado moderno, ou seja, o conjunto de instituições que o formam (governo, forças armadas, Justiça, etc.) foram criados pelo capitalismo e para o capitalismo, ou seja, o Estado Moderno é uma ditadura da burguesia, pois, está a serviço dos ricos. Sobre isso, muitos autores marxianos afirmam que, alcançar o poder e não derrubar os pilares do Estado burguês, implica em apenas administrar melhor o capitalismo (algo que a esquerda fez, quando no poder esteve).

            É de uma grande ingenuidade pensar que obter o poder político é deter o poder de fato. O Estado está nas mãos da burguesia (especialmente, a do setor financeiro - bancos) ela detém o poder de fato. A eleição é para dar ao povo a ilusória impressão de poder escolher o destino de suas vidas. O grande capital, com seu dinheiro, governa, e elege a maioria da bancada parlamentar, e esta  no parlamento atua de acordo a satisfazer seus patrocinadores. 

                Para tornar ainda mais claro, podemos dizer que o Estado moderno, tal como o conhecemos, existe sob a hegemonia da burguesia (sob as ordens do grande capital). Marx quando falou em ditadura do proletariado, afirmava, que o socialismo se constituiria no fato de impor a hegemonia da classe trabalhadora sobre o Estado, ou seja, colocá-lo a serviço da classe trabalhadora. Em nenhum momento Marx falou em implantar um regime de exceção (de opressão). Inclusive, em sua obra, Marx afirmou que no comunismo, ou seja, no estágio posterior ao socialismo (que representaria mera fase transitória), o próprio Estado (e suas instituições) seria extinto para que se chegasse enfim, à sociedade sem opressores e oprimidos.