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domingo, 17 de novembro de 2019

Primeiro amor




               
Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883) foi um prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo. Juntamente com Tolstói, Gogol, Tchekhov e Dostoiévski formam o primeiro time da literatura clássica russa. Turguêniev nasceu rico, a grande propriedade rural de sua mãe contava com cinco mil servos, os quais ele desobrigou de suas funções antes que o próprio Czar Alexandre II o fizesse em toda a Rússia. Apesar de ter nascido em uma família abastada, Turguêniev ganhou projeção com livros de forte cunho social e político. Seu primeiro livro com grande projeção foi “Memórias de um caçador” (1852) e nele denunciava o regime da servidão na Rússia o que demonstrava o espírito do literato que travou contato com importantes intelectuais russos, dentre eles, o teórico e militante anarquista Bakúnin. Essa obra e a atenção que chamou para si ao denunciar injustiças sociais por meio de panfletos resultou em sua prisão, porém, conta-se que o referido livro influenciou o Czar a extinguir tal sistema no país.
            Turguêniev formou-se bacharel em filosofia pela Universidade de São Petersburgo. Sem problemas financeiros a lhe atormentar a existência passava parte do ano na França, e, parte na Rússia. Jamais se casou, porém, teve um relacionamento que durou toda a vida com a cantora hispano-americana Pauline Viardot-Garcia. O detalhe é que ela era casada. Relacionou-se com algumas de suas servas e teve de forma ilegítima sua única filha, a qual foi dado o nome de Paulinette. Na Europa, Turguêniev estimulou a tradução e a publicação de autores russos, mesmo aqueles que lhe criticavam por julgá-lo mais europeu do que russo ou por ser dúbio quanto ao seu posicionamento ideológico. Isto se devia ao fato de que o escritor russo era contrário aos extremismos ideológicos. Em 1883, um câncer agressivo o deixou acamado, e, em poucos meses o matou. Acredita-se que a obra “A morte de Ivan Ilich” de Liev Tolstói tenha sido fortemente influenciada pelo trágico destino de seu compatriota e amigo Turguêniev.
            A obra “Primeiro amor” é na verdade uma novela, pois, tem cerca de cem páginas. Nela o autor explora muito pouco as questões sociais pelas quais ficou conhecido em outras de suas publicações. Turguêniev não teve grandes pretensões que não explicitar a complexidade da descoberta do amor na juventude e os sentimentos dele resultantes, e, que se fazem inesquecíveis, pois, assim é o primeiro amor de qualquer pessoa, mesmo que ao invés de alegria e conquista, este resultou em frustração e vergonha. A história começa com um jantar, sendo que a maioria dos convidados já tinha ido embora, e, para entreter os restantes, o anfitrião os desafia a contar a história de seu primeiro amor. Todos o fazem, quando chega a vez de Vladimir Petróvitch, este afirma que sua história é incomum e solicita tempo para que a escreva num caderno e conte numa próxima reunião do grupo. A contragosto eles aceitam. Vladimir conta que quando tinha dezesseis anos seus pais foram passar uma temporada na datcha (casa de campo, fazenda, chácara) e a sua vizinha era uma princesa viúva e falida que sonhava ganhar um processo judicial para tirar os pés do barro. Essa senhora tinha uma filha de vinte e um anos de idade. O rapaz ao ver a moça encantou-se com sua beleza.
A moça sabia o poder que possuía sobre os homens, seduzia-os, fazia com que fizessem seus caprichos, mas, jamais escolhia um por namorado, enfim, agia como uma verdadeira coquete. Afirmava que não pretendia se apaixonar por ninguém. Ao perceber o efeito que causava sobre Vladimir, começou a se divertir com ele, às vezes o tratava como se fosse uma criança, noutras o seduzia. Sua mãe não gostava das princesas, considerava-as vulgares e queria que o rapaz se mantivesse longe delas. Seu pai agia com superioridade em relação às vizinhas. A mãe de Vladimir, muito rica, bem educada, porém, tinha um gênio difícil. O pai, de origem humilde, tinha uma boa formação intelectual e era dez anos mais jovem que sua mãe. O pai tinha um comportamento estranho, ora ausente, ora sufocava o filho com sua atenção. O rapaz era muito cobrado a se dedicar aos estudos visando seu ingresso na universidade. E estudar não era o foco de Vladimir, pois, sua atenção toda estava na moradora da casa vizinha. Sua preocupação estava em conquistá-la e em afastar seus rivais, os rapazes que também eram iludidos pela moça. Mostrar-se homem, apesar da pouca idade e tentar caminhar com segurança no terreno movediço da primeira paixão. Paro aqui para não dar spoiler, mas, digo que esta obra tanto é leve na forma como é escrita, como pesada na trama desenvolvida. Parece despretensiosa, porém, traz à luz experiências vividas felizes ou não de pessoas que do alto de sua maturidade lamentam, riem ou se regozijam da forma como agiram quando tiveram o coração repentinamente assaltado por um sentimento até então desconhecido.

Sugestão de boa leitura:

Título: Primeiro amor.

Autor: Ivan Turguêniev.

Editora: Penguin Companhia, 2015, 108 p.

Preço: R$ 32,90.     

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A morte da verdade



               
Já escrevemos algumas vezes neste espaço sobre o tema da pós-verdade. A ele retornamos, pois, essa é a preocupação central do livro da crítica literária estadunidense Michiko Kakutani (1955). Impossível ler a obra sem ver semelhanças entre o cenário de fundo estadunidense e o brasileiro, ou seja, a campanha e o governo de Donald Trump e de Bolsonaro, pois, se fossem criações literárias estariam classificadas como distopias. 
        O livro cita um comercial da CNN que mostra a foto de uma maçã e a voz de um narrador que afirma: “Isto é uma maçã. Algumas pessoas vão tentar dizer que é uma banana. Talvez elas gritem repetidas vezes: ‘banana, banana, banana’. Talvez elas escrevam BANANA em letras maiúsculas. Talvez você até mesmo comece a acreditar que é uma banana. Mas não é. Isto é uma maçã.” Sobre isso, a autora cita a frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan: “Todo mundo tem direito de ter suas próprias opiniões, mas, não seus próprios fatos”.
Vivemos um momento em que uma parcela da sociedade acredita que não há história, nem ciência ou verdade, tudo é mera opinião. Verdades científicas passaram a ser contestadas tendo como argumentação o senso comum. Se a soma de dois mais dois é igual a quatro e do ponto de vista restrito da matemática isto é uma verdade universal inquestionável. Apontar resultado diferente soaria ridículo, porém, não faltam pessoas a falsear a história, a verdade e a apontar a extensa pesquisa de intelectuais como mera opinião. 
O intelectual lê centenas de artigos e livros, não raro dedica toda sua vida para entender um objeto de estudo, e, um sujeito que não leu mais que gibis em sua adolescência e revistas/sites de fofoca na idade adulta, sentindo-se empoderado pelo computador/celular ligado à Internet o contrapõe sentindo-se o dono da única verdade. A dele!  Não é à toa que temos os terraplanistas, os negadores do holocausto, do aquecimento global, da evolução das espécies, ou ainda, os que afirmam que o nazismo era de esquerda, que os governos petistas (neoliberais) instalaram o socialismo no país e quebraram o Brasil, quando à luz da razão não é possível afirmar nada disso. Nas palavras de Umberto Eco (1932-2016): “a Internet deu voz a uma legião de imbecis com o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio Nobel e promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”
             As pessoas se isolam dentro de suas comunidades virtuais das redes sociais, conversam geralmente com as pessoas que pensam de igual forma e, escolhem no supermercado midiático a “versão” da verdade que lhe é mais palatável. Quando há o encontro com aquele que tem uma opinião divergente, os insultos ocupam o lugar da argumentação e, quando esta se realiza, demonstra a pobreza intelectual característica de quem despreza a razão. Há na atualidade um desprezo à ciência, à universidade, aos professores, ao poder Judiciário, à imprensa livre. 
                Trump nos Estados Unidos profere a média de 7,6 mentiras diárias e ataca as instituições (a imprensa, o poder legislativo, o poder judiciário, etc.) e nega a veracidade de dados oficiais. Segundo Kakutani isto tem erodido fortemente a democracia estadunidense. Da mesma forma, o clã Bolsonaro age no Brasil. O filho do presidente (Eduardo Bolsonaro) afirmou que bastava um jipe e um soldado cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal, recentemente afirmou que um novo AI-5 seria a resposta caso as ruas fossem tomadas pela oposição. Não há uma pesquisa sobre quantas mentiras o presidente brasileiro conta diariamente, mas, é por todos sabido a sua prática de culpar a imprensa alegando ter sido mal interpretado, ou ainda, por se desculpar à tarde ou à noite pelo que disse de manhã.
Tanto Trump como Bolsonaro utilizaram em suas campanhas frases curtas exortando valores tradicionais, além do medo e do ódio, e, fizeram uso de fake news direcionadas por bots (programas de software automatizados que executam tarefas repetitivas na Internet, imitando ou substituindo ações humanas) a um público específico previamente selecionado pela inteligência artificial. Steve Bannon, a mente por trás da Cambridge Analytica ajudou a eleger Trump e tem ligações com o clã Bolsonaro. A Cambridge Analytica trabalha com mineração de dados e a divulgação de mensagens específicas por meios de bots que interagem como se humanos fossem com as pessoas escolhidas reforçando nelas ideias e convicções pré-constatadas, dentre elas o medo e o ódio ao imigrante nos Estados Unidos, e o medo e o ódio aos comunistas, aos petistas, aos esquerdistas no Brasil.
 Kakutani fala em seu livro que as eleições que elegeram Trump foram influenciadas pela Rússia por meios cibernéticos ao disseminar fake news contra Hillary Clinton e promover Trump por meio da disseminação de mensagens sobre questões como imigração, religião e raça visando ampliar a divisão entre os eleitores que não têm o hábito de averiguar a autenticidade da informação. Segundo Kakutani, o alvo ideal das fake news não é o fascista convicto ou o comunista, mas, o cidadão comum, que não tem o hábito de checar a veracidade da informação que recebe e que, assim pode ter sua visão de mundo moldada conforme desejam os manipuladores. Triste época! Concluo indicando fortemente a leitura desta obra!

Sugestão de boa leitura:

Autor: Michiko Kakutani.
Editora: Intrínseca, 2018, 270 p.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O corcunda de Notre Dame



               
No dia 15 de abril deste ano, os jornais divulgaram o enorme incêndio que atingiu a catedral de Notre Dame em Paris, cujas consequências não foram ainda maiores devido à eficiência do corpo de bombeiros que evitou que o edifício colapsasse. Essa mesma catedral conquistou fama internacional devido à obra do escritor francês Victor-Marie Hugo (1802-1885). É também graças ao célebre escritor que a catedral não veio abaixo quando várias outras construções históricas foram desmanchadas para dar lugar à modernidade, seja na forma de prédios ou de avenidas mais largas. Aliás, Victor Hugo, não se conformava com a modernização de Paris estar sendo feita colocando abaixo edifícios que em seu ver constituíam monumentos históricos e arquitetônicos insubstituíveis. Vitor Hugo foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos. Em sua grandiosa obra, destacam-se os livros: Os miseráveis (1862) e O corcunda de Notre Dame (1831) publicado originalmente com o título Notre Dame – Paris, 1482. Em muitos países, a obra é publicada com este título, porém, com a supressão da data. Por questões comerciais, em vários países o corcunda foi alçado ao papel principal, porém, há várias personagens principais na obra, o arquidiácono Claude Frollo, o corcunda Quasímodo, a cigana Esmeralda, o ator e escritor de peças teatrais Gringoire, o comandante militar Phoebus, a reclusa Gudule, porém, a personagem principal é a Catedral de Notre Dame, pois, é sobre ela e o seu entorno no qual se desenvolve a trama que Hugo após fazer uma grande pesquisa histórica buscou retratar.
            Na obra em questão, Hugo busca mostrar uma faceta da sociedade parisiense no período medieval. Visa também mostrar que, inversamente ao que se pensa, o medievo foi um período de produções filosóficas e artísticas importantes. Na obra, o autor parece nos conduzir pela mão em meio às ruas de Paris daquele longínquo ano de 1482, algo que o era até para ele, pois, viveu no século XIX. A riqueza de detalhes com que descreve as ruas de Paris e os prédios que havia, os quais sequer chegou a conhecer, torna evidente a esmerada pesquisa que realizou. O detalhismo com que descreve a Paris de 1482 pode se tornar cansativa para alguns leitores, para outros, como é o meu caso, trata-se de puro deleite, pois, ao ler, as imagens se formam na mente como se lá estivesse caminhando e sendo apresentado à cidade por Victor Hugo. É certo que Hugo procurou descrever minuciosamente a arquitetura da Paris de 1482, pois, sabia que diante da destruição de muitas maravilhas arquitetônicas, resgatá-las em sua obra constituía a única forma de fazer com que elas não caíssem no esquecimento total. Dessa forma, descreveu em detalhes as mudanças pela qual a catedral de Notre Dame passou por causa de saques e reformas mal feitas devido o descaso e despreparo dos profissionais nela envolvidos visando registrar para a posteridade o significado arquitetônico e cultural para a humanidade da catedral construída entre 1163 a 1345 que mescla o estilo gótico e românico.
Na obra, Hugo mostra a divisão da Paris de 1482 (que ainda pode ser facilmente localizada na planta da Paris atual) em três partes que simbolizavam também a divisão de poderes da época: a Île de La Cité (ilha onde fica a catedral e que simbolizava a Igreja Católica), a Université (onde até hoje ficam antigas e famosas universidades como a Sorbonne) e, a Ville (que representava a Coroa) e também onde ficavam os senhores feudais (o rei não tinha o poder absoluto sobre a cidade). No meio, espremidas e oprimidas ficavam as pessoas comuns. Como o livro tinha objetivo comercial, afinal, se tratava da encomenda de uma obra sobre o medievo feita pelo seu editor, Hugo, bem ao seu estilo, não deixou de fazer uma crítica social à Igreja e à Coroa, enfim, ao sistema social vigente e as injustiças dele resultantes, porém, incluiu na trama um sacerdote angustiado pelos votos de castidade feitos a Deus e o desejo ardente que sente pela bela cigana Esmeralda, por quem também, o corcunda se apaixona, esta por sua vez se apaixona por Phoebus, um militar. As personagens construídas por Hugo na obras são complexas. Dom Claude Frollo é gentil, caridoso, porém, também egoísta e violento. Quasímodo, o corcunda, não é a mera personificação da beleza interior num corpo feio, pois, apresenta uma personalidade que é também sombria. Phoebus é mulherengo e superficial. Gringoire é talentoso, mas, também tolo. Enfim, se você for ler a obra esqueça o desenho animado dos estúdios Disney, Victor Hugo era adepto do realismo e, portanto, em sua obra não há final feliz, muito pelo contrário. Também, no filme que assisti por meio do You Tube constatei que a adaptação apresenta muitos reducionismos, simplificações e omissões de personagens que considero importantes, além de reinterpretações de algumas passagens da obra de Hugo, mesmo assim, vale assistir para ter uma ideia geral, porém, tendo em mente que o livro é muitíssimo melhor.

Sugestão de boa leitura:

Título: O corcunda de Notre Dame.
Autor: Victor Hugo.
Editora: Zahar, 2015, 621 p.
Preço: R$ 30,99 – R$ 54,90.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Lula é antes de tudo um forte! Parte 3



Na política externa o país ocupou uma posição de destaque com uma postura mais assertiva e independente em relação aos Estados Unidos da América e à Europa. Lula liderou esforços na construção do G20 e do BRICS, sendo que também priorizou as relações econômicas com o MERCOSUL e no âmbito Sul-Sul. Em seu governo houve crises políticas e denúncias de corrupção como aquelas ventiladas na AP 470, na qual houve a utilização da teoria do domínio do fato de forma equivocada, fato denunciado até pelo seu autor, o jurista alemão Claus Roxin. Diante disso, todos contavam Lula como carta fora do baralho e, ele conseguiu o que muitos não acreditavam, se reelegeu e em seu segundo mandato fez sua melhor gestão. Diante da crise de 2008, afirmou que ela era um Tsunami lá fora e que no país chegaria como uma marolinha. De fato, por ter reduzido fortemente a divida em dólares, inclusive quitando os débitos com o FMI, e por ter feito uma grande reserva cambial, o país suportou bem a crise, a economia cresceu bastante e, ele terminou o segundo mandato com aprovação recorde (80,5% de ótimo/bom segundo a CNT/Sensus). Até um de seus opositores, o político mineiro Aécio Neves (PSDB) afirmou em entrevista que não se comparava a Lula que em seu ver era alguém fora do comum e que um dia seria objeto de estudos. De fato, o então presidente Lula seduziu a brasileiros e estrangeiros, seu pouco estudo não o impediu de desenvolver uma poderosa oratória que cativava desde trabalhadores pobres a reis e rainhas. O presidente estadunidense Obama disse certa vez: “Lula é o cara! O presidente mais popular da Terra! Adoro esse cara”.
            Quando a Operação Lava Jato foi deflagrada e passou a aceitar delações premiadas sem comprovações materiais, e utilizando práticas tidas como pouco ou nada ortodoxas, ficou evidente que a cereja do bolo era enquadrar Lula. Diante de conduções coercitivas ilegais e grampos até da Presidente da República (um crime gravíssimo) houve quem o aconselhasse a deixar o país ou a pedir asilo numa embaixada. Lula se recusou. Contrariando a Constituição Federal que dita que ninguém pode ser preso antes do trânsito em julgado, Lula foi preso quando estava na liderança nas pesquisas de opinião para a eleição de 2018. Na ocasião estava na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o qual se encontrava cercado por dez mil apoiadores dispostos a defendê-lo contra a prisão, porém, resolveu se entregar, contrariando-os. Sua prisão direta ou indiretamente entregou as chaves do Planalto ao segundo colocado (Bolsonaro) deixando na população uma forte sensação de golpe, sensação esta que se fez maior quando o juiz Moro aceitou o convite para ocupar o cargo de Ministro da Justiça no governo de Bolsonaro, o principal beneficiado com a retirada de Lula da disputa eleitoral.
            Preso há mais de quinhentos dias, Lula que nunca deixou de afirmar a ilegalidade e a arbitrariedade do processo que o condenou, afirmou que não barganha sua absolvição, não quer a progressão para o regime semi-aberto e que deseja sair apenas quando o processo for anulado, sua inocência reconhecida e que ao sair seus acusadores adentrem a prisão pelos atos arbitrários praticados. Lula nunca esteve sozinho, pois, nas imediações da Polícia Federal foi montado o acampamento Lula Livre, e, todos os dias, faça sol ou chuva, o ex-presidente recebe saudações de seus simpatizantes, os quais afirmam que somente sairão do local quando Lula for libertado. Na prisão, o ex-presidente recebeu inúmeras visitas de grandes personalidades nacionais e estrangeiras. Recentemente Lula ganhou mais um prêmio, foi agraciado com o título de Cidadão de Honra de Paris, título concedido a dezessete pessoas entre elas Nelson Mandela. Lula ganhou esse título por sua luta pela democracia, contra a miséria e, principalmente por ser considerado um preso político. Em grande parte dos países desenvolvidos há a convicção de que Lula não teve direito a um julgamento imparcial e que sua defesa foi cerceada. O ex-presidente é um dos brasileiros com mais honrarias acumuladas dentre eles trinta e cinco títulos Honoris Causa. Atualmente concorre ao premio Jabuti por seu livro “A verdade vencerá” e chegou a ser indicado ao prêmio Nobel da Paz. Lula que já chorou muitas perdas, dentre elas as das esposas Maria de Lourdes da Silva (1969-1971) e Marisa Letícia Lula da Silva (1974-2017), e outros entes queridos como o seu irmão Vavá e o neto Arthur de apenas sete anos (na prisão), somente não perde a esperança. Parafraseando Euclides da Cunha, Lula é antes de tudo um forte!

Referências:

A outra história do mensalão. Geração Editorial (2013) - Paulo Moreira Leite.
A outra história da Lava-Jato. Geração Editorial (2015) - Paulo Moreira Leite.
Lula: o filho do Brasil. Editora Fundação Perseu Abramo (2004) - Denise Paraná.
Viagens com o presidente: dois repórteres no encalço de lula do Planalto ao exterior. Editora Record (2006) – Eduardo Scolese e Leonencio Nossa.
Wikipédia. Luiz Inácio Lula da Silva. Disponível em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_In%C3%A1cio_Lula_da_Silva – acesso em 06 de outubro de 2019.

Lula é antes de tudo um forte! Parte 2



Na condição de parlamentar, Lula percebeu que as mudanças que a classe trabalhadora precisava somente viriam quando esta chegasse ao Planalto. Candidatou-se em 1989 e foi derrotado por Fernando Collor numa das eleições mais sujas da história. Collor foi apoiado pela grande mídia capitaneada pela Rede Globo. E o império midiático não hesitou em utilizar de todas as artimanhas possíveis, mesmo as mais grotescas com vistas a derrotá-lo e eleger o seu candidato. A chantagem da elite capitalista ameaçando fechar empresas e retirar o capital do país também teve grande importância. Mas a estratégia mais sórdida sempre foi causar medo na população menos culta da sociedade, lançando o que hoje chamamos de “fake news” de que as pessoas teriam que dividir seus bens com os que nada possuem. A Globo editou o último debate entre os contendores, levando ao ar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Como se não bastasse, o programa eleitoral de Collor levou uma fake news ao ar na sua última edição e este contando com a participação de sua ex-namorada (com quem teve a filha Luriam) que afirmava que Lula queria que ela fizesse aborto. Lula somente conseguiu desmentir essa versão após a eleição, porém, o estrago já estava feito. Após a derrota, Lula foi chamado a dar palestra na França, sendo que recebeu passagem de primeira classe para a viagem. No avião, a aeromoça lhe ofereceu o cardápio e, dentre as opções, ele pediu caviar. A aeromoça, então disse: Seu Lula, se o povo brasileiro visse o senhor pedindo caviar, queria ver como o senhor iria explicar..., Lula irritado, interrompeu e disse: escuta aqui aeromoça, tem virado de feijão? E ela respondeu que não, e Lula disse: então traga o caviar e pára de encher o saco!
Nas eleições de 1994 e 1998 Lula perdeu a eleição para FHC que se auto-intitulou de forma farsesca como o pai do Plano Real e como a única garantia de sua manutenção. Como a Constituição Federal não permitia a reeleição, FHC conseguiu aprovar em benefício próprio uma emenda constitucional para permitir sua candidatura à reeleição em 1998. Houve denúncias, inclusive com fartas provas da compra de votos de parlamentares, mas, com a maioria no Congresso ficou por isso mesmo, o Judiciário também não se moveu em direção ao que dele sempre se espera e nem sempre se logra conseguir. O povo exausto da hiperinflação herdada do regime militar e dos fracassos anteriores em domá-la sentiu-se refém do medo e concedeu a FHC outra vitória. Após três derrotas consecutivas, não faltavam pessoas a aconselhar Lula a candidatar-se a outro cargo. E a estes respondia que somente se candidataria a presidente. E em 2002, após redigir a Carta ao Povo Brasileiro, Lula se elegeu no dia do seu aniversário de 57 anos (27/10/2002). Não sem muitas demonstrações de ódio e preconceito quanto a sua origem humilde por parte da grande mídia e de parcela da classe média, porém, sua posse foi em tom festivo e com grande participação popular como jamais visto no país. Sua eleição se deveu em grande parte à péssima gestão de FHC em seu segundo mandato que começou com a maxidesvalorização do real, o baixo crescimento econômico, a submissão ao FMI e culminou com o apagão energético de 2001, pois, no afã de tudo privatizar, seu governo não fez o dever de casa planejando o aumento da oferta de energia com novas unidades geradoras. O pífio segundo mandato de FHC levou o povo a desejar mudança e Lula representava essa mudança. Tendo sido muito criticado por sua aliança com partidos e políticos conservadores durante seu governo afirmou: “se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. No seu discurso de diplomação fortemente emocionado disse: “E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República de meu país”.
            Seu governo obteve sucesso na área econômica, porém, foi criticado pelo excessivo conservadorismo, houve quem o considerasse um traidor da classe trabalhadora ao não romper com o sistema neoliberal que, sabemos tem no sistema financeiro sua ponta de lança, embora em sua “Carta ao Povo Brasileiro” já deixasse evidente que não romperia. Sua política econômica ficou conhecida como “ganha-ganha”, pois acreditava que todos poderiam ganhar juntos. Sua ingenuidade se demonstrou ao acreditar nessa utópica conciliação de classes, pois, ignorou a mentalidade escravocrata de nossas elites, segundo a qual ganhar dinheiro é importante, porém, manter a separação entre a Casa Grande e a Senzala é ainda mais. Mesmo assim, na área social criou importantes programas como o Fome Zero e o Bolsa Família (que retiraram o Brasil do Mapa da Fome da ONU) sendo que este último nada tem a ver com os programas sociais de FHC no que concerne ao montante de recursos e de famílias beneficiadas.

Lula é antes de tudo um forte! Parte 1




Costuma-se dizer que as adversidades forçam as pessoas a se superarem. Nada é mais verdadeiro quando se fala de Lula. Luís Inácio “Lula” da Silva nasceu a 27 de outubro de 1945 em Caetés (então distrito de Garanhuns em Pernambuco). A localidade conhecida nacionalmente como uma das mais pobres do Brasil. Sétimo filho de um total de oito do casal Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo. A poucos dias do nascimento de Lula, seu pai deixou dona Eurídice e migrou para a região sudeste para trabalhar como estivador no Porto de Santos. Porém, levou uma prima de Eurídice com quem constituiu nova família. Contando as duas famílias, Lula teve mais de vinte irmãos (alguns já morreram).
            Dona Lindu (apelido de dona Eurídice) sozinha segurou o rojão, cuidou dos filhos e estimulado por seu filho Jaime que tinha ido morar com o pai no litoral paulista resolveu embarcar num “pau de arara” com os filhos e deixar a seca e a miséria de Caetés para trás. No início as duas famílias conviveram juntas, mas, a agressividade com que o pai de Lula tratava seus filhos levou Dona Lindu a mudar-se para uma casa que de tão precária, o telhado desabou. Aos sete anos Lula vendia laranjas e retirava lenha, mariscos e caranguejos do mangue. Alfabetizado por insistência de sua mãe, pois, seu pai não queria que os filhos estudassem, na opinião dele os filhos deveriam trabalhar. Quando a família mudou-se para São Paulo perderam o contato com o pai. Em São Paulo foi engraxate e auxiliar de escritório. Na escola do SENAI fez o curso de tornearia mecânica e quando trabalhava numa siderúrgica que produzia parafusos esmagou seu dedo mínimo que precisou ser amputado. O seguro contra acidentes de trabalho da empresa lhe possibilitou comprar móveis e um terreno para sua mãe, mas não o livrou de desenvolver complexo psicológico que após alguns anos superou.
            Em 1965 ficou muito tempo desempregado e para sobreviver teve que fazer “bicos” (trabalhos eventuais). Adorava jogar futebol, mas, era resistente a participar de sindicatos. Seu irmão Frei Chico queria que entrasse para a militância sindical e também para o “partidão” como era chamado o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Lula resistia, pois, tinha uma visão negativa do sindicato e da política. No entanto, apesar de sua inexperiência sindical todos notavam o carisma e o espírito de liderança de Lula. Como diz o adágio: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, Frei Chico o convenceu a participar da chapa, eleito, foi picado pelo "bichinho da militância” e passou a disputar novas eleições, sendo que a cada eleição galgava novas posições dentro do sindicato até o dia em que chegou à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Como presidente do sindicato foi orientado a esperar o fim da ditadura militar para promover greves, discordou, afirmando que a greve não podia esperar até que o país voltasse à democracia. Em certa feita, agentes da ditadura cortaram o som e Lula no alto de um palanque improvisado falava frases curtas que eram repetidas pelos grevistas para os que se encontravam mais distante dele. Por liderar greves no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 foi processado e preso com base na Lei de Segurança Nacional. Ao receber o comunicado de prisão acendeu um cigarro e entrou resignadamente na viatura. Foi condenado a três anos e meio de prisão por incitação à desordem coletiva (como o governo da ditadura entendia as greves), recorreu e foi absolvido no ano seguinte. Nessa época tomou conhecimento da morte de seu pai que, no entanto, já havia sido enterrado como indigente há vários dias.
            Na condição de sindicalista percebeu que o poder do sindicato não era suficiente para melhorar as condições de vida da classe trabalhadora, era necessário disputar o poder político e, a pré-condição era criar um partido político comprometido com a classe trabalhadora. Líderes do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) dentre eles, Ulysses Guimarães o convidaram para filiar-se, mas, ele resistiu afirmando que desejava criar um partido da classe trabalhadora. Ulysses lhe disse que fundar um partido era trabalhoso e fazê-lo ter alcance nacional era muito difícil, porém, Lula não desistiu da ideia e junto a sindicalistas, intelectuais, representantes dos movimentos sociais e católicos militantes da Teologia da Libertação fundou o Partido dos Trabalhadores, hoje o partido brasileiro com o maior número de filiados e o segundo maior do mundo.  Como dirigente sindical, Lula ganhou projeção nacional e foi um dos personagens centrais na campanha pelas Diretas Já, cuja Emenda Constitucional Dante de Oliveira acabou sendo derrotada pela máquina da ditadura militar. A eleição seria novamente indireta. Em 1986, Lula foi à época o deputado federal mais votado e trabalhou na construção da Carta Magna.