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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Do amor e outros demônios

Antes de ser escritor, Gabriel García Márquez (1927-2014) foi jornalista. E na presente obra ele conta que em um dia qualquer do ano de 1949, sem ter uma pauta especial lhe foi incumbida a tarefa de ir até o histórico prédio do Convento de Santa Clara, o qual iria ser demolido para a construção de um hotel cinco estrelas em atendimento à demanda do pujante turismo da colombiana e caribenha cidade de Cartagena das Índias. Naquele momento estavam sendo abertas as criptas onde estavam enterradas freiras da Congregação das Irmãs Clarissas e também pessoas da nobreza colonial, período em que a cidade era a mais povoada do Vice-Reinado de Nova Granada cujo território deu origem à Colômbia, Panamá, Equador e Venezuela. Muitos cadáveres haviam sido ali depositados há mais de duzentos anos e suas ossadas estavam sendo entregues às famílias sempre que estas as reclamavam. Outras (não reclamadas) seriam transferidas para o cemitério. Enquanto estava lá, chamou a atenção de Gabriel García Márquez quando da abertura de uma cripta cuja  placa  registrava ser da Marquesa Sierva Maria de Todos los Àngeles, na qual estava a ossada de uma criança com uma longa e vasta cabeleira cor de cobre, a qual mediu vinte e dois metros e onze centímetros. Ante seu espanto, o pedreiro disse ao jovem jornalista que isso era plenamente normal pois, o cabelo continua crescendo após a morte. Márquez lembrou que sua avó lhe contara sobre a lenda de uma marquesinha cujo cabelo se arrastava no chão tal qual uma cauda de vestido de noiva a quem vários milagres foram atribuídos. A longa cabeleira nunca cortada desde sua infância era parte de uma promessa cujo término seria com seu casamento.

            O jovem jornalista voltou ao jornal e fez a matéria sobre a demolição do convento, porém, nunca esqueceu a história. Em 1994, já consagrado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1982, retornou ao tema publicando a presente obra. Os pais de Sierva Maria de Todos los Ángeles se casaram sem que entre eles houvesse amor, quando nasceu (século XVIII) foi criada por uma escrava de nome Dominga del Adviento. O Marquês e sua esposa foram totalmente negligentes com a criança que somente se sentia à vontade quando estava em companhia das escravas. Com elas aprendeu a cultura e algumas línguas africanas sobretudo a língua yorubá que falava fluentemente. A Cartagena da Índias na qual viveu a pequena marquesa era também a mais rica cidade do Vice-Reino de Nova Granada. Tinha um milionário comércio de escravos. Era de seu porto que navios carregados de ouro e prata partiam para a Espanha e era por ele que chegavam mercadorias e pessoas da metrópole. Em certa oportunidade, a marquesinha com doze anos de idade foi ao porto junto com uma das escravas para adquirir alimentos e acabou sendo mordida no tornozelo por um cão portador de raiva.

            Quando seu pai tomou conhecimento do fato ocorrido, levou-a de volta para a Casa Grande, mas, ela não se habituou e voltou a dormir com as escravas na senzala. O pai tentou se redimir de sua negligência buscando a melhor medicina da época (a qual não era grande coisa), afinal, a doença era à época incurável, A menina ante os maus tratos (procedimentos médicos rudimentares da época) que recebia dos médicos começou a reagir de forma hostil e, tendo em vista que a doença era incurável, o Marquês foi procurado por religiosos que lhe orientaram a interná-la no Convento das Freiras Clarissas para que ao menos sua alma fosse salva. O conhecimento acerca da doença era quase nenhum e, os religiosos viam na loucura que se instalava nos doentes, a possessão de demônios sobre seus corpos e que atormentavam suas almas. A abadessa do Convento não gostou de receber a menina e a queria longe dali no menor tempo possível, para tal, carregava de tinta as atas que fazia sobre ela atribuindo-lhe a culpa por chuvas fortes, revoadas de pássaros, eclipse e tremor de terra. Um jovem padre de nome Cayetano Delaura foi designado para fazer seu exorcismo porém, sonhou com ela antes de a conhecer e ao conhecê-la esta lhe contou o mesmo sonho. O jovem padre que sonhava ser bibliotecário do Vaticano era muito culto, possuía e lia livros proibidos pela Santa Inquisição. O padre teve pena da marquesinha e ao visitá-la frequentemente, acabou por se apaixonar por ela. Tendo tomado conhecimento de uma passagem secreta entre o hospital e o convento, começou a fazer visitas noturnas à Sierva Maria que também por ele se apaixonou. Cayetano tenta mostrar aos demais religiosos que não acredita que ela esteja possuída por demônios e afirma: "Ás vezes atribuímos ao demônio coisas que não entendemos. Sem cuidar que podem ser coisas que não entendemos de Deus". Os exorcismos começaram por intermédio de outro sacerdote e a menina aterrorizada se tornou ainda mais hostil reforçando a ideia de estar possuída por demônios. Sierva Maria propõe ao padre Cayetano Delaura fugirem e este se recusa, pois quer encontrar um meio legal para livrá-la desse sofrimento e conseguir dispensa de seu ofício para com ela viver. Paro aqui para não dar spoiler! Fica a dica!

 

Sugestão de boa leitura:

Título: Do amor e outros demônios.

Autor: Gabriel García Márquez.

Editora: Record, 2020, 192 pág.

 

 

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