Henri
Alleg (1921-2013) foi um jornalista franco-argelino, diretor do jornal Alger
Républicain (1950-1955) e membro do Partido Comunista Francês. O jornal que
dirigia era a única voz opositora ao colonialismo francês na Argélia. Por
exigir liberdade de expressão para a imprensa argelina e principalmente por seu
engajamento na luta anticolonialista, o jornal foi extinto em 1955 pelas forças
de ocupação francesas. Estas passaram a prender jornalistas e membros do
partido comunista local. Na clandestinidade, Henri continuou a enviar artigos
para serem publicados na França, apesar de muitos serem censurados e jamais
publicados.
Em 1957, ao visitar a casa do professor de matemática
Maurice Audin, que era seu amigo e membro da resistência ao colonialismo, Alleg
caiu na armadilha preparada pela 10ª divisão militar de pára-quedistas
franceses que atuavam em solo argelino. Preso, sem que uma acusação formal
tivesse sido declarada contra ele e, sem ter sido apresentado e ouvido por um
juiz de instrução foi severamente torturado. É importante lembrar que, passada
a Segunda Guerra Mundial e, com a revelação pelo Exército Vermelho da então União
Soviética do horror dos campos de concentração nazistas que faziam parte da
indústria de extermínio da Alemanha e que vitimou milhões de judeus, ciganos,
sindicalistas, socialistas, comunistas, negros, deficientes físicos e
homossexuais, a humanidade (após a criação da ONU) imaginava que atos de
barbárie como estes seriam algo relegado aos livros de história, mas, a realidade
demonstra que as expectativas foram frustradas, pois, revelações posteriores surgiram,
dentre outras, as referentes ao período stalinista da URSS (1941-1953), a ditadura
militar brasileira (1964-1985), aos campos de concentração sérvios na Guerra da
Bósnia (1992-1995), e mais recentemente, acerca das prisões de Abu-Grhaib (Iraque)
e em Guantánamo (Cuba) ambas comandadas pelos EUA. Impossível não se lembrar do
livro “Eichmann em Jerusalém”, onde o oficial nazista levado a julgamento em
Israel declarava que apenas estava cumprindo ordens e se eximia de qualquer culpa
ou ressentimento por seus atos, ao que a intelectual Hannah Arendt cunhou a
expressão “a banalidade do mal”. Na obra, Alleg relata ter sido elogiado por
seus torturadores “por ser durão” e resistir a todas as técnicas e não revelar
seus companheiros da resistência nem mesmo sob o efeito de pentotal, uma droga
aplicada na veia e conhecida como “soro da verdade”. Infelizmente, ainda há quem defenda tais
práticas horrendas, bárbaras e incivilizadas, dentre estas pessoas há até
chefes de Estado. Alleg afirma ainda ser motivo de forte angústia e humilhação ouvir
os gritos de homens e mulheres torturados e, que os muçulmanos presos ao
verem-no sendo carregado após as sessões de tortura (solidariamente) diziam:
“coragem irmão”.
O
livro é um relato minucioso das torturas que sofreu, e foi publicado
originalmente em 1957, quando seu autor foi transferido para outra prisão, pois,
os militares se conscientizaram que ele “não tinha apreço a vida” e nada revelaria.
Neste momento, por meio de seu advogado, enviou secretamente seus relatos que
foram publicados como livro. A obra foi proibida na França, mas, o estrago
estava feito, a opinião pública informada pela imprensa passou a exigir sua
libertação, o que não ocorreu, porém, Alleg conseguiu fugir da prisão e se
exilou na então Tchecoslováquia. Anos mais tarde, uma lei de anistia foi
sancionada na França e lá ele estabeleceu residência. O professor Audin foi
morto pelos militares, recentemente o presidente Macron da França, pediu
desculpas oficiais à sua viúva. Henri Alleg afirmou que publicou o livro para
que a sociedade tomasse conhecimento e repudiasse tal prática bárbara,
incivilizada e desumana. Alleg (morreu aos 91 anos) não viu seus torturadores
serem punidos, pois, morreram antes dele, graduados e com honras militares,
mas, fez sua denúncia correr o mundo, inclusive na França. A leitura do livro não
é aconselhada para pessoas sensíveis, mas, necessária para refletir sobre a humanidade,
nem sempre humana!
Sugestão de boa leitura:
Título: A
tortura.
Autor:
Henri Alleg.
Editora:
Todavia, 2020, 80 p.
Preço:
R$31,91.