Powered By Blogger

quinta-feira, 12 de abril de 2018

As jabuticabas roseo weberiensis e estefensis




Em minha cidade há um bairro com o nome Jaboticabal. O nome se deve ao fato de originalmente haver no local grande presença de jabuticabeiras nativas cujo nome científico é questão não resolvida: Myrciaria cauliflora; Plinia trunciflora ou Plinia cauliflora. A jabuticabeira tem vários nomes populares: jabuticabeira-preta, jabuticabeira-rajada, jabuticabeira-rósea, jabuticabeira-vermelho-branca, jabuticaba-paulista, jabuticaba-ponhema, jabuticaba-açu. A jabuticabeira é uma planta higrófila, que aprecia sol de médio a pleno esplendor e que desenvolve suas flores e frutos espalhados pelos galhos e tronco. Os animais que se alimentam de seus frutos fazem a dispersão da espécie pela floresta. Trata-se de uma planta bastante comum no Brasil e inexistente ou rara, em outros países, por isso, considerada exótica fora de nossas fronteiras. Restam poucas jabuticabeiras nativas no bairro Jaboticabal, hoje elas abundam em Brasília, no bosque do STF. Neste bosque destaca-se a subespécie roseo weberiensis pela sua grande produção de jabuticabas, seguidas de subespécies estefensis.
            É costume se referir à jabuticaba para demonstrar contrariedade a fatos inusitados que supostamente só ocorrem no Brasil. Sendo isto mais uma jabuticaba, pois, ela também ocorre na Argentina, no Paraguai, no México e em outros países, onde é cultivada como planta exótica que é. Jabuticabas, no entanto, se desenvolvem com especial prodigalidade no espaço geográfico característico dos países do Sul (subdesenvolvidos), porém, nenhum supera a produção de jabuticabas do bosque do STF. Rosa Weber já produziu algumas jabuticabas de qualidade. No processo contra José Dirceu, ela disse: ”não tenho provas cabais contra José Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Ora, se não há provas cabais aplica-se o princípio da presunção da inocência e o in dúbio pro reo. Ninguém pode ter sua liberdade retirada se a culpa não for confirmada com provas consistentes. No processo do habeas corpus de Lula, ela saiu com uma nova jabuticaba: “Como vocês sabem, sou contra a prisão em segunda instância, mas, no caso específico do habeas corpus de Lula, vou acompanhar vocês e ser a favor da prisão em segunda instância. Mas já adianto aqui, que quando formos votar a regra que vai valer para todo mundo, votarei contra a prisão em segunda instância porque prisão em segunda instância é inconstitucional”! Esta frase apontada como falsa por O Globo, que afirma que ela não teria dito isso, porém, o conteúdo é verdadeiro, pois, em várias oportunidades ela afirmou que na Ação Declaratória de Constitucionalidade votaria contra a prisão em segunda instância por entender ser inconstitucional, e na ocasião resolveu segundo O Globo seguir o relatório do Ministro Edson Fachin e manter a colegialidade. A verdadeira fala foi: “Sou contra a prisão em segunda estância, mas, neste caso específico, vou votar a favor porque é um habeas corpus específico, não é uma ação de constitucionalidade”. Penso que os jornalistas de O Globo produziram uma jabuticaba também, pois, se as palavras foram outras, o conteúdo é o mesmo!
Em ambas as frases Rosa Weber tinha consciência da inconstitucionalidade. Ora, a inconstitucionalidade da prisão antes do trânsito em julgado é fato conhecido de todos, pois, a Constituição Federal determina em seu artigo 5º “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] e no inciso LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. O Código de Processo Penal reforça isso de forma muito clara, pois no artigo 283 assim estabelece: “Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva”. Se a ministra estava consciente disso, porque votou em contrariedade ao seu próprio entendimento? E consciente de que tal voto poderia contribuir para que uma injustiça ocorresse com o tolhimento de um dos mais importantes direitos humanos, a liberdade, porque prosseguiu neste intento? Para seguir a maioria que só foi maioria porque ela assim votou? Por que o habeas corpus específico de que falou era para Lula? Para que a mídia golpista e os fascistas tivessem seu momento de êxtase com uma prisão ilegal que logo seria decretada? Por que considera que o que deve valer para todo mundo não vale para Lula? E quanto aos demais Ministros, agiram assim por medo da Rede Globo? Para ouvir os clamores da opinião pública quando na verdade era de parcela desta, justamente, a menos adepta à democracia e aos direitos fundamentais? Quais interesses estão por trás da retirada de Lula das eleições de 2018? São interesses do Grande Capital Nacional ou Estrangeiro, ou de ambos?
 Há várias pessoas condenadas em segunda instância e que não estão presas, e não critico isso, pois, é o que a Constituição Federal estabelece como legal. A operação Lava-jato em sua propaganda de combate ao crime organizado tornou o Estado criminoso ao relativizar direitos, desrespeitar ou interpretar de forma esquizofrênica a Constituição Federal e o Código de Processo Penal, e, ao arrepio da legislação vigente, condenações em segunda instância foram permitidas desde 2016, indo na contramão do que pregam regras estabelecidas em Estados Democráticos de Direito que apontam que o bom juiz no início do processo precisa ter convicção da inocência do réu e mudar sua convicção conforme as provas indicativas da culpabilidade deste surgirem. O juiz não pode agir em consórcio com o Ministério Público Federal direcionando o caso para o fim desejado (a condenação a qualquer custo do réu), pois, aí se trata de um Tribunal de Inquisição e muitos inocentes serão condenados enquanto outros cidadãos culpados, porém bem quistos, passarão ao largo dos tribunais. Ao não aprovar a PEC n.º 37 se criou um monstro no Brasil que só encontra paralelo na Estônia, pois, não há limites para os poderes do Judiciário que se voltam agora contra os cidadãos, pois, destrói a própria democracia para favorecer o grande capital nacional e estrangeiro. Quem hoje aplaude o desrespeito aos direitos de Lula e de outras pessoas, amanhã poderá ter os seus próprios direitos negados, pois, as novas e tresloucadas interpretações da lei viram jurisprudências.
            O Ministro Alexandre de Moraes também tem produzido jabuticabas: ele afirmou que a presunção da inocência não é um valor absoluto, mas, relativo. Segundo Moraes a presunção da inocência não é desrespeitada com a prisão após a segunda instância. Moraes afirma ainda que a prisão apenas após o trânsito em julgado seria a jabuticaba brasileira. Penso que a jabuticaba brasileira é ter Ministros do STF que interpretam de forma obtusa a Constituição Federal para ficar bem com a Mídia de Massa ou com a parcela da sociedade com a qual se identifica. A Constituição Federal foi redigida para garantir direitos (negados durante a sanguinária ditadura militar) com o objetivo que o Estado sob o pretexto de combater o crime não se tornasse criminoso. Além disso, a presunção da inocência é uma cláusula pétrea dos Estados Democráticos de Direito e sua relativização é própria de regimes ditatoriais. É importante lembrar que nas ditaduras modernas não são os militares os agentes implantadores do Estado de Exceção, mas, o consórcio formado pela Grande Mídia que segundo Noam Chomsky molda a opinião pública e o Judiciário, que por meio do decisionismo pratica malabarismos jurídicos no afã de passar a falsa impressão de normalidade do funcionamento das instituições quando trabalha relativizando direitos e dando novas interpretações a estes em favor do regime neoliberal que na sua sanha acumulativa sequestrou para si o Estado. E que presunção da inocência é essa se primeiro a pessoa vai presa antes de vencidas todas as possibilidades de recorrer? Seria algo como: eu não sei por que estou te batendo, mas, você sabe por que está apanhando! Várias são as jabuticabas produzidas pelo STF e falar acerca de todas resultaria um artigo gigantesco, então encerro aqui e sugiro a leitura do livro “Estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis” do Juiz de Direito Rubens R. R. Casara para entender o momento autocrático que passamos.
Fontes:
Constituição Federal da República Federativa do Brasil (1988). Artigo 5º, Inciso LVII.

Art. 283 do Código de Processo Penal - Decreto Lei 3689/41- disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10655791/artigo-283-do-decreto-lei-n-3689-de-03-de-outubro-de-1941 - acesso em 08 de Abril de 2018.


Estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Rubens R.R. Casara editora Civilização Brasileira, 2017.
A prisão perpétua de Dirceu e a luta de classes. Disponível em: https://www.brasil247.com/pt/colunistas/arturvoltolini/233126/A-pris%C3%A3o-perp%C3%A9tua-de-Dirceu-e-a-luta-de-classes.htm – Acesso em 08 de Abril de 2018.
Fala atribuída à Ministra Rosa Weber na votação do Habeas Corpus de Lula é falsa. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/eissomesmo/post/fala-atribuida-rosa-weber-em-votacao-do-hc-de-lula-e-falsa-entenda.html - Acesso em 08 de Abril de 2018.
Veja a repercussão de juristas sobre o julgamento do habeas corpus preventivo de Lula. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/veja-a-repercussao-de-juristas-sobre-o-julgamento-do-habeas-corpus-preventivo-de-lula.ghtml - Acesso em 08 de Abril de 2018.
Moraes diz que a prisão em segunda instância ajudou no combate à corrupção. Disponível em:  http://www.valor.com.br/politica/5430565/moraes-diz-que-prisao-na-2-instancia-ajudou-no-combate-corrupcao - Acesso em 08 de Abril de 2018.
           


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Hoje o papo é sobre mulher!



            A julgar pelas vendas referentes ao dia oito de março se poderia pensar que vai tudo bem nas relações entre homens e mulheres, mas, esta não é a realidade. Cada mulher é também uma guerreira e sobrevivente na cultura machista e patriarcal que coloca o país como a sétima nação mais violenta contra as mulheres (dados da OMS). São 4.473 homicídios dolosos, com a média de doze mulheres assassinadas diariamente no país. Desses homicídios, 946 são tipificados como feminicídios (quando o assassinato ocorre em crimes relacionados à sua condição de gênero e não como decorrência de um latrocínio, por exemplo). Em 2017, houve um acréscimo de 6,5% nos índices de assassinatos de mulheres se comparado com 2016, e parte dos estados brasileiros ainda não informa os casos caracterizados como feminicídios. O estado do Mato Grosso é o de maior índice de feminicídios. O Paraná é o estado com maior índice da região Sul e se encontra na terceira posição nacional no ranking de violência contra as mulheres. A lei prevê penas mais severas para os casos de feminicídios, e que são os que “envolvem violência doméstica e familiar e/ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher”, tidos como crimes hediondos (tal qual o latrocínio, o estupro e o genocídio) com a atribuição de penas que variam de doze a trinta anos, e que podem ser acrescidas em 1/3 conforme os agravantes verificados (assassinato de gestantes; de menores de quatorze anos ou maiores de sessenta anos; de mulheres com deficiências ou na presença de familiares ascendentes ou descendentes da vítima).
A Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2017) aponta que 29% das entrevistadas já sofreram algum tipo de violência no último ano. Os tipos de violência relatados são: 67% agressão física; 47% violência psicológica; 36% violência moral; 15% violência sexual. A percepção dos brasileiros quanto ao aumento da violência contra a mulher é de 73%; de 76% entre as mulheres entrevistadas e chega a 79% quando se considera apenas as vítimas de violência no último ano (dados do FBSP, 2017). A violência sexual passou de 5% em 2011 para 15% em 2017. O índice de mulheres que conhecem outra mulher que já sofreu violência doméstica ou familiar praticada por um homem passou de 56% em 2015 para 71% em 2017. No entanto, sabe-se que muitas mulheres não denunciam seus companheiros agressores e evitam falar no assunto, e esse é um grave erro, pois, após várias agressões domésticas é que o feminicídio costuma ocorrer. O feminicida costuma agir como se a mulher fosse objeto de sua propriedade não concedendo a esta a dignidade e a igualdade a que faz jus. Muitas mulheres não denunciam ou cortam o vínculo com seus parceiros pela dependência econômica ou afetiva e principalmente quando da existência de filhos do casal. Muitas também acreditam que possam mudar o caráter de seu companheiro e insistem numa relação potencialmente perigosa. Mesmo quando cortam o vínculo, muitas vezes o Estado não consegue garantir segurança às mulheres ameaçadas. É grande o número de mulheres assassinadas por cônjuges ou namorados que não aceitaram o fim do relacionamento. A violência contra a mulher precisa acabar, afinal, por ela nascemos e para ela vivemos. E concluo dizendo: “Não dê flores, bombons, perfumes, jóias, etc. no dia das mulheres. O melhor presente que você pode dar a elas é o seu engajamento diário pelo fim da violência contra as mulheres e na defesa da igualdade entre os sexos, afinal, se você não for filho de chocadeira, você nasceu de uma; pode ter irmã, esposa, filha ou neta. É uma questão de ter bom caráter ou não”!

P.S. O título deselegante foi para atrair a atenção de quem realmente precisa ler esse artigo!

Fontes:
  1. Feminicídio: a faceta final do machismo no Brasil. Disponível em: http://www.politize.com.br/feminicidio/ - acesso em 03 de abril de 2018.
  2. Cresce o n.º de mulheres vítimas de homicídio no Brasil; dados de homicídio são subnotificados. https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/cresce-n-de-mulheres-vitimas-de-homicidio-no-brasil-dados-de-feminicidio-sao-subnotificados.ghtml - acesso em 03 de abril de 2018.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Os cães ladram e a caravana passa



            O sábio adágio árabe que intitula estas linhas que ora escrevo afirma que apesar dos cães ladrarem, a caravana segue seu rumo, imperturbável, porque uma caravana é feita de sonhos e os cães são os obstáculos impostos aos que ousam sonhar. 
             Os cães, ou seriam, as cadelas do fascismo sempre no cio, no dizer de Bertolt Brecht, ganharam um impulso enorme quando Aécio Neves e o seu partido (PSDB) ao perder as eleições de 2014, não souberam respeitar o jogo democrático e jogaram o país numa fogueira e como não faltam fascistas, estes servem de “combustível fóssil” para aumentar ainda mais o fogo que transforma em ruínas a democracia de baixa intensidade do nosso país.
        A Grande Mídia tem grande culpa na fabricação desse clima de ódio hoje reinante, pois, desinforma, omite e manipula e dessa forma joga fermento na massa do fascismo que toma as ruas de nossas cidades. De 2014 para cá, principalmente após a tomada do poder pelos golpistas Temer (MDB) e seus asseclas do PSDB, DEM e partidos nanicos (grandes apenas no ódio que fomentam) houve uma escalada de violência e pessoas ligadas aos movimentos sociais têm tombado mortas.
            Ao passar pela região Sul, a caravana de Lula tem deixado ensandecidas as cadelas do fascismo que reagem de forma criminosa atacando-a. Os fascistas, a quem chamei de “combustíveis fósseis” são pessoas que incendeiam os locais por onde passam e cujo caráter ficou fossilizado num longo processo de milhares ou milhões de anos, e, portanto não evoluiu. Não são abertos ao diálogo, pois odeiam o discurso divergente. Não lêem, não fazem a reflexão, são pessoas cujos cérebros fossilizados pela preguiça intelectual não lhes permite mais que repetir velhas bobagens, tais como: “direitos humanos para humanos direitos” e mitificar certo deputado federal cujo desempenho no trabalho legislativo a vários mandatos é pífio. 
            A atração que Bolsonaro causa em seus fãs deve-se ao seu discurso de ódio, nele a inteligência argumentativa é supérflua. Penso que Bolsonaro sabe que não tem chances de ser presidente, mas, vai negociar seu apoio ao candidato da direita que for ao segundo turno. 
         Bolsonaro instruído por assessores competentes fará eficientes falas decoradas no horário eleitoral gratuito. O problema reside quando precisa falar de improviso como em entrevistas ou futuros debates (aos quais certamente faltará por compromissos da agenda), aí só Jesus na causa, porém, não há como apoiar Bolsonaro e ser também cristão, pois, Jesus foi torturado e morto e Bolsonaro defende a tortura e os torturadores como fez ao homenagear o Coronel Ustra (torturador de Dilma) quando de seu voto no golpe travestido de impeachment de Dilma. Um ato vil contra a democracia e os Direitos Humanos, um desrespeito ultrajante com os familiares das vítimas e com a própria sociedade formada por pessoas civilizadas. Bolsonaro chegou a dizer: “quem procura ossos enterrados é cachorro” (ao se referir à Comissão da Verdade e às famílias que desejam saber que fim teve seus familiares e se possível enterrar seus restos mortais de forma digna).
            No Governo Lula, Laranjeiras do Sul foi contemplada com um campus da UFFS. Um campus universitário é sempre um fator de geração de desenvolvimento e muitos empresários locais reconhecem isso. Qualquer pessoa honesta sabe que a possibilidade de um governo de direita trazer tal campus para esta região que possui o segundo pior IDH do Paraná seria de uma probabilidade inferior a acertar sozinho na mega-sena. No entanto, alguns vereadores resolveram criar e tentar aprovar uma fascista moção de repúdio à vinda de Lula à Laranjeiras do Sul para visitar a Universidade que criou.
            Tais vereadores demonstraram com este ato não estar à altura do cargo que ocupam por não ter o equilíbrio, a inteligência e a consciência democrática necessária para bem representar a sociedade como um todo. Parabenizo os vereadores, cuja maioria, não deixou que essa Casa do Povo fosse enxovalhada ao avalizar atitudes birrentas de vereadores (que cegos pela paixão partidária) não condizem com o espírito democrático e com a tradicional hospitalidade do povo laranjeirense.
Enquanto os cães ladram, a caravana passa!


sexta-feira, 23 de março de 2018

Em tempos de pós-verdade


            Raul Seixas foi um fenômeno do rock nacional, tanto que muitos jovens nascidos após sua morte apreciam suas músicas, muitas feitas em sentido figurado para passar pelo crivo do nem sempre inteligente censor para assim poder ser gravada e passar seu recado às ruas. Em Cowboy fora-da-lei, no entanto, ele foi direto, pois a democracia havia sido restabelecida após 21 anos de ditadura. Na letra o cantor e compositor afirma [...] eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz! E este é o drama da sociedade que vivemos em que os grandes grupos de comunicação televisiva e escrita culpam a Internet pela disseminação de notícias falsas, no que estão parcialmente corretos. Pois, considerar que apenas com o advento da Internet, as notícias falsas começaram a atrapalhar a vida de quem busca informação de qualidade é uma mentira ainda maior, basta lembrar as campanhas eleitorais passadas em que candidatos lançaram mão de boatos como verdadeiras bombas atômicas para anular seu adversário sem que este tivesse tempo hábil para desmentir ou acionar a justiça eleitoral tendo em vista ser véspera da eleição. O ex-ceo da Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (o Boni) admitiu que a Globo trabalhou ativamente para eleger Collor. Conta que manipulou o último debate entre Collor e Lula ocorrido durante a madrugada e levado ao ar no dia seguinte editando os melhores momentos de Collor e os piores momentos de Lula. Nesta eleição, o último programa de Collor na antevéspera da eleição lançou mão de um boato acerca de Lurian (filha de Lula). E Collor ganhou a eleição que muitos já apontavam a vitória de Lula.
            O saudoso Umberto Eco afirmou: “a Internet deu voz a uma legião de imbecis”, mas, acreditar que a mídia tradicional é imparcial, incolor, insípida, inodora, portanto desprovida dos interesses da classe dominante que ao fim e ao cabo representa, inclusive por dela fazer parte, é ser mais imbecil ainda. O intelectual estadunidense Noam Chomsky que possui várias dezenas de livros publicados e inúmeros prêmios internacionais, afirma com exatidão “o papel da mídia não é informar o que acontece, mas moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder corporativo dominante”. A palavra “pós-verdade” surgida em 1992 tem em 2016 seu boom. Passa a ser citada em artigos e palestras de pesquisadores renomados, bem como se torna tema de livros. A expressão pós-verdade não se refere à mentira em si, mas, a ilações que obscurecem a verdade tornando-a desimportante ou indiferente. “Não importa o que seja a verdade, opinião por opinião eu tenho a minha ou escolho aquela que mais me agrada”. Não há a busca, a leitura, a investigação reflexiva. O sujeito vai à prateleira do “supermercado midiático” e escolhe o produto que mais lhe agrada sem analisar se aquele produto é falso ou original, se cumpre o que promete, ou vai lhe fazer ter vergonha de um dia tê-lo comprado mesmo que num mea culpa solitário e que a sociedade jamais vai saber tê-lo feito, pois, caráter segundo alguns é nunca reconhecer o erro, mesmo que isso se torne evidente. Embora a pós-verdade seja utilizada também pela esquerda, é na direita o campo fértil da boataria, da indiferença à realidade dos fatos, até porque o público da direita não é muito afeito à leitura, à reflexão. Os boatos envolvendo o filho de Lula que seria o dono da JBS-Friboi, da Havan, etc. estão aí para comprovar e muitos acreditam, não por serem ingênuos, mas, de má-fé mesmo, lhes faz bem pensar maldosamente e propagar a maldade. São almas tortas e de suas bocas sai apenas o ódio, a maldade.
            Em momento oportuno, o livro “Ética e Pós-verdade” que conta com artigos de Christian Dunker, Cristovão Tezza, Julián Fuks, Marcia Tiburi e Vladimir Safatle lançado em 2017 pela editora Dublinense aprofunda a discussão sobre a pós-verdade e temas conexos. Trata-se de uma obra essencial para entender a sociedade pós-moderna, principalmente para pessoas como eu, que possuem as raízes firmemente plantadas no século XX e em tudo o que ele representou e representa na ordem atual do mundo. Li e recomendo!

Sugestão de boa leitura:
Ética e pós-verdade. Christian Dunker [et all], Ed. Dublinense, 2017.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O país da desfaçatez




            Não é tarefa fácil escrever acerca destes “tristes trópicos” como foi batizado nosso país por Claude Lévi-Strauss, especialmente nestes tempos turbulentos que vivemos. Nos idos de 1970, o General Presidente Emílio Garrastazu Médici (cujo governo foi marcado pela massiva violação aos direitos humanos), acerca do Jornal Nacional da TV Globo disse: “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”. E enquanto a Rede Globo aperfeiçoou suas habilidades em omitir e manipular as notícias desinformando a população e assim prestando um desserviço à nação e à democracia apesar de sua concessão ser pública, há cidadãos que se prestam ao papel de analfabetos políticos, parte de forma ingênua, parte por gostar de viver numa bolha incolor, inodora e insípida de ilusão televisiva. Costumo dizer aos meus educandos que ao ligar a TV é obrigatório ligar também o cérebro e isso não é diferente com relação a qualquer mídia.
            No país da desfaçatez, grande parte da imprensa age como um partido político e redobra seus esforços na manutenção da hegemonia do discurso da Casa Grande, e seus esforços têm sido profícuos. Temos em nosso país uma grande quantidade de trabalhadores assalariados que votam de acordo com os interesses das oligarquias que representam o regime plutocrata e corruptocrata em que vivemos, o qual, obviamente governa e legisla em prejuízo aos interesses imediatos e futuros da parcela de trabalhadores. Na Europa, a classe média tem ojeriza à alta burguesia, pois são cônscios de que a ganância acumulativa destes vai à contramão do desenvolvimento econômico e social, e assim sendo se unem às classes mais populares nas eleições e nas manifestações. No Brasil, a classe alta terceiriza o ódio, e é a classe média que faz manifestações ruidosas para defender os interesses daqueles cujos privilégios jamais compartilharão e que nunca lhes convidarão a sentar-se à suas mesas. Os pobres de direita (classe média) não se sentem injustiçados por isso, o que lhes apavora é ver pobre em aeroporto, utilizando perfume importado, adquirindo automóveis e “atravancando” as vias públicas, e o horror do horror, pobre se recusando a trabalhar por salário mínimo.
 Durante os governos Lula e Dilma ficou evidente quão estúpida e fascista é a nossa elite. Ela não convive bem com a democracia, tanto que operou o seu fim com o golpe de 2016 a guisa de 1964. A classe média novamente apoiou. E isso é algo surreal para os cidadãos esclarecidos dos países desenvolvidos, mas, aqui considerado normal desde Nelson Rodrigues que já havia tipificado como um comportamento vira-latas de parcela dos brasileiros.  Os pobres de direita se mantêm calados com a destruição do incipiente projeto de país soberano, herança de Vargas e Lula reduzido à ruínas por Temer (MDB) e asseclas do PSDB/DEM com a clara intenção de posicionar o Brasil na condição de colônia fornecedora de matérias-primas e produtos agrícolas e mão de obra semi-escrava em atendimento aos interesses do grande capital internacional. O saudoso Darcy Ribeiro, que merecia ter sido presidente do Brasil, embora, o Brasil nunca mereceu ter Darcy Ribeiro como presidente, certa vez afirmou: "O Brasil tem uma classe dominante ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa, que não deixa o país ir pra frente!".  Talvez alguns dos leitores pensem que as palavras que digo são mágoas de perdedor, e como resposta deixo outra frase de Darcy Ribeiro: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”!

quinta-feira, 8 de março de 2018

Pedro Celestino: "Sem Embraer, acaba emprego, acaba tudo"


Pedro Celestino: "Sem Embraer, acaba emprego, acaba tudo"
Por Eleonora Lucena e Rodolfo Lucena

Se a Embraer for vendida para a Boeing, “acaba a indústria, vai embora emprego, vai embora tudo”. O alerta é de Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia. Para ele, a proposta de venda da empresa brasileira aos norte-americanos demonstra mais uma vez que o governo Temer quer “destruir o que se construiu neste país nos últimos 80 anos”.
Na sua visão, essa sanha destruidora ocorre porque “o governo Temer foi capturado pelo mercado financeiro”. Ele pergunta: “Cadê a indústria, cadê a agricultura, cadê o comércio que não reagem à destruição? O que me faz pensar que o umbigo deles já tenha passado para Miami. Eles não terão condição de produzir com tudo na mão de estrangeiros”, afirma. Outro motivo para a falta de reação é a ausência de debate dessas questões na sociedade: “O mundo inteiro hoje assiste ao que eu chamo de goebbelização da mídia. Se nós formos a qualquer lugar do planeta, o que a mídia publica é a mesma versão dos fatos, a mesma versão”, assinala. De acordo com ele, há um “monopólio da mídia capturada pelo capital financeiro internacional”, que não abre espaço para discussão dos assuntos econômicos. “É esse monopólio da desinformação que dificulta a formação de consciências que resistam a esse processo de alienação”. Celestino afirma essa questão passou a ser muito presente no Brasil em razão da transformação do país em protagonista. “Essa crise decorre não das nossas debilidades, mas do que nós conseguimos fazer”. Ele lembra do salto que o país deu nos últimos 80 anos, deixando de ser um mero exportador de café e se tornando uma economia industrial complexa. Foi a partir dos anos 1930, com Getúlio Vargas, que o país se transformou, com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, a Petrobras, a Eletrobrás, o BNDES.
Nessa trajetória, diz, “o Brasil enfrentou muitos interesses contrariados. A visão contrária aos interesses nacionais esteve presente na crise que levou ao suicídio de Getúlio, na instalação do regime militar em 64”. Na década de 1960, o país era a 56ª economia mundial; hoje é uma das 10 maiores. Naquela época, o café representava 70% das receitas cambiais; hoje significa 2% – e o país segue liderando o mercado. “Esse processo tem um corte a partir da ascensão de Temer ao poder. É uma ruptura com o que se fez no Brasil dos anos 30 até agora. É uma ruptura traumática e dramática. Porque está destruindo todas as conquistas da nossa sociedade, do ponto de vista econômico, social, ao longo de oito décadas. O Brasil está em processo de destruição de seu sistema econômico, nos tornando mais uma vez dependentes da importação de produtos industrializados e exportadores de produtos primários”, declara. Essa destruição atinge a Petrobras, o BNDES, a Eletrobrás, a Embraer – todos os ícones do desenvolvimento brasileiro construídos por oito décadas graças à atuação forte do Estado. “A Petrobras está sendo esfolhada como se fosse uma alcachofra”, resume Celestino. Ele ressalta que a estatal é a âncora do desenvolvimento industrial brasileiro, responsável por uma cadeia de mais de cinco mil empresas nacionais e estrangeiras, 800 mil empregos especializados. Para ele, caso a esfolhação continue, dentro de três anos, no máximo, a Petrobras será apenas uma pequena produtora de petróleo.
O caso da Eletrobras também é dramático. O engenheiro lembra-se da construção do inovador sistema hidrelétrico no país. Único no mundo, ao interligar amplas regiões e administrar regimes hídricos diferentes, proporcionou um modelo seguro de energia barata, o que é vital para o desenvolvimento industrial, entre tantos outros benefícios à população. “Hoje, temos uma das maiores tarifas de energia elétrica no mundo. E o governo pensa em privatizar a Eletrobrás, que é responsável pela integração de todas as nossas bacias hidrográficas, tirando partido de nossa dimensão continental. Hoje está sendo proposto destruir, privatizar, para que passemos a consumir energia como se fosse mercadoria qualquer. Essa visão satânica de querer privatizar tudo chega à água”. Celestino afirma que a decisão de Temer vai à contramão da tendência mundial. “Todas as experiências de décadas de privatização de serviços de abastecimento estão sendo revertidas. Porque os grandes grupos que se apossam não têm compromisso com tarifa módica, com a universalização do serviço e com qualidade”. O presidente do Clube de engenharia coloca o debate sobre a venda da Embraer para a Boeing na mesma quadra de destruição promovido por Temer. Enfatiza a base tecnológica da empresa sediada em São José dos Campos: dos seus 18 mil funcionários, 7 mil são engenheiros. E recorda seu crescimento em vários setores da aviação, “fruto da dedicação e idealismo de gerações de oficiais da aeronáutica”.
No contexto mundial de hoje, com a compra da divisão de aeronáutica da canadense Bombardier pela Airbus, “o adversário da Embraer passou a ser a Airbus. É David e Golias. A Embraer tem que buscar uma parceria com algum gigante para poder enfrentar a Airbus. Ou com a Boeing, ou com uma empresa russa ou com uma chinesa. EUA, Rússia e China são três países que tem mercado interno, e indústria aeronáutica forte”, declara. Celestino diz não ter “nada contra buscar entendimento com um gigante. O que não pode é ter participação acionária. Se tiver participação, o gigante come”. Ele lembra que a Dassault teve participação minoritária na Embraer (20%), o que foi suficiente para impedir que a companhia brasileira se desenvolvesse na área de aviação executiva. “Não pode ser sócio, mas pode ser parceiro”, diz Celestino. Para ele, sem mexer na composição acionária, a Embraer poderia discutir acordos de parceria com a Boeing que seriam vantajosos para as duas companhias. Por exemplo, ele sugere acordos de comercialização de aviões da Embraer pela Boeing, de utilização de bases de manutenção  etc. “Se tiver um governo sério, vai conduzir negociação dessa maneira. E a Boeing vai topar, porque ela não tem outro jeito. Ou ela vai levar 10 anos para substituir o Hércules”. A Embraer já desenvolveu o KC-390 para entrar nesse mercado de transporte militar.
Celestino enfatiza que mesmo com parcerias, que seriam bem-vindas, é necessário manter como está a estrutura da Embraer. “A área militar só sobrevive com os ganhos da área civil; se separar, mata”. Ele advoga que o BNDES tenha uma política para financiar jatos para o mercado interno. E informa que no entorno da Embraer existem outras 100 empresas de base tecnológica. A defesa que Celestino faz do setor industrial não implica crítica à agropecuária. “Não tenho nada contra o Brasil ser o celeiro do mundo”, diz. Para ele, o essencial é que “a comercialização seja controlada por nós”. Na sua análise, o grande objetivo em afetar a JBS era justamente atingir “o único setor do agronegócio em que a formação de preços era feita no Brasil”, pois ela controlava os mercados brasileiro, argentino, australiano, norte-americano.“Tinha que se quebrar essa estrutura, para que nosso produtor de carne passasse a depender da Bolsa de Chicago. No dia em que Brasil e Argentina decidirem comandar a política de formação de preços da soja e do milho, muda a relação de poder no mundo”.
O presidente do Clube de Engenharia lamenta, nesta entrevista ao TUTAMÉIA, a falta que fazem grandes industriais do passado, como Roberto Simonsen, José Mindlin, Antônio Ermírio de Moraes. Einar Kok. “Eram expoentes do interesse nacional, pensavam o país, iam além do seu faturamento. Hoje esse empresariado se encontra acuado”, declara.Celestino salienta também a importância vital do BNDES para o desenvolvimento do país nessas oito décadas. Agora, sem falar em privatização, o governo Temer esvazia o papel do banco público. “Estão liquidando com o BNDES. Não é privatizar o BNDES. É deixar definhar”, aponta.Com a toda essa destruição atingindo os pilares da economia brasileira, Celestino teme pelo pior:“Estamos quebrando as cadeias produtivas, o que faz de nosso pais novamente uma colônia. Uma nação com mais de 200 milhões de pessoas não sobrevive se não tiver um projeto de desenvolvimento. Que é o que assegura a paz social. Sem um projeto de desenvolvimento, explode o pais. Tenho medo de nós nos mantermos como país sem um projeto de desenvolvimento. A Nigéria é um barril de pólvora, explodiu. Não há polícia, Exército que dê conta da revolta popular. Nós corremos o risco decorrente de não haver no país uma proposta de desenvolvimento. O caminho é eleição, buscar apoiar candidatos que tenham compromisso com o desenvolvimento. É o que assegura a paz social”.
 
Fonte: Tutaméia – disponível em http://tutameia.jor.br/sem-embraer-acaba-emprego-acaba-tudo-diz-celestino/ - acesso em 06 de março de 2018.


domingo, 4 de março de 2018

Ler e pensar é só começar!


Resultado de imagem para vamos pensar um pouco


            Um momento constrangedor para mim é quando uma pessoa pede um livro emprestado. Tenho grande ciúme de meus livros. Já emprestei livros que nunca recebi de volta, e, outros me foram devolvidos com manchas de café, amassados e com “orelhas de burro”. Como tenho consciência da importância do livro no aperfeiçoamento do ser humano, tornei-me um leitor voraz. Tenho uma leitura eclética: história, geopolítica, sociologia, filosofia, geografia, economia, política, psicologia, psiquiatria, biologia, literatura, etc. Tenho dois filhos e professor que sou, há muito observo que apesar dos esforços dos (as) professores (as) em estimular o apego à leitura, as chances de sucesso se tornam ainda maiores quando há incentivo dos pais. Sempre que compro livros, e devido a pouca oferta de títulos em minha cidade, geralmente o faço por sites da Internet, adquiro também livros para meus filhos. Recentemente adquiri um livro para minha filha de sete anos, o qual minha esposa que habitualmente lê histórias para ela no momento de dormir contou-me o quanto o livro era bom, mas, com a ressalva de que precisava do acompanhamento de um adulto para explicar à criança as lições de forma que esta as compreendesse. Logo pensei em emprestar o livro de minha filha, e, após as minhas reflexões acerca do mesmo, indicá-lo para os pais e mães que se preocupam com que seus filhos e filhas adquiram o hábito da boa leitura. Minha surpresa foi quando ela me disse “Não! eu tenho ciúmes de meus livros. Eu puxei você”. Não pude ficar irritado, apenas ri! E após uma longa conversa, com a intermediação da mãe, e um tempo para pensar de dois dias, ela enfim concordou desde que devolvesse o livro até o fim da tarde daquele domingo.
            A obra possui ilustrações da Turma da Mônica e é uma parceria entre o famoso professor e palestrista Mario Sergio Cortella e o desenhista Mauricio de Sousa. As lições são curtas, uma página e acompanhadas de ilustrações pertinentes. Grandes pensadores são citados nas lições destinadas às crianças e não se trata de textos maçantes, mas, alguns aforismos discutidos e direcionados a estimular o ato da reflexão entre os/as pensadores (as) mirins. Logo de início o autor mostra que a palavra “um” faz toda diferença entre pensar pouco e pensar um pouco. E que é sinal de grande sabedoria buscar o conhecimento mesmo sabendo que jamais se saberá tudo. Afirma também que mudar de opinião é algo razoável e não denota com isso submissividade. Cortella diz: “há quatro espécies de pessoas: as que sabem que sabem, são sábias e podes consultá-las; as que sabem e não sabem que sabem, faze as se lembrarem e ajuda-as a não esquecerem; as que não sabem que não sabem, ensina-as; e as que não sabem e proclamam que sabem, evita-as”! Mario Sergio ensina que as pessoas não devem ter medo de livro grande, pois, desde que não tratemos como tarefa, muitas páginas podem significar mais tempo de prazer na leitura. Numa das lições o autor cita um professor de filosofia numa escola dos Estados Unidos que solicitou aos educandos que fizessem uma redação de forma a retratar verdadeiramente a coragem. Uma menina, um minuto depois de começada a avaliação entregou-a ao professor e nela estava escrito somente: “coragem é isto”! O professor foi obrigado a reconhecer que ela havia retratado muito bem a coragem, ao correr tão grande risco e deu-lhe a nota máxima!
            Cortella também evidencia a sabedoria estradeira quando cita uma frase de pára-choque de caminhão: “na subida “cê” aperta, na descida “nóis” acerta” e discorre sobre a humildade na fase de status elevado da pessoa, pois, a vida tem altos e baixos. Explica também que a origem do termo “puxa-saco” deve-se ao marinheiro encarregado de carregar o saco de roupas do comandante do navio e que o termo bajular vem de “bajulus” que era o carregador de objetos e de pessoas na época do imperador romano Otávio Augusto”. Enfim, é impossível escrever neste limitado espaço, a variedade e a profundidade das lições retratadas de forma leve na obra. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:
Vamos pensar um pouco? Mauricio de Sousa & Mario Sergio Cortella. Ed.Cortez, 2017.