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sábado, 15 de maio de 2021

Os eleitores órfãos de FHC

     Quando Fernando Henrique Cardoso foi escolhido para ser o candidato à sucessão de Itamar Franco (1930-2011) nas eleições de 1994, um parlamentar situacionista contestou um cacique político idealizador/apoiador da chapa FHC (PSDB)/Marco Maciel (PFL), afirmando: "Vocês estão loucos, o homem (FHC) é comunista"! O cacique político acostumado aos meandros do poder mesmo nos tempos da ditadura militar (1964-85) e, cuja influência política alcançava toda a aldeia tupiniquim (que conhecemos como Brasil), confidenciou ao seu interlocutor: "Às vezes, para que nada mude, é necessário mudar"! 

        FHC tomou para si o título de "Pai do Plano Real", cuja verdadeira paternidade é de Itamar Franco que nunca perdoou a traição de FHC, que, sob seu apoio, foi lançado como candidato para um mandato tampão (a Constituição Federal não permitia reeleição), após o qual, Itamar desejava ser o candidato situacionista e retornar ao Planalto, porém, FHC em mais um casuísmo eleitoral (algo comum na história nacional), alterou a Constituição Federal, num "golpe branco" que contou inclusive com denúncia da compra de votos de parlamentares (caso Ronivon Santiago), possibilitando a sua reeleição em 1998. 

      FHC afirmou que não sabia da compra de votos de parlamentares, porém, me pergunto: Como parlamentar constituinte e que contribuiu na elaboração da Carta Constitucional (1988) ele não sabia que mudar a Constituição Federal de forma a beneficiar aqueles que à época eram detentores de  cargos políticos do Poder Executivo (ele, inclusive) era algo ética e moralmente condenável? Permitir a reeleição (via emenda constitucional) para os próximos mandatários, não haveria o que falar (exceto a compra de votos). Essa se tornou uma das muitas manchas na biografia de FHC, pois, se não partiu dele a iniciativa para a alteração constitucional, contou com sua anuência, pois, não se colocou contrário.

            O "príncipe dos sociólogos" (como FHC é conhecido com certa galhofa), foi escolhido para ser Ministro da Fazenda durante o governo de Itamar Franco para fazer a condução política do Plano Real.  Itamar Franco desde sua posse, em sucessão a Fernando Collor de Melo (PRN) que teve o mandato abreviado por um impeachment, concentrou esforços na área econômica e, trouxe para o governo uma  equipe de economistas experientes, cujos conhecimentos vinham de planos econômicos anteriores que ajudaram a construir, pois, sabiam o que funcionou e onde fracassaram. FHC ocupava o cargo de Ministro das Relações Exteriores e, nesse período, a equipe econômica já trabalhava na montagem do Plano Real. 

            Há entrevistas gravadas do político e economista de formação Ciro Gomes (PDT) em que ele conta toda essa história. FHC foi o lançador da nova moeda, o Real e, capitalizou para si o sucesso de todo o Plano Real, algo descabido. Como sabemos, uma mentira contada mil vezes se torna verdade, não faltam artigos jornalísticos escritos por jornalistas e políticos atribuindo a FHC, a paternidade do Plano Real, motivados pelo contexto de época. Era preciso capitalizar a campanha eleitoral de FHC e, funcionou, a eleição sob o mote "do Salvador da Pátria que nos livrou da hiperinflação", uma das muitas heranças malditas da ditadura militar, se deu com vitória no primeiro turno por meio da rotineira estratégia conservadora da "exploração do medo", pois, à Lula foi atribuído o grande risco da descontinuidade do Plano Real e, dessa forma, do fim da  estabilidade econômica.

            Enfim, concluo dizendo que o cacique político estava certo, no governo FHC (1995-2002) nada mudou, o ordenamento social vigente permaneceu. As iniciativas de cunho social foram tímidas demais. O governo do tucano ficou marcado pela implantação selvagem do fundamentalismo neoliberal no país e, pelo processo de privatização eivado de vícios que ficou conhecido como privataria (privatização+pirataria). O Estado de Bem-Estar Social previsto na Constituição Federal começou a ser desmontado e continua pelas mãos de Bolsonaro na perseguição do ideal de Estado Mínimo para o povo. 

        O eleitor de FHC/Bolsonaro perseguiu com a eleição destes, a imutabilidade do ordenamento social e, nisso foi exitoso. No entanto, entre os eleitores arrependidos de Bolsonaro, há um certo saudosismo de FHC, e isso tem sua razão de ser, afinal, mesmo para quem votou em FHC, se ver na condição de eleitor de Bolsonaro e tudo o que ele representa, sob o ponto de vista ético e moral, é algo a se esconder da biografia pessoal, pois, é fator de constrangimento.

sábado, 8 de maio de 2021

O país da hipocrisia





        A pandemia de Covid 19 escancarou a desigualdade social existente em nosso país. A crise sanitária alargou e aprofundou o fosso que sempre separou os privilegiados e os excluídos. A penúria volta aos lares de milhões de pessoas abandonadas pelo Estado Brasileiro que acena com um arremedo de auxílio emergencial. O Governo Federal empunha a bandeira do neoliberalismo com um fanatismo de corar de vergonha o presidente da nação símbolo do liberalismo mundial, os Estados Unidos, cujo presidente (Biden) acena com mais Estado.
        O Governo Bolsonaro demonstra ser incapaz de apresentar soluções para a crise sanitária, ambiental, econômica e política, pois, é a causa de muitos dos problemas que afligem a sociedade. O país virou motivo de pena, quando não de repulsa perante as nações civilizadas. Bolsonaro foi humilde quando disse que chegava ao poder para destruir tudo que o Partido dos Trabalhadores (PT) fez, pois, está ido além, há retrocessos em todas as áreas.
           Segundo o IBGE, somos a décima segunda economia e o nono país mais desigual dentre as pouco mais de duzentas nações do planeta. Há pouco tempo, sob o governo progressista de Lula (2003-2010) o Brasil se viu alçado à sexta posição dentre as maiores economias mundiais e viu a desigualdade social ter uma tímida, mas, importante redução. E isso incomodou muito os setores conservadores da sociedade.
             Os conservadores são aquelas pessoas que adoram fazer caridade nas épocas festivas, tais como o Natal, mas que não medem esforços no resto do ano e, principalmente em épocas eleitorais para evitar que a justiça social se implante de fato. Há ainda aqueles que se dizem cristãos e contraditoriamente apóiam/patrocinam os promotores do atraso social. Lembro de Paulo Freire (1921-1997) quando disse: "Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade".
            Paulo Freire é o terceiro teórico mais citado no mundo e cujas contribuições para a educação são estudadas em inúmeras universidades, dentre estas a prestigiadíssima Harvard. A extrema direita odeia Paulo Freire e, ao fazer isso, mostra seu caráter reacionário, cruel, mesquinho e egoísta ao não aceitar a evolução da sociedade. Ao não concordar que a Educação seja um lugar onde as pessoas aprendam a pensar e se tornem aptas a contribuir na melhoria da sociedade, as elites brasileiras demonstram preferir que as escolas formem um "trabalhador do tipo bovino, com muita capacidade muscular para o trabalho e com pouco cérebro para refletir", tal como o engenheiro mecânico Frederick Taylor (1856-1915) considerava ser o trabalhador ideal.
           Vi uma fotografia de um muro pichado com a frase: "a miséria não acaba porque dá lucro". A frase, de uma realidade nua e crua (que demandaria um artigo apenas para sua reflexão) escancara o projeto pensado pelas elites para o nosso país. Afinal, nenhum país historicamente posicionado entre as maiores economias mundiais se tornaria tão desigual sem que isso fizesse parte de um projeto. O projeto de acumulação selvagem. A lei do mais forte. Até mesmo o capitalismo, para funcionar de "forma azeitada" precisa de uma melhor distribuição de renda, embora por sua natureza, opere para a concentração em poucas mãos evidenciando, no mínimo, a necessidade da intervenção estatal nos moldes propostos pelo economista e capitalista John Maynard Keynes (1883-1946).
        Esse país tem suas raízes na escravidão, a escravidão legalmente não mais existe, mas, a mentalidade escravocrata nunca saiu da mente de nossas elites, quando eu digo elites, me refiro à elite econômica e a elite cultural. A elite econômica (do patrimônio) que, tal como o senhor de escravos e a elite cultural que lhe é subserviente (com origem na classe média) na qualidade de feitor de escravos, tudo fazem desde 1888, para que apesar das mudanças, nada mude de fato.
            Após a carreata dos patrões ocorrida em cerca de quinhentas cidades do Brasil em pleno 1º de maio, dia do trabalhador, uma dúvida me assalta a mente: Será que após a abolição da escravatura, os ex-senhores de escravos faziam carreatas com suas carruagens ou o que o valha na passagem da data de 13 de maio visando o bem do Brasil e dos seus líderes, enquanto estes trabalhavam para que os recém-libertos continuassem agrilhoados à senzala da pobreza e que jamais tivessem acesso à Casa Grande de uma vida com dignidade humana?

sábado, 1 de maio de 2021

A poesia que há no silêncio

 

          Em meu ofício de professor, certa vez, uma estudante, questionou-me sobre as características de uma menina bonita. Respondi-lhe que, para mim, uma menina bonita seria estudiosa, educada, simpática, esforçada, solidária e boa filha. Percebi sua cara de espanto e acrescentei que vivemos em uma sociedade que valoriza mais o "ter" e que dá pouco valor ao "ser" e, que isso está errado. Ela ouviu e assentiu e, continuei a aula, voltando ao tema específico desta. Penso que a estudante (em plena adolescência), estava refletindo sobre os ditos padrões de beleza impostos pela indústria da moda e, por meio da mídia, internalizados pela sociedade. Todos temos necessidade de aceitação e ela estava refletindo como se encaixava ante o que a sociedade espera dela. 

          É angustiante para qualquer pessoa, perceber que foge aos padrões ditados pelos fundamentalistas de plantão. Isso é ainda mais grave quando se trata de crianças e adolescentes. Não por acaso, cada vez mais, jovens procuram os consultórios de psicólogos e psiquiatras e, isso é algo necessário. No entanto, muitas vidas já se perderam e se perdem, pela falta de empatia das pessoas para com as demais. Vidas que, por esse motivo, foram abreviadas pelos autores de suas próprias histórias e, em número imensamente maior, vidas que se perdem à margem invisibilizadas por não atenderem aos padrões de "normalidade" ditados pela sociedade. Vivemos em uma sociedade doente. Eu concordo com o compositor e cantor Caetano Veloso quando diz "de perto ninguém é normal" e acrescento que muita gente está doente e se trata por conta de gente que está doente e não busca tratamento. Digo isso, não como indireta a quem quer que seja, embora não falte quem tome para si (vestindo a carapuça) artigos que escrevo de forma generalista. 

        Neste espaço, que prezo muito, não me escondo por trás das palavras para criticar a quem quer que seja. Falo de ideias, de atitudes (quando coletivas) e nunca de pessoas. Quando necessário falar de pessoas, somente faço, se forem públicas e suas atitudes (boas ou ruins) forem de interesse societário, aí as nomino. Penso que a discussão deve ficar sempre no campo das ideias e nunca avançar para o lado pessoal. Se o que escrevo incomoda, essa é a minha missão. Levar o leitor a refletir, a ser confrontado com uma visão diferente acerca dos fatos. Há que se ter maturidade para ler, refletir, concordar ou discordar, sem perder a empatia. Quando ando nas ruas, observo pessoas que torcem a cara quando me vêem, outras me cumprimentam efusivamente. Assim é a vida, o diferente assusta, pois, não se molda à caixa à qual a outra pessoa está confortavelmente instalada e, para outras pessoas, significamos o fato de saberem não estar sozinhas, pois, conosco se identificam.

        Recorrendo novamente à música, lembro de Raul Seixas (1945-89) quando entoava a música "maluco beleza"  afirmando que "as pessoas se esforçam em serem normais, fazendo tudo igual e, ele aprendendo a ser louco, maluco total, misturando a maluquez com a lucidez e, sabendo que o caminho escolhido é fácil seguir, por não ter onde ir". Ditar padrões de normalidade é um ato terrorista efetivado por pessoas e grupos que se recusam a pensar fora da confortável caixa em que se instalaram. O que é ser normal? Quem disse que a normalidade é saudável? Penso que o "normal" é um sujeito que, tal como todo o tecido social, está adoecido. 

            Entendo que é mais fácil ir a favor da correnteza do que ir contra ela, no entanto, a maioria das pessoas sequer sabe que é levado pela correnteza e, pensa conduzir sua vida, quando pouco ou nenhum controle tem sobre ela. Às vezes precisamos nos distanciar do barulho do convívio social para nos encontrarmos conosco. Precisamos de momentos a sós. Neles podemos refletir, ler um bom livro, ouvir música, contemplar a natureza. Cada pessoa precisa ser a melhor amiga de si mesma e tudo deve fazer para proteger essa amizade. Esqueça as negativas recebidas, talvez isso ocorra apenas porque você pensa "fora da caixa", o que assusta as pessoas ditas "normais". Viver em meio ao ruído das pessoas e da sociedade é inevitável, mas, sempre que possível, busque o silêncio. Nele a sabedoria e a poesia se revelam. Tenha sempre empatia, afinal, todas as pessoas estão doentes, embora muitas não saibam disso, pois, todas, sem exceção, estão vivendo momentos difíceis.

sábado, 24 de abril de 2021

O curioso caso de Benjamin Button

 

             

       O que é o tempo? Essa é uma pergunta simples cuja resposta é complexa. Quem a responde de forma simples, certamente não entendeu a profundidade das reflexões que ela traz em seu bojo. Tanto é assim que o tempo é tema constante na pauta das reflexões e discussões de filósofos. 
         Este humilde escriba, adora ler obras de filosofia, mas, jamais se alçaria ao patamar de filósofo, por não ter a formação instrucional para tal, pois, acredita que nem mesmo que fosse "expert em astrologia", poderia assim se considerar. 
        Apesar disso, em março de 2011, publiquei neste espaço uma humilde reflexão sobre o tema intitulado "Em TEMPO, sobre o TEMPO" (o artigo pode ser encontrado no blog A Vista de Meu Ponto!). Nele, de forma proposital, citei 36 vezes a palavra TEMPO, assim mesmo, em caixa alta, para evidenciar sua onipresença a atuar sobre as nossas vidas, ora nos impulsionando, ora nos oprimindo.
        Quando era um jovem professor, os adolescentes se identificavam mais comigo do que atualmente. Era comum, os adolescentes me segurarem no corredor para conversar. Eu pensava que isso ocorria porque eu era um bom professor, mas, hoje vejo, que jovem como era, não muito mais velho do eles, era devido a minha juventude que se identificavam comigo.
         Hoje, alguns bons invernos depois (nasci nessa estação), os estudantes perguntam a minha idade e eu respondo sempre "25 anos", e, eles riem, dizendo "isso é impossível..., o senhor deu aula para os meus pais". E eu respondo sempre citando o genial advogado, poeta, radialista, compositor e ator brasileiro Mario Lago (1911-2002) quando disse: "Eu fiz um acordo com o tempo...nem ele me persegue, nem eu fujo dele...qualquer dia a gente se encontra... e dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento".
         Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940), conhecido no meio literário como F. Scott Fitzgerald foi escritor, romancista, contista, roteirista e poeta. É considerado um dos maiores nomes da literatura estadunidense. Sua obra mais famosa é "O Grande Gatsby", na qual faz uma profunda crítica à sociedade dos anos 1920. 
        A intenção deste artigo é falar sobre uma obra deste autor, que tal como sua já citada obra mais famosa, também virou filme de Hollywood. Trata-se do livro "O curioso caso de Benjamin Button", no qual Benjamin nasce com a aparência e as características de um idoso para o constrangimento de seus pais e a contrariedade do médico da família. 
        A obra faz uma crítica à sociedade, que não aceita pessoas ou atitudes, que fujam dos padrões de normalidade. É a chamada caixinha em que todo mundo tem que se enquadrar e quem não se enquadra leva pauladas da sociedade "encaixada". Ninguém pode ser diferente daquilo que se espera dele. Tem que ser "normal" embora nem sempre a dita normalidade, seja um bom modelo a seguir. 
        Na trama de Fitzgerald, Benjamin (o bebê) começa a falar e já trava conversas fundamentadas de quem tem experiência de vida, e ao começar a andar, pede a seu pai uma bengala. Com o passar do tempo vai rejuvenescendo cada vez mais e, juntamente com seu rejuvenescimento, seu espírito, sua mente e seus interesses passam a ficar condizentes com a nova faixa etária. Benjamin tem uma vida de conquistas profissionais e amorosas, mas, sempre com as dificuldades que a "natureza" lhe impôs. Ao casar-se com uma moça mais nova, ela vai envelhecendo enquanto ele fica cada vez mais moço.
       É impossível ler o conto de Fitzgerald sem lembrar do ator, comediante, diretor, compositor, roteirista, cineasta, editor e músico britânico Charles Chaplin (1889-1977) quando disse: "A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está de trás para a frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado para fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo para poder aproveitar a aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade, Você vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho no colo, volta para o útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando...E termina tudo com um ótimo orgasmo. Não seria perfeito?".



Sugestão de boa leitura:

Título: O curioso caso de Benjamin Button.

Autor: F. Scott Fitzgerald.

Editora: L&PM, 2016, 96p.





sábado, 17 de abril de 2021

Sobre o Estado burguês e a ditadura do proletariado

         A comunicação é algo de suprema importância para a sociedade humana. Dela depende a democracia para o seu pleno funcionamento. Não há democracia sem imprensa livre e, não há imprensa livre sem o direito à liberdade de expressão de seus profissionais. O povo precisa estar bem informado sobre os fatos que afetam a sociedade, porém, nem sempre isso interessa aos governantes.

               Quando ditadores se instalam no poder, costumam atribuir à imprensa e aos seus profissionais, todas as ofensas possíveis. Nada que a imprensa publica é verdadeiro, tudo é manipulação com fins políticos, dizem. É verdade que em muitas empresas de comunicação há uma minoria de profissionais que não prezam pela ética no jornalismo, os quais, ao ter pela frente personagens públicas que não professam da sua "fé", agem como inquisidores numa cruzada aos "hereges", destruindo-lhes suas reputações na fogueira das convicções (desprovidas de provas), para satisfazer a seu público e patrocinadores, quando não para meramente regozijar (no ataque) a quem lhe desperta ódio por pensar diferente ou representar algo que defenestra. Sobre isso a ex-presidenta Dilma disse: "prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".

            A imprensa faz barulho e, precisa ter cada vez mais, todas as tonalidades. Neste espaço de divulgação de ideias, digito minhas letras "vermelhas" e  que representam o sangue derramado pela classe trabalhadora ao longo de sua luta histórica por direitos. Os espaços de escrita e publicação de ideias costumeiramente são negados aos trabalhadores. Todo espaço precisa ser ocupado, pois, parafraseando Neil Armstrong (1930-2012) quando esteve na lua, representa "um pequeno passo na direção da democracia plena e um grande salto conquistado para a classe trabalhadora" dado o seu simbolismo. 

            Isto posto, digo que muitos escritos brilhantes se produziu para a divulgação em jornais e revistas visando sua popularização, ou seja, alcançar os diversos estratos sociais e de formação instrucional da população. Digo isso, porque já li artigos publicados com tal intenção, mas, que constituíam verdadeiros tratados científicos, dada sua linguagem academicista. Há que se saber, que ao escrever, deve-se ter em mente o perfil do  público alvo. Dessa forma, o academicismo deve dar lugar à inteligibilidade, ou seja, a capacidade de expressar (de forma clara) o tema para o público geral e não apenas aos intelectuais.

            É nessa intenção, que tento trazer uma explicação sobre algo não compreendido por grande parcela das pessoas e, que costuma ser objeto de manipulação por parte de alguns. Na obra de Karl Marx (1818-1883) há a alusão a uma "ditadura do proletariado". E muito se fala que os simpatizantes do socialismo desejam, tal como seu ideólogo maior, a implantação de uma ditadura. Ocorre que para Marx, o termo ditadura, não tinha o significado que hoje conhecemos como designador de regimes autoritários (de exceção). Marx entendia que o Estado moderno, ou seja, o conjunto de instituições que o formam (governo, forças armadas, Justiça, etc.) foram criados pelo capitalismo e para o capitalismo, ou seja, o Estado Moderno é uma ditadura da burguesia, pois, está a serviço dos ricos. Sobre isso, muitos autores marxianos afirmam que, alcançar o poder e não derrubar os pilares do Estado burguês, implica em apenas administrar melhor o capitalismo (algo que a esquerda fez, quando no poder esteve).

            É de uma grande ingenuidade pensar que obter o poder político é deter o poder de fato. O Estado está nas mãos da burguesia (especialmente, a do setor financeiro - bancos) ela detém o poder de fato. A eleição é para dar ao povo a ilusória impressão de poder escolher o destino de suas vidas. O grande capital, com seu dinheiro, governa, e elege a maioria da bancada parlamentar, e esta  no parlamento atua de acordo a satisfazer seus patrocinadores. 

                Para tornar ainda mais claro, podemos dizer que o Estado moderno, tal como o conhecemos, existe sob a hegemonia da burguesia (sob as ordens do grande capital). Marx quando falou em ditadura do proletariado, afirmava, que o socialismo se constituiria no fato de impor a hegemonia da classe trabalhadora sobre o Estado, ou seja, colocá-lo a serviço da classe trabalhadora. Em nenhum momento Marx falou em implantar um regime de exceção (de opressão). Inclusive, em sua obra, Marx afirmou que no comunismo, ou seja, no estágio posterior ao socialismo (que representaria mera fase transitória), o próprio Estado (e suas instituições) seria extinto para que se chegasse enfim, à sociedade sem opressores e oprimidos.

 

sábado, 10 de abril de 2021

31 de Março não se comemora, se repudia!

             Inicio este artigo lembrando o genial escritor, jornalista e ensaísta político inglês George Orwell (1903-1950) quando disse "Quem controla o passado, controla o futuro". Na obra 1984, que inspirou o Big Brother, numa sociedade totalitária do futuro, o "Grande Irmão" vigia a tudo e a todos e mesmo nas residências há câmeras e microfones espiões. Ninguém está seguro para falar, planejar e realizar atos contestatórios ao governo do "Grande Irmão". A história é a todo momento reescrita por funcionários públicos contratados para tal fim. Eles recebem ordens "vindas de cima" e procedem as alterações de todos os registros sobre fatos e personagens dando a eles a interpretação desejada pelo establishment e, para tal, jornais são reescritos, de forma que ao ler microfilmes de jornais, as notícias estão diferentes do que as pessoas haviam visto, lido ou assistido pela teletela (espécie de TV bidirecional). As pessoas eram induzidas a pensar que tinham uma falsa memória (um engano) e dessa forma, a história era recontada e personagens desapareciam da história e da sociedade. Com o passar do tempo e, com a morte das pessoas (que vivenciaram os fatos) as dúvidas desapareciam e a história "oficializada" era a única existente.  Parece algo exclusivo de obras literárias como a de Orwell ou de Blake Crouch, mas, é fato comum em países que tiveram ou têm regimes autoritários.

            O Brasil não fez as pazes com o seu passado. É por isso que muito dele permanece na atualidade. O país nunca puniu aqueles que romperam a hierarquia, violentaram a Constituição Federal e tomaram de assalto o poder, cancelando a democracia e suspendendo os direitos individuais. Contra tal estado de coisas, estudantes, jornalistas, professores, operários, camponeses, políticos e militares idealistas que ousaram defender a democracia e o respeito à ordem legal estabelecida pela Constituição Federal tombaram vítimas da ditadura (1964-1985) sendo arbitrariamente presos, torturados e mortos. Nos países vizinhos, nos quais houve ditaduras sanguinárias como a vivida em nosso país, as autoridades criminosas foram levadas a julgamento, aqui não. Nossas instituições e nossa democracia nunca chegaram a tal nível de amadurecimento. Sob a alegação da anistia geral e irrestrita, todos os crimes e criminosos foram perdoados. A suposta generosidade dos generais para com os rebeldes subversivos, tidos como "terroristas" e que lutavam contra a ditadura militar, era na verdade, um salvo-conduto para que militares criminosos pudessem colocar o pijama em suas casas e, não em celas. A criação da Lei da Anistia se impunha pela necessidade que despontava no horizonte. Os militares precisavam abandonar a condução do país, dado o caos econômico e social que produziram (hiperinflação, endividamento externo e aprofundamento da desigualdade social).

            Segundo o filósofo, escritor e músico brasileiro Vladimir Safatle, em sua obra (Do uso da violência contra o Estado ilegal), "a violência praticada pelo Estado ilegal (ditadura militar) contra o povo organizado e, a deste em seus esforços de resistência não pode ser comparada equivalente. Resistir, inclusive se utilizando da violência é algo garantido pelo Direito Internacional e reconhecido pela ONU como direito dos povos na resistência à ilegalidade do Estado. Não há que comparar, portanto, dada a desproporção, dada a motivação, que, no caso da ditadura era oprimir para manter a situação de ilegalidade". As forças armadas brasileiras historicamente se arvoram representantes do quarto poder, o Poder Moderador, algo que não está previsto em nossa Constituição, menos ainda de sua incumbência ou de sua capacidade para tal. Se prestam a ser ferramentas da direita conservadora (e fascista) que, ao fracassar nas urnas, sempre clama pelo seu retorno ao poder. Várias vezes se prestaram a esse vergonhoso papel, rasgando a Constituição Federal, desobedecendo a hierarquia e prestando desserviços à nação. Algumas autoridades resolveram comemorar o dia 31 de Março às claras (veladamente sempre fizeram isso) tentando normalizar e reescrever a história nacional. Comemorar o 31 de Março é pisar nas poças de sangue das vítimas. É torturar as mentes dos familiares que perderam seus entes queridos. É violentar novamente quem sofreu a violência do Estado ilegal. É depreciar a democracia, a dignidade humana e renunciar a qualquer espírito cristão.  Enfim, 31 de Março não se comemora, se repudia!

sábado, 3 de abril de 2021

Bolívar, o libertador da América

         


           O leitor provavelmente já sofreu muito assistindo as partidas de seu time na Copa Libertadores da América, cujo nome, obviamente, é uma homenagem aos principais líderes que dedicaram suas vidas à causa da independência da América, em especial, a América do Sul, são eles: José Artigas, Simón Bolívar, José de San Martín, José Bonifácio de Andrada e Silva, D. Pedro I (do Brasil), Antonio José de Sucre e Bernard O'Higgins. 
                   O processo de Independência das colônias sul-americanas no que concerne ao enfrentamento com a Espanha foi muito difícil, prolongado e sangrento. Dessa forma, temos que reconhecer o gigantesco patamar heróico ao qual se alçaram os líderes libertadores dos países  de nossos "hermanos". Não há comparação com o Brasil, até porque a independência aqui se fez sem a participação do povo, apenas das elites.

                   O leitor certamente já ouviu falar de Simón Bolívar(1783-1830), por conta do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013) que fazia seus discursos com uma tela do libertador ao fundo da imagem. Por iniciativa presidencial e com aprovação parlamentar, o nome do país foi alterado para República Bolivariana da Venezuela. Não demorou e começaram a dizer que Bolívar era marxista, o detalhe é que quando Bolívar morreu, Karl Marx (1818-1883) tinha apenas 12 anos e, mais curioso ainda, o próprio Karl Marx mais tarde estudou a trajetória de Bolívar e a ele teceu duras críticas. 

                    Nos países libertados por Simón Bolívar (Venezuela, Colômbia, Panamá, Equador, Peru e Bolívia) ele é um herói universal, não se considera ser ele de esquerda ou direita. Inclusive o nome oficial da Bolívia é em sua homenagem. Bolívar, nascido em Caracas, era descendente de espanhóis, porém, "criollo" (nascido em colônia), o que era motivo de depreciação ante os espanhóis. Bolívar ainda muito jovem, perdeu seus pais e herdou uma gigantesca fortuna em fazendas, escravos, minas, imóveis residenciais, etc. porém, somente após atingir a maioridade e se casar teve acesso a seus bens. O jovem e rebelde Bolívar foi enviado a Madrid, onde estudava e buscava recuperar um título nobiliárquico. Lá conheceu Maria Tereza Rodriguez del Toro y Alayza (1781-1803) com quem se casou em 1802. De volta à sua terra natal, sua felicidade foi curta, pois, sua esposa faleceu de febre amarela.

              Bolívar prometeu e cumpriu nunca mais se casar, porém, galanteador, estava sempre acompanhado de namoradas e "amigas" nos locais aonde a guerra o levava. Tal fato não contribuía para a boa imagem do Libertador que, também era tido como autoritário. Ainda na Europa, havia jurado que usaria todas as suas energias para libertar a América da Espanha. E usou não só toda a sua energia, mas, todo o seu capital como contribuição para as dispendiosas batalhas. Genial estrategista e cavaleiro incansável, conseguiu vitórias assombrosas (dada a desproporção de forças em seu desfavor) e suas conquistas épicas somente podem ser comparadas a do líder mongol Genghis Khan (1162-1227) em área territorial. Bolívar foi um homem a frente de seu tempo. Seu sonho da integração da América espanhola em uma federação à semelhança dos Estados Unidos da América não vingou. 

                     Senhor de escravos, não teve dúvidas em proclamar a abolição da escravatura. Autodidata, conseguia cativar a população e conquistar braços para as batalhas. Preferia guerrear a governar. Provou o gosto amargo das traições e das derrotas e ao final de sua curta vida, proibido de voltar à sua Venezuela e doente, morreu pobre e foi enterrado em Santa Marta (Colômbia) com roupas que lhe foram doadas, na presença dos poucos amigos que restaram. Após sua morte, mesmo quem lhe traiu, mandou que se erigissem bustos e estátuas em sua homenagem. O presidente venezuelano que proibiu seu retorno, anos mais tarde, fez um acordo com a Colômbia, ficando em Santa Marta o coração embalsamado de Bolívar e, sendo seu corpo transladado à Caracas, onde repousa em um panteão. Simón Bolívar é uma personagem mundialmente reconhecida à esquerda e à direita do espectro político-ideológico, então, chamar alguém de "bolivariano" não constitui xingamento, mas, elogio. Fica a dica!

P.S. Na Netflix há uma série imperdível intitulada Bolívar que conta a sua vida, amores e batalhas.

Sugestão de boa leitura:

Título: Bolívar, o libertador da América.

Autora: Marie Arana.

Editora: Três Estrelas, 2015, 607 p.