José de Alencar (1829-1877) foi um romancista,
dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário
e defensor do sistema escravocrata, na política, ficou reconhecido por sua atuação parlamentar na
defesa de valores conservadores, patriarcais, mas, também pátrios. A maturidade
que adquiri ao longo da vida, me permite separar José de Alencar, o homem
(fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra
deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor
de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do
Romantismo Brasileiro, dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e
morte, paixão e ódio, mas também muito talento.
Em Lucíola, livro epistolar publicado em 1862, Paulo,
o narrador, escreve a uma amiga contando sua vida após deixar Recife (PE), onde
se formara, e sua chegada à Corte (Rio de Janeiro), onde é recebido por alguns
amigos. Paulo se estabelece na capital da então jovem nação brasileira com a
intenção de encontrar um bom emprego. Na chegada, fica extasiado ao ver uma
jovem lindíssima e, ao vê-la passar a cumprimenta com todo o respeito dedicado
a uma dama. Paulo e Lúcia (este é o seu nome) se apaixonam. Ao querer saber
mais sobre a moça, seus amigos rindo, lhe desencantam, ao afirmar que todos
eles "conhecem" Lúcia, a qual era uma cortesã (meretriz de luxo).
Lúcia, com apenas 20 anos, levava uma vida
confortável graças aos altos preços exigidos por seus préstimos derivados da
necessidade que a vida lhe impôs e do desejo de independência que buscava. Tinha
uma boa casa, funcionárias, dinheiro para adquirir artigos de valor em lojas de
luxo, porém, sabia ser discreta, vestia-se bem, mas de forma sóbria. Ela, como
as demais cortesãs, apesar de muito requisitada em eventos e festas, era
estigmatizada na sociedade, mas tinha a liberdade que faltava às madames
reclusas na Casa Grande. Paulo, ante a inadmissibilidade moral de tê-la como companheira
de uma vida, para a qual, em seu
julgamento, ela não mais servia, decide que uma aventura passageira com tão
linda moça, não era algo a se desperdiçar.
Paulo encontra Lúcia e vai direto ao assunto e lhe
pergunta seu preço. A moça se entristece, Paulo já sabe, lamenta isso e, lhe
atende. Apesar de Lúcia ter como princípio não se envolver, o casal se encontra
seguidamente. Paulo vê em Lúcia uma pureza que sua vida pregressa não condiz
nem sustenta, e luta consigo mesmo entre a idealização e a razão. Lúcia se
orgulha de não precisar que nenhum homem lhe sustente e, humilha Paulo, por sua
pobreza, mas se cobra fortemente por exercer
a atividade que lhe rende seu dinheiro, apesar disso, mantém sua dignidade.
A obra de José de Alencar escancara a hipocrisia da
alta sociedade da capital brasileira, na qual, as mulheres ficavam trancafiadas
dentro de suas casas enquanto seus maridos, muitos deles, fazendeiros e/ou
políticos importantes dados a prática de belíssimos discursos em defesa da
família e dos bons costumes, caíam em contradição participando de reuniões nem
tão públicas, assim.
Encerro essa resenha, com a certeza de que mais
importante do que as linhas que escrevi, são aquelas que omiti, afinal, a
intencionalidade de uma resenha não é a de saciar a curiosidade literária, mas,
de estimular o apetite pela leitura. Fica a dica!
Sugestão
de boa leitura:
Título: Lucíola.
Autor:
José de Alencar.
Editora: Principis,
2020, 176 p.
