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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra!

Em minha atuação docente, citando um exemplo mais específico, quando trabalho o conteúdo clima, eu costumo pedir aos alunos que olhem pela janela e afirmo que eles estão visualizando o tempo meteorológico (ensolarado, nublado, chuvoso, etc.) obtendo assim uma fotografia das condições atmosféricas locais e que o clima é algo mais difícil de ser precisado havendo a necessidade de um tempo de estudo não inferior a 30 anos para não se cometer equívocos, pois, pode-se estabelecer que numa determinada localidade neva no inverno porque foi observada a precipitação de neve num ano específico em que houve o hipotético estudo de um ano apenas, o mesmo erro pode ocorrer com as variações positivas ou negativas do índice pluviométrico na localidade. Para evitar equívocos os estudos são longos e cuidadosos e os registros precisos para que no passar do referido período de estudo se estabeleça um padrão para as condições atmosféricas predominantes nas quatro estações no espaço estudado. O padrão uma vez estabelecido é a “personalidade” do clima local, e se o tempo meteorológico corresponde à fotografia, o clima é um filme, ou seja, a sucessão de milhares de imagens momentâneas do tempo meteorológico no decorrer do tempo de estudo. Mas, por que estamos falando de clima se o título indica outra direção? Explico primeiramente a frase utilizada no título cuja ideia é para que se evitem exageros e se busquem as ponderações. A introdução que fiz tratando de clima é de que não é possível conhecer o clima de um local ao analisar um dia ou um ano de forma isolada. Da mesma forma, pode-se utilizar uma fotografia da pobreza existente nos EUA e afirmar que isso é o Capitalismo e mostrar o que há de melhor em Cuba e dizer que isso é o Socialismo (a grande mídia costuma fazer o contrário mostrando o pior ângulo de Cuba e o melhor ângulo dos EUA) e ambas as formas são visões estereotipadas. Costumo afirmar para os alunos que nos países desenvolvidos também há pobreza e desigualdade social, porém, em menor grau, e que nos últimos anos estas vêm aumentando e que temos no Brasil, muitos problemas, mas também a capacidade de resolvê-los. Constato que boa parte das pessoas tem uma visão romântica de que nos EUA e na Europa tudo é perfeito, não há miséria, nem desemprego, nem corrupção, nem discriminação, nem crimes, etc. e que recebemos o castigo divino por nascermos nas terras tupiniquins. Lembro que turistas latino-americanos, muitos inclusive brasileiros já foram discriminados etnicamente ao aportar na Europa, alguns tiveram que retornar sem sair do aeroporto (Espanha) e que nos estádios europeus parte da torcida discrimina atletas negros (Espanha, Itália, etc.). Na Alemanha, o neonazismo vem crescendo no meio de uma geração de jovens que nunca conheceu a miséria e várias vezes li e assisti sobre casos de espancamentos de turistas inclusive brasileiros por skinheads que perambulam nas imediações de estações rodoviárias, ferroviárias e aeroportos na busca de estrangeiros para saciar a sua sede xenofóbica. Na verdade, dependendo da intenção pode-se mostrar a Europa e os EUA como péssimos destinos turísticos evidenciando fatos negativos isolados ou exaltá-los em suas potencialidades. O mesmo ocorre sobre o Brasil, casos de agressões a estrangeiros aqui também ocorrem, porém, frutos de assaltos em algumas regiões específicas, mas, lá como cá são fatos preocupantes, porém, isolados, se comparado ao número dos que aqui aportaram e não tiveram tais problemas no período de permanência (nem por isso deve haver tolerância, a segurança pública precisa ser ampliada). Por outro lado, hoje ainda estive lendo sobre belíssimos exemplos de honestidade de brasileiros ao devolver ingressos de jogos e dinheiro perdido por turistas estrangeiros e também da boa acolhida dada pelos nossos conterrâneos aos visitantes que afirmam estar encantados com o país e que esta copa está sendo a “Copa da alegria”. Enfim, quero dizer que a Europa e os EUA não são o paraíso na terra e nem mesmo o Brasil, no entanto, os europeus e os estadunidenses amam e defendem o seu pedaço de chão e essa é a maior lição que uma parcela da sociedade brasileira deveria aprender.

domingo, 15 de junho de 2014

Sobre resiliência e ataraxia!

Quando acadêmico este escriba imaginava como deveriam ser os diálogos entre os professores na hora do recreio e pensava serem momentos de discussões filosóficas e também dos grandes problemas locais, nacionais e mundiais, no entanto, quando me tornei professor não tardei a descobrir que tal momento era utilizado para a necessária descontração e que nem sempre puxar um “papo-cabeça” era uma atitude vista com simpatia por parte de alguns colegas. Mas, como para toda a regra há a exceção, não demorei a descobrir que as pessoas são diferentes entre si e que havia aquelas que não torciam o nariz para uma conversa mais fundamentada. Num desses dias estava conversando com uma colega que é professora de Filosofia e contei-lhe que li dois livros sobre a aplicação terapêutica da Filosofia em consultas com pacientes que desejam conseguir ajuda para resolver os problemas da vida que se acumulam e os/as colocam em becos sem saídas. Comentei que essa tendência se observa mais fortemente fora do Brasil, principalmente nos Estados Unidos da América e também na Europa. Afirmei que existe muita gente da área da Psicologia que não está gostando dessa invasão dos filósofos em sua área de atuação e que os consideram despreparados para exercer tal função, enquanto, outros que já são psicólogos estão indo atrás dos ensinamentos de Filosofia para ao se especializar oferecer um algo a mais para os seus “clientes”, uma vez que os psicólogos, segundo li, não chamam as pessoas que atendem como pacientes. Comentei com a minha colega que os filósofos clínicos auxiliam seus clientes a desatar os nós que a vida lhes apresentou através de sugestões embasadas na teoria de filósofos tais como Platão, ou seja, como Platão pensaria e resolveria o imbróglio em questão apresentado pelo(a) cliente. Particularmente gostei muito dos livros abaixo referenciados, porém, sou bastante eclético nas leituras e assim quem não aprecia filosofia e detesta livros de autoajuda talvez não goste das referidas obras. Aproveitei o ensejo e perguntei a minha interlocutora se conhecia o significado da palavra “resiliência” ao que afirmou não saber, expliquei-lhe que resiliência era a capacidade de transformar um trauma, uma situação estressante da vida em algo edificante de forma que a pessoa sai da situação vivida um alguém mais forte e competente, ou seja, mais resistente a situações de destruição da vida pessoal e/ou profissional. Todos conhecemos pessoas que passaram por uma situação traumática que dividiu sua vida ao meio com “um antes e um depois” que pode ser a morte de entes queridos ou a queda vertiginosa do padrão de vida e do status social, porém, a forma como as pessoas lidam com isso é sempre particular, algumas “tiram de letra”, outras demoram a se adaptar à nova situação, outras jamais conseguem superar e tornam-se consumidoras de calmantes e antidepressivos, inclusive, é digno de nota que o consumo de tais medicamentos em nosso país só faz aumentar. A minha colega perguntou-me se conhecia o termo “ataraxia” e afirmei que não, ela então me apresentou um texto e explicou-me que por ataraxia entende-se “o estado do homem em que ele se encontra imperturbável frente às emoções, uma condição de tranquilidade, na qual, independentemente dos fatos, o indivíduo permanece inabalável, sem se deixar arrastar por alegrias e prazeres, nem por dores e tristezas”. Ela afirmou que gostaria de atingir tal estágio que era considerado pelos filósofos gregos “uma conquista possível e equivalente à própria felicidade humana”. Quem não queria, não é mesmo? Para encerrar, nada melhor que citar o gênio da psicanálise Freud quando disse “somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”, assim, caro(a) leitor(a) mantenha sempre em sua “farmácia caseira” doses de resiliência e de ataraxia, pois, desejo que nunca precises, mas, se precisares, que a superação seja rápida e o(a) torne um alguém mais forte. Sugestão de boa leitura: MARINOFF, L. Mais Platão e menos Prozac: A Filosofia aplicada ao cotidiano. 2002, Editora Record. __________. Pergunte a Platão. Terapia para quem não precisa de terapia ou como a Filosofia pode mudar sua vida. 2005, Editora Record.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Vai ter Copa, Saúde e Educação!

Inicio estas linhas com a lembrança à mente de uma frase do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht que viveu no período de 1898 a 1956, mas, cuja vida ecoa nas palavras proferidas e imortalizadas chegando ao nosso tempo com uma sapiência estimulante e ao mesmo tempo demolidora, estimulante por que nos encaminha ao ato do pensar, atividade tão básica do ser humano e tão desprezada, visto que tão poucos a ela se dedicam e muitos que o fazem não saem da lâmina d´água num Oceano filosófico de profundidades abissais, e, o lado reverso a que me referi diz respeito a destruição de ideias tão em voga, mas, sem nenhuma racionalidade, portanto, instintivas. A frase de Brecht que me veio à memória é “que tempos são estes em que é necessário defender o óbvio”? Como sabemos a genialidade muitas vezes não se encontra nas verdadeiras respostas, mas, nas verdadeiras perguntas e a partir desta frase se poderiam fazer inúmeras elucubrações, no entanto, este artigo que ora inicio estava previsto na pauta para esta semana com um tema específico e que naturalmente vem ganhando cada vez mais tempo nos meios de comunicação, a Copa do Mundo que após 64 anos retorna aos gramados brasileiros. Penso que numa democracia nada é mais natural e principalmente necessário do que a liberdade de expressão, a possibilidade de se fazer manifestações a favor ou contra qualquer coisa desde que respeitada a lei e a ordem, pois, apesar de apoiar manifestações e ver nelas o fermento da democracia sou radicalmente contra depredações de patrimônio público ou privado, pois, para dar um recado não há a necessidade de agir de forma vandálica e penso que devem ser detidas as pessoas que assim agirem. Estamos a poucos dias do início da Copa do Mundo e um grupo de manifestantes retardatários resolveu que irá utilizar o período da realização da Copa do Mundo para mostrar sua indignação afirmando que o dinheiro gasto na Copa deveria ser investido em Educação, Saúde, etc.. Penso que o momento certo para sair às ruas era aquele em que Lula então Presidente avisou através da imprensa nacional que iria colocar o nome do Brasil no processo de escolha da sede do então longínquo mundial, porém, naquele momento não houve protestos nas ruas, e, a desconfiança quanto à possibilidade de escolha do Brasil para sede era quase geral nas terras tupiniquins, mas, o Brasil foi escolhido e lembro-me que a mais poderosa rede de comunicações deste país mostrava o povo comemorando tal fato, aliás, tal empresa parece ter um comportamento bipolar uma vez que é talvez a empresa que mais vai lucrar com o mundial, mesmo assim, ao mesmo tempo parece pela atenção dada ao movimento “Não vai ter Copa” ser aquele atleta que todo técnico de futebol quer, o “coringa” que é assim chamado por jogar em várias posições, a Globo é assim, joga em qualquer posição, mas, não por amor à camisa e sim de acordo com os interesses que norteiam sua carreira e desta forma “profissional” não escolhe equipe, não raras vezes atua contra a nossa meta. Há uma falácia com relação à Copa de que tais recursos dividiriam o “Mar Vermelho” que existe entre a Saúde e a Educação que o Brasil dispõe e a dos sonhos que nossos incansáveis “guerreiros do arco-íris” esperavam conseguir com o montante de recursos aplicados nas obras do Mundial, muitos totalmente desinformados pensam que o Governo Federal está gastando valores muito acima daqueles investidos em Educação e Saúde e pregam uma Educação e Saúde padrão FIFA, tais valores acrescidos ao orçamento de tais Ministérios certamente contribuiriam, mas, não teriam o impacto esperado pelos opositores ao mundial, pois, o investimento em Educação e Saúde desde 2010 segundo Carta Maior foi de R$ 850 bilhões e o investimento público total no mundial é de R$ 25 bilhões. Como os recursos já foram investidos e o mundial já está para começar agir contra a Copa é fazer gol contra e sabotar o país. Assim, sugiro que abandonem essa bobagem de Educação e Saúde Padrão FIFA, pois, não teríamos nenhuma condição de trabalho se o orçamento fosse tão drasticamente reduzido, lembrando que as obras de mobilidade urbana serão legado da Copa e os recursos dos Estádios são em grande parte empréstimos que serão devolvidos ao BNDES. Dessa forma, sugiro que torçam pelo Brasil, pois, o Brasil perdeu as Copas de 66, 74, 78 e 82 e mesmo assim a Ditadura Militar não caiu, e, FHC que viu o Brasil trazer o caneco de 2002 não conseguiu fazer o sucessor. Então dentro do campo ou fora dele que o Fair Play seja a regra. Boa Copa para todos e todas!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Lula é o cara!

Há alguns anos um amigo enviou-me um e-mail e pediu que no site de buscas Google digitasse “presidente mais mentiroso do Brasil” o que movido pela curiosidade fiz e como era de se esperar (uma vez que meu amigo sempre foi simpatizante de ideologias e partidos digamos mais à direita) o resultado apareceu numa fração de segundos: Lula! Não me irritei, sabedor do caráter brincalhão do referido amigo, que, tinha ciência de que votei em Lula todas as vezes em que ele saiu candidato a Presidente, foi assim em 1989, campanha na qual assisti Collor na Praça Nogueira do Amaral com seu discurso odioso contra aquilo que estavam fazendo com o país, e o que ele fez depois, vocês bem sabem. Assisti o debate final da Globo e a manipulação (confessa por Boni) da edição do Jornal Nacional. Em 1994, não me iludi com o professor e intelectual FHC e menos ainda em sua reeleição cuja aprovação da emenda constitucional que a possibilitou teve votos comprados por R$ 200 mil reais a unidade conforme comprovado pelo “Senhor X” (Narciso Mendes) ao gravar secretamente parlamentares dentre os quais o então Deputado Federal Ronivon Santiago (PFL – AC). Na época, o Senador Pedro Simon afirmou que 150 deputados foram comprados para aprovar a emenda da reeleição que aprovada em benefício próprio (para FHC) foi um verdadeiro golpe à Constituição, pois, tal mudança constitucional por força de lei somente poderia ser válida para o próximo mandatário. Além disso, FHC torrou o patrimônio público do país, penso que uma coisa é ser neoliberal, conservador, outra é ser desprovido de sensatez, pois, nenhuma pessoa por mais neoliberal e defensora do Consenso de Washington, pode, ao tomar conhecimento da forma como se deram as privatizações de FHC ainda assim defender o modelo levado a cabo. A “Dama de Ferro” Margareth Thatcher comandou as privatizações na Inglaterra, mas, ela foi mais patriota e sensata, pois, teve mais cuidado com o patrimônio do povo e o destino a ele dado do que a equipe de Governo de FHC. Porém, a grande mídia antenada com os interesses externos apoiou amplamente o modelo do programa de privatizações, verdadeiro ato lesa-pátria que tornou o país mais pobre, e, que no ato de vender suas valiosas empresas além de receber “moedas podres” fez aumentar sua dívida emprestando dinheiro via BNDES para os compradores. Quem ainda hoje defende as privatizações do Governo FHC tal como foram realizadas ou é ingênuo, ou mal informado, ou então, mal intencionado. Mas, apesar das derrotas, o povo brasileiro seguiu firme na “esperança” enfrentando o medo e com a certeza que um dia “LULA Lá” chegaria e este dia chegou em 01 de Janeiro de 2003, a classe trabalhadora chegava ao Poder após 500 anos de domínio da burguesia, mas, Lula tinha agora uma difícil missão na qual não podia fracassar, pois, o direito ao erro somente é permitido aos habituais donos do Poder. Na torcida para que Lula desse errado, os mesmos, que hoje torcem pelo fracasso da Copa do Mundo realizada em nosso país, são pessoas desprovidas do sentimento de patriotismo, pois, sempre torceram contra o Brasil e agem tal como alguns jogadores de torneios de várzea que no momento em que o jogo está difícil começam propositadamente a fazer corpo mole (quando não, gols contra) e a reclamar da escalação, da posição em que estão jogando e pondo defeitos na atuação de todos, menos em si. Lula que sobreviveu à miséria na infância terminou seus 8 anos de mandato com 80% de aprovação e ainda elegeu sua sucessora, a primeira mulher presidente deste país. Lula é aplaudido aonde vai e ganhou até o momento 28 títulos de Doutor Honóris Causa, além de outros prêmios e honrarias. O cerimonial de Reis, Rainhas e Presidentes(as) o colocam ao lado dos anfitriões para a fotografia oficial, é considerado um grande estadista e um líder em defesa de causas humanitárias por intelectuais e líderes do mundo todo e como sendo um fenômeno por ninguém menos que o principal representante da oposição Aécio Neves (PSDB). O Presidente Obama (EUA) ao se referir à Lula afirmou certa vez “adoro esse cara!” E eu após a consulta sugerida pelo referido amigo pesquisei naquele momento “qual o melhor presidente do Brasil?” O Google novamente em frações de segundos: Lula! Então, como troco, enviei por e-mail a minha sugestão de pesquisa para ele!

sábado, 24 de maio de 2014

A TV como sombra da Alegoria da Caverna

Nos últimos anos o aumento real do poder aquisitivo dos trabalhadores e a facilidade para obter crédito possibilitou que setores mais humildes da sociedade pudessem mobiliar/remobiliar suas casas, então é de se supor que hoje a situação não seja mais a verificada no Censo do ano 2000 em que havia em nosso país mais casas com TV do que casas com geladeiras, pois, como disse, o que se supõe ser o item de primeira necessidade foi naquele momento por muitos relegado a segundo plano, talvez o povo mais humilde pensasse tal como Arnaldo Antunes (ex-Titãs) “Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que?... A gente não quer só comida. A gente quer comida. Diversão e arte[...]”. Dessa forma, a opção da parcela mais pobre pela TV certamente causou estranheza aos mais bem nascidos no que concerne ao fator utilidade, no entanto, tomando novamente a letra de Arnaldo Antunes e pensando na “vida Severina” que aos trabalhadores é destinada, ou seja, uma vida muito dura, de muito trabalho, de muito sofrimento e poucas alegrias, porém, de muita fé em dias melhores se torna compreensível, pois, entre melhor conservar o pouco alimento existente e um pouco de distração em meio às agruras da vida, as dores do espírito falaram mais alto, por isso a escolha. Ao pensar na questão da TV lembro que os Estados Unidos também tiveram um Marx famoso (Groucho Marx), mas este era humorista, ator, diretor de cinema, cantor, compositor e roteirista e que certa vez afirmou: “Acho a televisão muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro”. Penso que não se trata de demonizar a TV, mas, grande parte da programação da TV brasileira é deprimente e alguns dias li num jornal que os brasileiros com acesso à TV por assinatura (paga) mesmo assim, preferem os canais abertos em detrimento de programas de melhor qualidade existentes nos pacotes que assinam. Penso que independentemente de o canal ser fechado (pago) ou aberto (livre) a programação precisa ser instrutiva, é preciso que a pessoa ao final do programa tenha se apropriado de mais conhecimento desenvolvido pela humanidade aumentando sua bagagem cultural, mas, não sou ingênuo, sei que a TV manipula o povo e o povo manipula a TV, afinal, a TV oferece ao povo o que ele quer consumir e o que o povo quer consumir é muitas vezes de qualidade para lá de duvidosa. Além dos dramalhões (novelas) que hipnotizam homens e mulheres há também a manipulação da informação que faz do tratamento dado à notícia pelo Canal de TV a suprema verdade para parte considerável do povo que não reflete sobre as notícias, o aparelho de TV através dos profissionais pagos para dar a versão do grupo empresarial sobre os acontecimentos “pensa” pelo povo. A TV tem um poder gigantesco, não é a toa que “num país muito, muito distante” que foi governado por uma ditadura militar durante duas décadas os generais presidentes tinham por hábito na hora da nomeação de ministros, especialmente das comunicações consultar um poderoso empresário (já falecido) do setor. Penso que é muito difícil conversar com pessoas viciadas na telinha, pois, basta ouvi-las e ligar o canal de TV que “automaticamente” assistem e constatar que a opinião destas é exatamente a mesma. O filósofo Platão em sua Alegoria da Caverna propõe a reflexão sobre uma ficção a respeito de alguns homens nascidos em uma caverna na qual estavam acorrentados e que nunca tiveram contato com o exterior durante toda a sua vida e que viam sombras projetadas no fundo da mesma, as quais tratavam como divindades adorando-as, até que certo dia um deles se libertou das correntes e saiu da caverna, conheceu o mundo exterior e descobriu que aquilo que adoravam como divindades eram na verdade sombras de pessoas que passavam próximas à entrada da caverna, então decide voltar à mesma e conta tudo o que viu fora da caverna e explica a origem das sombras aos companheiros acorrentados que o matam devido às coisas absurdas e insanas que proferiu. Nem tudo o que a TV noticia é verdade, existem manipulações e omissões por conta de filtros ideológicos, mas, penso que está ficando perigoso falar isso à esmo, afinal, a TV é a sombra da Alegoria da Caverna e existe muita gente acorrentada no fundo da caverna de seus lares.

sábado, 17 de maio de 2014

Deixa que digam que pensem que falem...

Impossível ler o título deste artigo e não lembrar imediatamente do “vovô garotão” Jair Rodrigues que infelizmente esta semana deixou este plano em que de tanto cantar e encantar a todos por onde passava encantou a si mesmo e não pode mais chorar e condenado a sempre sorrir sorrindo viveu, desfilou pela vida e quando pensávamos que seu sorriso era eterno repentinamente se foi, por mais que sua obra e seu talento sejam considerados completos Jair foi um daqueles gênios da música que ouvir cantar nunca era o bastante e lamentavelmente a cortina do espetáculo baixou e por mais que peçamos bis com aplausos ininterruptos ele não voltará para mais uma palinha, nos dando a impressão que alguma coisa faltou e também que em termos de música de boa qualidade estamos ficando cada vez mais sós, o andar de cima está cada dia mais reforçado e quando penso que muitos dos grandes ícones da música de boa qualidade já estão vivendo o quarto final de suas vidas, penso que não devemos perder oportunidades de assistir seus shows, pois, embora o show deva continuar o artista inevitavelmente um dia deixa o palco vazio. Emociono-me quando assisto a sua apresentação no festival de 1966 interpretando “disparada”, genial letra de Geraldo Vandré, o autor da não menos genial “Prá não dizer que não falei das flores”, ambas as letras tornaram-se hinos cantados pelas multidões que assaltados do direito de expressar sua opinião pelos usurpadores da democracia que se instalaram num certo dia 1º de Abril e que fizeram do terrorismo de Estado a ordem do dia e contra toda a dor e desencanto que um grupo de lunáticos estabelecidos no Poder estavam causando, Jair seguiu cantando, sorrindo e amenizando o sofrimento presente em todo lugar. É tarefa difícil escolher uma estrofe de “disparada” para citar neste artigo, pois, “disparada” é toda genialidade e ganhou a eternidade na interpretação inigualável de Jair Rodrigues, pois, embora outros cantores a interpretassem maravilhosamente após 1966, ninguém colocou tanto a alma e o coração nessa letra quanto ele. A música começa pedindo para prepararmos o coração, justamente o coração que levou Jair embora: “Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar / Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão / Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar / Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar / E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo / Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar” e em outra estrofe: “Então não pude seguir valente em lugar tenente / E dono de gado e gente, porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente / Se você não concordar não posso me desculpar / Não canto prá enganar, vou pegar minha viola / Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar”. Jair, não teve vida fácil, ralou muito, foi engraxate, mecânico e pedreiro, serviu também o Exército, foi cantor de boate e artista completo desfilou nos palcos da MPB, do samba e até da música sertaneja em que interpretou brilhantemente a música “A Majestade, o Sabiá” cuja composição é de Roberta Miranda. Vivemos num tempo em que não são poucas as pessoas que se ocupam mais da vida alheia do que cuidando de seus próprios interesses, o que faz com que as pessoas que menos apreciam-nos serem as que mais prestam atenção a tudo o que fazemos, escrevemos e dizemos. É uma triste época, ninguém escapa aos rótulos, se faz algo bom tem algum interesse embutido nessa boa ação ou quer se aparecer, pois, na mentalidade mercenária que domina a cabeça de muitos não se concebe que outras pessoas possam pensar diferentemente e agir visando algo que não a satisfação própria. Se defender vigorosamente os fundamentos que balizam o seu pensamento é um radical, e se pensa diferente é um revoltado da vida mesmo quando aqueles que criticam ingerem senso comum e vomitam reacionarismos fascistoides. Para todas as pessoas que sofrem com os rótulos deixo como dica a estrofe inicial de “Deixa isso prá lá” interpretada por Jair Rodrigues. “Deixa que digam / Que pensem que falem / Deixa isso prá lá / Vem pra cá / O que é que tem? / E eu não tô fazendo nada / Nem você também / Faz mal bater um papo / Assim gostoso com alguém?”

quinta-feira, 8 de maio de 2014

E as águias voaram...

Há alguns anos ministrei um curso de formação político-sindical para professores(as) e funcionários(as) em Educação e utilizei a metáfora da águia e da galinha que se desenvolve em torno da narrativa sobre um filhote de águia apreendido por um camponês e criado num galinheiro e que passa a se comportar como se galinha fosse, até que um homem visita o camponês e ao ver a águia afirma admirado: “essa ave é uma águia!” e o camponês responde: “não é mais, agora ela é uma galinha como as outras!”, contrariado o visitante afirma: “não, uma águia é e será sempre uma águia, pois tem o coração de águia”, novamente o camponês lhe contraria afirmando que a águia é agora uma galinha e que jamais voará. O visitante faz uma tentativa de fazer a águia voar colocando-a sobre o braço e esta pula ao chão para debicar milho juntamente com as outras galinhas, a insatisfação do visitante é acompanhada pelos risos do camponês incrédulo. O homem não desiste sobe em cima do telhado e tanta alçar a águia ao voo, porém, ela desce ao chão e se junta com as demais galinhas. Persistente na missão de libertar a águia, no dia seguinte o homem leva-a ao alto de um penhasco e apoiando-a no braço mostra a ela a imensidão do espaço a ela reservado até o momento em que um raio de luz do Sol penetra nos seus olhos e ela trêmula, grasna e alça um voo majestoso rumo à liberdade. Nos dias de ocorrência da recente greve, juntamente com alguns/algumas colegas da APP-Sindicato visitei sete municípios e várias escolas e em algumas delas relembrei a metáfora e me senti como o homem que estava libertando as águias, pois, professores(as) e funcionários(as) são águias, podem até algumas vezes não se comportarem como tal, mas possuem mente e coração de águias e apesar de não escaparem à alienação imposta pelo sistema que de forma nada inocente condiciona como limitados(as) seres com grande capacidade com o intuito de sobre eles(as) exercer seu domínio. E soube que muitas daquelas águias alçaram voo após a fala que nada tinha de especial, pois o que havia de especial estava na mente e no coração de cada trabalhador(a) que a ouvia. Sendo professor tal como qualquer outro eu me sinto muitas vezes como o homem que não desiste de fazer a águia voar para lhe dar a liberdade ao alçar o educando ao mundo. Que o exemplo dos/das trabalhadores(as) em educação povoe a mente dos(as) alunos(as) de forma que no dia em que estiverem exercendo uma atividade profissional lembrem-se que a união de todos(as) em prol de um objetivo torna sua consecução possível e que o individualismo que a sociedade capitalista cultua enfraquece justamente aqueles que produzem as riquezas, a classe trabalhadora. Aproveito a oportunidade para me dirigir aos pais e alunos(as) para dizer que nós trabalhadores(as) em Educação ensinamos mais uma vez à sociedade como fazer manifestações de forma ordeira e organizada e que temos na Educação nosso maior compromisso, foi por esse motivo que fizemos uma passeata com mais de 20 mil manifestantes em Curitiba e que não temos vergonha em fazer greve como sugerem alguns, pois, vergonha é que tenhamos governantes que resolvam “pagar para ver”, ou seja, permitam que a greve ocorra acreditando não ser forte e assim poder fazer ouvidos moucos à categoria. Nós trabalhadores(as) em Educação somos conscientes para lutar por nossos direitos, também o somos para fazer com que nossos educandos não sejam prejudicados, a reposição das aulas não ministradas é um compromisso assumido. Cada aula não ministrada precisa ser reposta, pois o/a aluno(a) não pode ser prejudicado(a) e em minha opinião isso vale para o caso em que o/a professor(a) estava em greve ou não, pois, um(a) professor(a) consciente em NÃO ministrando a aula por ausência de alunos(as) tem o dever moral de não penalizá-los(as). A ausência de consciência de classe ou excessivo zelo partidário ao governo atual não o/a exime do seu compromisso com os/as educandos(as). Pena que o governo estadual não pense assim, pois, soube através da direção de um colégio que foram recebidas ordens para que os/as professores(as) que não fizeram greve e que NÃO ministraram aulas por ausência de alunos(as) possam repor só os conteúdos. O governo na intenção de “premiar” os/as professores(as) fiéis (não grevistas) acaba prejudicando os/as estudantes. Deixo a seguinte dica aos pais: defendam os interesses de seus filhos, se NÃO houve aulas, é mais justo com os mesmos que a reposição não seja apenas de conteúdos. P.S. Soube que alguns/algumas professores(as) que não fizeram greve e NÃO ministraram aulas no período, conscientes de sua responsabilidade com a classe estudantil resolveram também repor aulas juntamente com os/as demais. Parabéns Professores(as) pela atitude!