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domingo, 7 de março de 2021

Silêncio

 


           


A sociedade em que vivemos (em pleno terceiro milênio) é maniqueísta. Não há outros matizes que o branco e o preto, o capitalismo e o comunismo, o bem e o mal, enfim,  a sociedade está dividida em "nós x eles" e, como se sabe, o discurso maniqueísta é inconciliável. Esse discurso é tudo, menos ingênuo, a partir de quem estimula sua propagação. Em tudo há ideologia, principalmente no discurso de quem a nega ou defende a neutralidade (impossível) do discurso. A neutralidade do discurso é conservadora, pois, se não contribui para a mudança, auxilia na conservação do status quo. O discurso, portanto, não é realizado apenas no tom preto ou branco, entre eles há vários tons de cinza, alguns mais escuros (tendendo para o preto), outros mais claros (tendendo para o branco). Se esses diferentes tons de cinza trazem riqueza de opções, trazem também a dificuldade de sua classificação. Há que se cuidar as luzes, o ângulo e o distanciamento necessário, ou seja, é necessário refletir, pois, a resposta não se encontra na superfície. Uma mente cega nada vê, além do que é superficial. Li certa vez a seguinte frase: "somente os tolos acreditam que política e religião não se discute. Por isso, os ladrões continuam no poder e os falsos profetas continuam a pregar" (Charles Spurgeon - 1834-1892).

            A crença ou não em um ser superior (Deus) não define o caráter de uma pessoa, assim como cultivar a espiritualidade, ter uma religião não faz da pessoa um ser alienado. Digo, porque tenho amigos ateus que se sentem ofendidos com o discurso discriminatório e pejorativo de muitos crentes aos não crentes. Da mesma forma, já me senti depreciado, quando em diálogos, meus interlocutores, afirmando que por eu ser uma pessoa "culta" estavam surpresos quando lhes disse gostar de cultivar minha espiritualidade e de que seguia uma religião. Novamente, o maniqueísmo, afinal, pensam, se você é "culto", não pode crer em tradições alienantes. Quando a alienação está em não saber lidar racionalmente com os elementos culturais produzidos pela sociedade. Enfim, o maniqueísmo é típico de tempos autoritários. E tempos autoritários são uma constante na história da humanidade.

            O escritor japonês Shusaku Endo (1923-1996), passou várias vezes por situações de discriminação ao longo de sua vida. Após o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) resolveu estudar no Ocidente. Asiático, sofreu com a xenofobia na França e, em seu país natal, o Japão, também sentiu a discriminação por ser cristão, uma minoria que mal chega a 2% da população. A obra Silêncio, publicada originalmente em 1966, é seu maior sucesso. Trata-se de um romance histórico, ou seja, apesar de basear-se em fatos reais possui elementos de ficção. Na obra, Endo discorre sobre a implantação do Cristianismo em solo japonês por missionários jesuítas que, inicialmente (Séc. XVI) foram bem recebidos e fizeram alianças com a elite local. O Japão era ainda feudal e desejava fazer comércio com as potências (Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra), por isso tolerava a religião estrangeira que ali se implantava. Com o passar do tempo, os samurais que comandavam o país, começaram a ver na religião cristã, um elemento perigoso para a manutenção da ordem vigente na sociedade. Era a época do Xogunato Tokugawa (1603-1868), uma ditadura militar feudal.

            Os samurais começaram a expulsar os padres e a oferecer recompensas por denúncias que levassem à captura de cristãos. Perseguidos, os cristãos japoneses passaram então a praticar a religião de forma oculta, tal como o faziam os primeiros cristãos nas catacumbas. Houve padres que se recusaram a deixar os cristãos japoneses sós e foram presos, torturados e mortos. Também o foram vários seguidores da religião cristã. A obra relata a viagem dos padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe que foram ao Japão em busca do Padre Cristóvão Ferreira, o qual fora professor espiritual de ambos, pois, corria a notícia que havia apostatado, ou seja, renegado a fé e que vivia tal qual um japonês naquele país. Trata-se de uma obra que discute a fé sem ser doutrinária e mostra um período histórico do Japão sem ser acadêmica, proporcionando maior prazer ao ler.  

P.S. A obra foi adaptada de forma bastante fiel para o cinema pelo diretor Martin Scorsese com o mesmo título.

Sugestão de boa leitura:

Título: Silêncio.

Autor: Shusaku Endo.

Editora: TusQuets, 2016, 270 p.

Preço: R$ 25,10

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