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terça-feira, 26 de setembro de 2023

A monoleitura e o monossaber

 

        

            Há alguns meses estávamos debatendo num grupo de estudos questões que afligem a Educação como um todo, ou seja, o Ensino Básico e também o Ensino Superior, na ocasião afirmei que os professores universitários se superespecializavam num determinado tema para o qual direcionavam seus estudos e pesquisas e também todo o tempo de que dispunham, dessa forma, se tornavam sabedores de tudo sobre pouco e ao mesmo tempo sabedores de pouco sobre tudo. E falei também que nós docentes do Ensino Básico por não termos as mesmas condições, pois temos nossa carga horária principalmente em classe e por termos dependendo da disciplina até 15 turmas com cerca de 40 alunos cada e a especificidade de nosso trabalho faz com que sejamos sabedores de um pouco sobre tudo e tudo de coisa nenhuma.

            Penso que o sistema educacional, tal como enunciado inúmeras vezes por diversos educadores, parece ser formado por gavetas e, em cada uma delas uma disciplina. Cada gaveta parece hermeticamente fechada para evitar o contágio que o contato com as demais poderia ocasionar. Esse contágio tem nome chama-se interdisciplinaridade e que embora necessária, muitas vezes acaba por não ocorrer, tornando o processo Ensino-Aprendizagem fragmentado.

            É bom que se diga que a culpa não pode ser assumida unicamente pelo(a) professor(a) e, nem mesmo pela escola, pois, existem vários fatores que fogem à alçada da mesma e que impedem ou dificultam o trabalho interdisciplinar, preocupadas com isso, as equipes pedagógicas das escolas, visando amenizar tal falha, incentivam o desenvolvimento de projetos interdisciplinares, que são importantes, porém, pontuais.

            Penso que parte dos(as) professores(as) do Ensino Básico e também do Ensino Superior, devido à necessidade que a profissão impõe, se encastela e realiza uma monoleitura, ou seja, lê principalmente aquilo que faz parte da sua área de atuação ou de pesquisa e adquire assim um monossaber. Embora dessa forma se possa conseguir grande reconhecimento pelo notório saber adquirido e construído, o qual habilita tal profissional a dar cursos e palestras “país adentro ou afora”, acaba por privá-lo de possuir uma visão mais abrangente do mundo e da humanidade. Isto acaba por prejudicar a formação política (aqui não falo no sentido partidário) de seus educandos.

            Não faço crítica à especialização do(a) professor(a), apenas, penso que ele(a) deve às vezes sair um pouco do seu “quadrado”, se inteirar das questões políticas, econômicas e sociais, ou seja, ser um especialista, mas também, um profissional politizado e com consciência de classe, digo isso, porque percebo que em qualquer dos níveis de ensino, básico ou superior a falta de politização de parcela dos(as) educadores(as). Não raro, vejo profissionais agindo contra os interesses da classe e/ou atacando propostas de cunho social que deveriam defender, tais como as cotas nas universidades para alunos(as) de escola pública, afrodescendentes, etc., e também os programas de transferência de renda direta como o Bolsa-Família, a política de valorização do salário mínimo, etc.. Tais programas devem ser defendidos como políticas de Estado independentemente do grupo político no Poder.

            Como todos(as) sabem, a Educação vive uma crise, porém, essa crise não se iniciou dentro do prédio escolar, mas veio do seu entorno, ou seja, da sociedade que a cerca adentrando os muros escolares. Os fatores que afligem a escola e fogem ao controle dos(as) professores(as) é a desestruturação familiar, a miséria, a violência, a falta de sonhos, as culturas do prazer imediato, de não valorização do estudo e do conhecimento, e, principalmente, a da Pós-Modernidade, que se torna visível em parcela dos(as) alunos(as), pais/mães, professores(as) e pessoas da sociedade.

            É muito fácil e cômodo culpar os(as) professores, porque não ensinam direito ou os/as alunos(as) porque não aprendem, mas, como várias vezes discutimos entre nós docentes, cada vez mais percebemos a impossibilidade de se ensinar, de trabalhar o conteúdo de forma eficiente, que, não é a eficiência empresarial, pois, educandos são seres humanos e neles não é possível colocar um selo de “qualidade total” e, em se falando de qualidade total, qualidade para quê? Qualidade para quem? Uma formação de qualidade total para a Vida ou para o Mercado?

            Uma formação integral e humana é necessária, que prepare para a vida, para o ingresso na universidade e, consequentemente forme para a cidadania. O estudante formado deve ser esclarecido, crítico e atuante contribuindo para tornar melhor a sociedade em que vive. Isso somente é possível por meio da assimilação do conhecimento científico que embasa tal agir, e, é por isto que trabalhamos também conteúdos que algumas pessoas consideram desnecessários e/ou refutáveis, pois, a escola é um lugar onde se tira vendas, não o contrário!

 

sábado, 16 de setembro de 2023

Diana: sua verdadeira história


 

Uma de minhas lembranças do tempo de criança é o fato de ter assistido pela TV (ao vivo), a transmissão do casamento da Princesa Diana com o Príncipe Charles. Lembro que ficamos admirados com a grandiosidade do evento que, segundo estimativas teria sido assistido por cerca de 750 milhões de pessoas ao redor do planeta. Eu, minha família e a quase totalidade dos espectadores do planeta, não podíamos imaginar os ruidosos bastidores desse romance e, levados pela beleza da celebração e de Lady Dy, que, era então alçada ao título de Princesa de Gales, acreditamos que o casal estava selando uma união duradoura e que um dia os veríamos desempenhando os papeis para os quais estavam destinados no trono da Inglaterra. No entanto, como todos sabem, nos contos, a princesa prova do veneno e dorme eternamente, porém, é acordada, Diana, em vida, provou o veneno, mas, jamais acordou.

            A ideia desse artigo é oriunda do fato de haver assistido a série "The Crown" da Netflix e em dado episódio, tomar conhecimento do livro "Diana: sua verdadeira história" do jornalista e escritor britânico Andrew Morton (1953) que abalou as estruturas da monarquia inglesa. Curioso, baixei o livro em formato digital no meu e-reader para tomar conhecimento da famosa obra que tanto gerou polêmica no ano de 1993. Concluída a leitura, penso que a necessidade de uma reflexão acerca do ser humano Diana Frances Spencer e das demais personagens envolvidas na trágica história, não pode ser feita sob o signo da emoção. Também, o distanciamento acerca de nosso posicionamento crítico ao papel historicamente representado pelo Império Inglês e de sua monarquia à luz do século XXI, se faz preciso. De qualquer forma, resultaria algo grande demais para o objetivo aqui pretendido, é necessário simplificar.

            Diana Frances Spencer (1961-1997) foi uma aristocrata e filantropa nascida no Reino Unido. Diana teve sua infância marcada pela separação dos pais, algo que impactou em sua vida. Tendo ficado (juntamente com seus irmãos) sob a guarda de seu pai Conde John Spencer após disputa judicial entre o casal. Tanto sua mãe, como seu pai contraíram novos matrimônios (algo que não agradou os irmãos Spencer). Diana, nunca foi brilhante nos estudos, tal papel era desempenhado por seu irmão, Charles. No entanto, Diana frequentou boas escolas e, apesar de ser filha de uma família abastada, trabalhou como faxineira e professora de jardim de infância. A questão envolvida é cultural, entre os ingleses, não há nada de errado ou reprovável em alguém nascido de bom berço, exercer um trabalho humilde. O trabalho, em si, é para eles dignificante, algo que não condiz com o imaginário coletivo brasileiro, cuja mentalidade colonial e escravocrata vê em tal fato uma humilhação desnecessária. Diana não via assim, adorava crianças e gostava muito de fazer faxina.

            A obra, mostra uma Diana apaixonada, mas, que percebe a existência de uma sombra naquele relacionamento, Camila Parker Bowles. Diana, às vésperas do casamento, sendo tratada com descaso pelo Príncipe, que vê no casamento o cumprimento de seu papel na linha sucessória, mas, cujo amor era devotado a uma mulher casada, tenta sem sucesso argumentar quanto a necessidade de cancelar aquele casamento. É convencida pelo Príncipe que com o casamento, o passado ficará para trás. Não ficou. Diana, nunca teve apoio e o carinho que desejava da família real. De Charles, nunca teve o amor e o companheirismo que esperava. Diana beijou o príncipe e, ele num passe de mágica se transformou num sapo ao longo de todo o casamento. Os dias se passaram e o casal perfeito era algo do imaginário popular alimentado por belas fotos e aparições em eventos públicos programadas para simular uma harmonia inexistente entre o casal.

            Diana conseguia sorrir perante as câmeras, apesar de estar com sua vida e emocional destroçados com as informações que coletava quanto a continuidade do relacionamento de Charles com Camila. Diana dedicava-se aos filhos e à filantropia. Fazia aparições e arrecadava recursos para entidade filantrópicas que apoiava. Ia a hospitais e abraçava os doentes, conversava com eles e o fazia sem a intenção de ganhar publicidade, pois, não chamava os repórteres. Na verdade, tinha dificuldades com os jornalistas, pois, não lhe davam o direito a privacidade. Muitas reportagens ácidas foram feitas quanto à princesa, especialmente quando se divorciou e deixou de ter a proteção da família real. A perseguição dos paparazzi ao carro (dirigido em alta velocidade por um motorista embriagado)  em que estava com seu namorado, o milionário Dodi Al-Fayed resultou num trágico acidente que vitimou o casal e o motorista.

            Em seu funeral, seu irmão, o Conde Charles disse que Diana não precisava do título de Princesa (que lhe foi retirado pela família real com a separação) e nem ser tomada como uma santa, ela brilhava por si mesma. No Palácio de Kensington, onde morava, junto à cerca, quantidades colossais de flores e mensagens foram depositadas. Uma dessas mensagens dizia: "Não morre aquela que estará eternamente em nossos corações". A popularidade de Diana, sempre incomodou a família real, especialmente o príncipe Charles.

            "Diana, a princesa de Gales escreveu poesia em nossas almas. E nos deixou maravilhados" (Andrew Morton).

Sugestão de boa leitura:

Título: Diana: sua verdadeira história.

Autor: Andrew Morton.

Editora: Best Seller, 2013, 350 p.

domingo, 10 de setembro de 2023

Brasil: um país do futuro


O leitor, jovem a mais tempo, certamente conhece a frase que dá título a este artigo, afinal, desde nossa mais tenra infância, ouvimos que o Brasil é o país do futuro. Os mais jovens, a conhecem também, porém, munida de um complemento: Brasil: o país do futuro... "que nunca chega". Essa frase que virou quase que um sobrenome do Brasil, foi cunhada pelo escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica Stefan Zweig (1881-1942). (Wikipedia)

            Stefan Zweig foi um renomado escritor de classe internacional, sendo em sua época, aquele cujas obras eram as mais publicadas e traduzidas e, como tal, viajava o mundo dando palestras e lançando seus livros. A paixão que tinha pela literatura e seu hábito cosmopolita tornavam seu trabalho mais fácil. Passava longos tempos fora de casa e aprendia muito com cada nova cultura que conhecia. Esteve na América do Sul por três vezes, sendo que em 1936, quando estava a caminho de Buenos Aires, fez uma visita ao Brasil e foi recebido pelo então presidente Getúlio Vargas. Em 1941, ele e sua esposa Charlotte resolveram se instalar no Brasil para se manterem distantes do palco da guerra que consumia a Europa que tanto amava. Stefan Zweig havia prometido que escreveria um livro sobre o Brasil e anunciou que sua vinda ao país, tinha também esse propósito.

            Ao lermos a obra "Brasil: um país do futuro", nos questionamos se ela é o resultado de uma visão superficial de um país que nada tinha de paraíso ou modelo para o mundo no que tange às relações sociais ou tentativa de agradar o presidente Getúlio Vargas, país no qual ele estava se exilando e buscando conquistar o visto de residência. Pode-se alegar que Zweig era grande demais para escrever um livro meramente propagandístico para o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas (1930-1945), contudo, há registros de viagens feitas pelo escritor pelo país e que foram pagas pelo governo federal. No entanto, há cópias dos contratos que fez com as editoras para a venda dos direitos de sua obra, na qual foi adequadamente remunerado. Ao ler temos a impressão que em alguns momentos ele passa pano para a ditadura brasileira quando a compara com aquilo que ocorria na Europa, mas, obviamente o grau de ódio racial e violência no velho continente era incomparável.

            É importante lembrar que o autor teve grande parte de sua vida atribulada pelos conflitos que varriam a Europa, sendo a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sendo que esta última foi o motivo que o levou a suicidar-se juntamente com sua esposa em Petrópolis no ano de 1942, seis dias após submarinos alemães atacarem e afundarem navios brasileiros em nossa costa, como se constata no trecho de sua nota de despedida: "Deixo saudações a todos os meus amigos: talvez vivam para ver nascer o sol depois desta longa noite. Eu, mais impaciente, vou embora antes deles". Zweig, ao vir para o Brasil, já se encontrava deprimido, era um crítico do materialismo estadunidense, havia se decepcionado com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e estava horrorizado com o terror racial nazista. Tinha no Brasil e na América do Sul, a sua esperança de um novo amanhã, do nascer de uma nova civilização.

            A desesperança de Stefan Zweig, com a Europa, na qual a guerra vitimara muitos de seus notórios amigos (intelectuais, literatos, etc.), talvez tenha levado o autor a ter uma esperança no Brasil que beirava à utopia. Zweig projetou mentalmente um Brasil em que as favelas não mais existiriam, pois a miséria seria combatida e, pensou que a miscigenação de nossa sociedade tinha condições de impedir o avanço do ódio racial que viu se agigantar na Europa. Talvez por isto, tenha exagerado na louvação a um país que sempre esteve entre os mais desiguais do mundo, que aceita facilmente o progresso técnico, mas refuta governos e iniciativas de reformas sociais, de redução da desigualdade social e, sabemos, nenhum país progride sem o combate à miséria, sem políticas de distribuição de renda e de eliminação dos privilégios hereditariamente obtidos.

            A imprensa, censurada por Vargas, não podia criticar o governo como gostaria, mas, nada a impedia de criticar a obra do famoso autor que escrevera um livro de louvação ao país. O linchamento da obra de Zweig foi diária e brutal com artigos ácidos escritos sobre "um estrangeiro que não entendia nada do país", mas, que denotava a ânsia da imprensa em poder mirar Vargas, algo totalmente inalcançável naquele momento, dada a repressão oficial. Há quem veja na reação dos jornalistas e intelectuais brasileiros, uma atitude provinciana, em não reconhecer a opinião de um estrangeiro, mesmo sendo este, o renomado e mundialmente aclamado Stefan Zweig.

            Também não podemos criticar Zweig, quanto a "ingenuidade" com que olhou para a nossa sociedade, afinal, foi preciso que governantes e governos que ousassem mexer no status quo do "eterno fazendão governado a partir da Casa Grande" se instalassem no poder, para que o que há de mais reacionário, odioso e violento mostrasse a sua cara e, enfim realmente conhecêssemos o nosso vizinho, o nosso amigo, o nosso parente.

            Não devemos descrer da utopia de sermos um país com um grande futuro, mas, para isso precisamos cortar o que nos prende ao passado, à colonização imperialista, à escravidão, ao genocídio, às sesmarias, à política de branqueamento (do topo da pirâmide social), ao fascismo. Na atualidade, ver o Brasil, como um país do futuro, soa à utopia, mas, de que vale viver, sem ter uma utopia?

Sugestão de boa leitura:

Título: Brasil: um país do futuro.

Autor: Stefan Zweig.

Editora: L&PM, 2008, 264 pág.

 

           

sábado, 2 de setembro de 2023

Mais Platão, menos Prozac & Pergunte a Platão

 

        


Quando acadêmico este escriba imaginava como deveriam ser os diálogos entre os professores na hora do recreio e pensava serem momentos de discussões filosóficas e também dos grandes problemas locais, nacionais e mundiais, no entanto, quando me tornei professor não tardei a descobrir que tal momento era utilizado para a necessária descontração e que nem sempre puxar um “papo-cabeça” era uma atitude vista com simpatia por parte de alguns colegas. Mas, como para toda a regra há a exceção, não demorei a descobrir que as pessoas são diferentes entre si e que havia aquelas que não torciam o nariz para uma conversa mais fundamentada.

            Num desses dias estava conversando com uma colega que é professora de Filosofia e contei-lhe que li dois livros sobre a aplicação terapêutica da Filosofia em consultas com pacientes que desejam conseguir ajuda para resolver os problemas da vida que se acumulam e os/as colocam em becos sem saídas. Comentei que essa tendência se observa mais fortemente fora do Brasil, principalmente nos Estados Unidos da América e também na Europa. Afirmei que existe muita gente da área da Psicologia que não está gostando dessa invasão dos filósofos em sua área de atuação e que os consideram despreparados para exercer tal função, enquanto, outros que já são psicólogos estão indo atrás dos ensinamentos de Filosofia para ao se especializar, oferecer um algo a mais para os seus “clientes”, uma vez que os psicólogos, segundo li, não chamam as pessoas que atendem como pacientes. Comentei com a minha colega que os filósofos clínicos auxiliam seus clientes a desatar os nós que a vida lhes apresentou através de sugestões embasadas na teoria de filósofos tais como Platão, ou seja, como Platão pensaria e resolveria o imbróglio em questão apresentado pelo(a) cliente.


           Particularmente gostei muito dos livros abaixo referenciados, porém, sou bastante eclético nas leituras e assim quem não aprecia filosofia e detesta livros de autoajuda talvez não goste das referidas obras. Aproveitei o ensejo e perguntei a minha interlocutora se conhecia o significado da palavra “resiliência” ao que afirmou não saber, expliquei-lhe que resiliência era a capacidade de transformar um trauma, uma situação estressante da vida em algo edificante de forma que a pessoa sai da situação vivida um alguém mais forte e competente, ou seja, mais resistente a situações de destruição da vida pessoal e/ou profissional.

            Todos conhecemos pessoas que passaram por uma situação traumática que dividiu sua vida ao meio com “um antes e um depois” que pode ser a morte de entes queridos ou a queda vertiginosa do padrão de vida e do status social, porém, a forma como as pessoas lidam com isso é sempre particular, algumas “tiram de letra”, outras demoram a se adaptar à nova situação, outras jamais conseguem superar e tornam-se consumidoras de calmantes e antidepressivos, inclusive, é digno de nota que o consumo de tais medicamentos em nosso país só faz aumentar. A minha colega perguntou-me se conhecia o termo “ataraxia” e afirmei que não, ela então me apresentou um texto e explicou-me que por ataraxia entende-se “o estado do homem em que ele se encontra imperturbável frente às emoções, uma condição de tranquilidade, na qual, independentemente dos fatos, o indivíduo permanece inabalável, sem se deixar arrastar por alegrias e prazeres, nem por dores e tristezas”.

            Ela afirmou que gostaria de atingir tal estágio que era considerado pelos filósofos gregos “uma conquista possível e equivalente à própria felicidade humana”. Quem não queria, não é mesmo? Para encerrar, nada melhor que citar o gênio da psicanálise Freud quando disse “somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”, assim, caro(a) leitor(a) mantenha sempre em sua “farmácia caseira” doses de resiliência e de ataraxia, pois, desejo que nunca precises, mas, se precisares, que a superação seja rápida e o(a) torne um alguém mais forte.

Sugestão de boa leitura:

MARINOFF, L. Mais Platão e menos Prozac: A Filosofia aplicada ao cotidiano. 2002, Editora Record. __________. Pergunte a Platão. Terapia para quem não precisa de terapia ou como a Filosofia pode mudar sua vida. 2005, Editora Record.

sábado, 26 de agosto de 2023

Deixa que digam que pensem que falem...

 


Impossível ler o título deste artigo e não lembrar imediatamente do “vovô garotão” Jair Rodrigues (1939-2014). Jair, que de tanto cantar e encantar a todos por onde passava, encantou a si mesmo e não pode mais chorar. Condenado a sempre sorrir, sorrindo viveu. Desfilou pela vida e quando pensávamos que seu sorriso era eterno, repentinamente se foi.

            Por mais que sua obra e seu talento sejam considerados completos, Jair foi um daqueles gênios da música que ouvir cantar nunca era o bastante e, lamentavelmente a cortina do espetáculo baixou e por mais que peçamos bis com aplausos ininterruptos ele não voltará para dar uma palinha, nos deixando a impressão que alguma coisa faltou e também que em termos de música de boa qualidade estamos ficando cada vez mais sós. O andar de cima está cada dia mais reforçado e, muitos dos grandes ícones da música de boa qualidade já estão vivendo o quarto final de suas vidas, penso que não devemos perder oportunidades de assistir seus shows, pois, embora o show deva continuar, o artista inevitavelmente um dia deixa o palco vazio.

            Emociono-me quando assisto a apresentação de Jair Rodrigues no festival de 1966 interpretando “disparada”, genial letra de Geraldo Vandré, o autor da não menos genial “Prá não dizer que não falei das flores”. Ambas as letras tornaram-se hinos cantados pelas multidões, assaltadas que foram, do direito de expressar sua opinião pelos usurpadores da democracia que se instalaram no poder num certo dia 1º de Abril e que fizeram do terrorismo de Estado a ordem do dia. Contra toda a dor e desencanto que um grupo de lunáticos estabelecidos no Poder estavam causando, Jair seguiu cantando, sorrindo e amenizando o sofrimento presente em todo lugar.

            É tarefa difícil escolher uma estrofe de “disparada” para citar neste artigo, pois, “disparada” é toda genialidade e ganhou a eternidade na interpretação inigualável de Jair Rodrigues, pois, embora outros cantores a interpretassem maravilhosamente após 1966, ninguém colocou tanto a alma e o coração nessa letra quanto ele. A música começa pedindo para prepararmos o coração, justamente o coração que levou Jair embora: “Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar / Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão / Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar / Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar / E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo / Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar” e em outra estrofe: “Então não pude seguir valente em lugar tenente / E dono de gado e gente, porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente / Se você não concordar não posso me desculpar / Não canto prá enganar, vou pegar minha viola / Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar”.

            Jair, não teve vida fácil, ralou muito, foi engraxate, mecânico e pedreiro, serviu também o Exército, foi cantor de boate e artista completo desfilou nos palcos da MPB, do samba e até da música sertaneja em que interpretou brilhantemente a música “A Majestade, o Sabiá” cuja composição é de Roberta Miranda.

            Vivemos num tempo em que não são poucas as pessoas que se ocupam mais da vida alheia do que de seus próprios interesses, o que faz com que as pessoas que menos apreciam-nos serem as que mais prestam atenção a tudo o que fazemos, escrevemos e dizemos. É uma triste época, ninguém escapa aos rótulos, se faz algo bom, tem algum interesse embutido nessa boa ação ou quer se aparecer, pois, na mentalidade mercenária que domina a cabeça de muitos, não se concebe que outras pessoas possam pensar diferentemente e agir visando algo que não a satisfação própria. Se defender vigorosamente os fundamentos que balizam o seu pensamento é um radical, e se pensa diferente é um revoltado, mesmo quando aqueles que criticam ingerem senso comum e vomitam reacionarismos fascistoides.

            Para todas as pessoas que sofrem com os rótulos deixo como dica a estrofe inicial de “Deixa isso prá lá” interpretada por Jair Rodrigues. “Deixa que digam / Que pensem que falem / Deixa isso prá lá / Vem pra cá / O que é que tem? / Eu não tô fazendo nada / Nem você também / Faz mal bater um papo / Assim gostoso com alguém?”

 

domingo, 20 de agosto de 2023

Einstein: Sua vida, seu Universo


 Alguns leitores gostam das sugestões de livros que faço neste espaço, então, como acabo de fazer uma leitura muito aprazível, indico a obra “Einstein: Sua vida, seu universo” de Walter Isaacson. Trata-se de uma leitura agradável que conduz a um passeio entre a vida particular e a carreira científica daquele que é considerado o maior gênio da história. Isaacson consegue com grande sensibilidade retratar um Einstein humano com seus problemas de ordem pessoal (familiar e financeira), suas dificuldades para ingressar no meio acadêmico e desenvolver ciência, descreve sua carreira, os acertos e erros e os erros que se converteram em acertos, pois, mesmo quando esteve equivocado Einstein contribuiu para o avanço da Ciência. Com a leitura da obra é possível avistar uma tênue luz no fim do túnel que leva ao entendimento dessa revolução na história da Ciência chamada Teoria da Relatividade.

            O gênio que assombrou o mundo nasceu a 14 de Março de 1879 em Ulm, alemão de nascimento, porém de ascendência judaica, quando criança demorou a falar, foi considerado um garoto idiota por algumas pessoas próximas, mas, quando iniciou seus estudos esteve sempre entre os melhores da turma (ao contrário do que muito se fala a seu respeito). Sempre teve ojeriza à autoridade e dessa forma muitas vezes seu comportamento como acadêmico não era exatamente adequado, por conta disso, adquiriu a antipatia de alguns mestres que dificultaram sua inserção no meio acadêmico como professor universitário.

            Einstein mergulhava cada vez mais na ciência conforme os problemas de ordem pessoal se avolumavam, e apesar de seus esforços desenvolvendo artigos científicos teve que se contentar com o emprego de examinador de patentes do Escritório Federal de Propriedade Intelectual de Berna (Suíça), trabalho no qual, durante as horas vagas em 1905 desenvolveu quatro artigos que se complementavam e davam a certidão de nascimento à teoria da Relatividade Especial afirmando que o tempo e o espaço não eram absolutos colocou a ciência de cabeça para baixo.

            Mudou-se para Berlim, e em 1915 desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral, com a confirmação da veracidade de suas teorias em experiências desenvolvidas por outros cientistas tornou-se celebridade mundial, e, realizou palestras itinerantes por vários países cujos ingressos eram disputados e contados aos milhares. Em 1933, o Nazismo ascendeu ao poder na Alemanha e o gênio resolveu aceitar o convite para trabalhar nos Estados Unidos, país no qual viveu o resto de seus dias, foi muito investigado pela CIA, por ser simpatizante do socialismo em plena época da “caça às bruxas” do Macarthismo. Era contra qualquer tipo de opressão e não aceitava o cerceamento da liberdade de expressão e por isso não poupava críticas referente ações dos EUA neste sentido e nem mesmo ao stalinismo soviético, líder pacifista, pregava a desobediência civil quando da convocação para as Forças Armadas, por tudo isso foi muito criticado, sendo considerado um asno por políticos e populares, sendo assim, falou: “Grandes espíritos sempre encontram forte oposição de mentes medíocres”.

            O receio que os nazistas desenvolvessem a bomba levou-o a escrever uma carta para o Governo Estadunidense sobre a necessidade de fabricar a bomba atômica que a ciência por ele desenvolvida tornava possível, porém, nunca participou diretamente do desenvolvimento da arma, por não ser considerado confiável pelas autoridades militares. Após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagazaki, fato que considerou lamentável foi questionado por um repórter sobre como seria a Terceira Guerra Mundial, afirmou que “sabia apenas como seria a Quarta Guerra Mundial: com pedras”.

            Até o último dia de sua vida esteve às voltas com as equações buscando entender o Universo e tentando resolver o problema que a criação da bomba atômica ocasionou, defendia a criação de um Governo Mundial para evitar as guerras (o único a ter posse das armas atômicas). O “passageiro do raio de luz” finalizou sua viagem por esta dimensão espaço-tempo de forma absoluta em 18 de Abril de 1955 aos 76 anos, no entanto, sua partida será sempre relativa, imortalizado em sua ciência, seu corpo foi cremado e suas cinzas liberadas no Rio Delaware conforme seu pedido, pois não queria que seu túmulo fosse local de peregrinação. Embora o gênio tivesse algumas vezes falado que não gostava de sua popularidade, isso não correspondia ao seu comportamento, ele adorava repórteres e os repórteres o adoravam. Einstein era pop e gostava disso!

Sugestão de boa leitura:

Título: Einstein: sua vida, seu universo.

Autor: ISAACSON, Walter.

Editora: Companhia das Letras, 2007, 696 pág.

sábado, 12 de agosto de 2023

Na natureza selvagem

 

O livro "Na natureza selvagem: a dramática história de um jovem aventureiro" de Jon Krakauer (1954) deu origem ao filme de título homônimo. Eu, inversamente ao costume, assisti primeiro o filme, gostei tanto que acabei por adquirir também o livro. A obra cinematográfica é muito boa e quem desejar pode adquirir o livro também, pois, vale a pena cada centavo do investimento, isto, se o leitor for admirador de obras que fazem o relato de pessoas que ousam aventurar-se pelo mundo abrindo mão da vida confortável e da segurança que o lar onde moram lhes proporciona.

            Trata-se da história real de Christopher Johnson McCandless (1968-1992), que tendo nascido em berço confortável, nunca lhe faltou nada, para garantir isso, seus pais mergulharam no trabalho de forma incansável dando a ele e sua irmã o conforto material que eles mesmos afirmaram não ter na idade destes, muito embora o tempo escasso fizesse com que nem sempre tivessem tempo para os filhos. Chris era um excelente aluno e atleta de elite, crescera em um subúrbio rico de Washington D.C., formou-se com distinção na Universidade e tinha grande gosto pela leitura e entre seus autores favoritos estavam Tolstoi e Thoureau, os quais muito o influenciaram na sua forma de pensar. Tinha espírito aventureiro, uma vontade muito grande de viajar, conhecer outros lugares, os quais lhe possibilitassem entrar em contato consigo próprio.

            Ainda durante o curso acadêmico fizera algumas pequenas viagens solo, as quais terminavam somente quando do último dia de férias. Como bom filho, procurava não decepcionar os pais e buscava sair-se bem na Universidade, uma obrigação que se impunha diante dos esforços destes. Mas, Chris tinha um grande inconformismo com o mundo, suas leituras reforçaram o seu espírito de simplicidade, julgava errado o modelo consumista que fazia a cabeça da maioria das pessoas, e, suas aventuras tinham também por objetivo fugir da loucura que julgava ser a sociedade e encontrar-se consigo próprio, uma pessoa simples, despojada e principalmente livre.

            Após se formar na Universidade em 1990, Chris doa uma considerável quantia em dinheiro que dispunha para uma instituição de caridade, deixa na casa em que morava um bilhete para a família e desaparece, com seu velho carro, o qual, sempre recusou trocar por outro novo apesar da insistência do pai, pois, em suas palavras este lhe servia muito bem, então, não havia necessidade de trocá-lo, perambula por toda a América do Norte. A família a princípio julgou que a sede de McCandless por aventura logo passaria e ele voltaria para casa como das outras vezes, porém, o tempo foi passando e a família começou a ficar muito preocupada e passou a procurá-lo. Como se desfez de grande parte do seu dinheiro teve que procurar empregos os mais diversos, assim, trabalhou em lojas de fast food e também realizou trabalhos pesados em fazendas para conseguir a subsistência.

            Depois de mais de um ano e meio perambulando pelos Estados Unidos decide viver a mãe das aventuras, aproveitando que seu carro estragou, abandona-o, queima o dinheiro que lhe resta e chega ao Alaska pegando caronas com caminhoneiros e viajantes e de posse de 10 kg de arroz, um livro sobre plantas comestíveis e medicinais, uma espingarda e munição lança-se em território selvagem à espera de sobreviver sem absolutamente nenhum conforto material e longe da sociedade moderna, numa trilha deserta encontra um velho ônibus abandonado e faz dele sua casa, vive ali cerca de três meses, subnutrido e doente, tenta sair para buscar ajuda, mas, o período de degelo não lhe permite atravessar um rio e sem saber que, não muito longe, rio acima, havia uma passagem resolve voltar ao ônibus, onde, lúcido espera seus momentos finais.

            O livro e a obra cinematográfica contam toda a aventura de Chris através de investigações e dos seus próprios registros. McCandless deixou para trás até o próprio nome, pois, sempre se identificava com o pseudônimo Alexander Supertramp, o que dificultou sua localização por parte de sua família que somente ocorre, após mais de dois anos de sua partida, quando enfim seu corpo é encontrado. Uma obra sem dúvida emocionante e que possibilita a reflexão sobre muitos aspectos da sociedade e principalmente de nossas vidas.

Sugestão de boa leitura e de vídeo:

Título: Na natureza selvagem: a dramática história de um jovem aventureiro.

Autor: Jon Krakauer.

Editora: Companhia das Letras, 2018, 216 p.

Vídeo: Na natureza selvagem (EUA - 2007) dirigido por Sean Penn.