Os
profissionais da educação são sempre apontados como os culpados pelos
insucessos da educação brasileira, porém, a escola não é uma bolha separada da
sociedade, o seu entorno e suas mazelas sociais afetam os resultados escolares.
Reduzir as causas do insucesso dos estudantes unicamente ao trabalho dos
profissionais da educação é resultado de uma análise não apenas equivocada, mas
desonesta. Roberto Catelli (coordenador da área de educação de jovens e adultos
da Ação Educativa) citado pela Agência Brasil corrobora essa tese ao apontar
que "resultados melhores somente serão alcançados com políticas públicas
significativas no campo da educação e também na redução das desigualdades e na
melhoria das condições de vida da população".
Sabemos que os problemas estruturais
da educação brasileira e a desigualdade social constituem entraves nacionais a
impedir a melhora dos índices de analfabetismo funcional nas faixas etárias
mais jovens. No entanto, se engana o leitor que pensa isso ser problema da
educação pós ditadura militar (1964-1985), pois na faixa etária de 50 a 64
anos, o índice de analfabetismo funcional atinge 51% dos indivíduos e
historicamente o Brasil esteve sempre entre os dez piores colocados do planeta
no quesito.
O analfabetismo funcional é quase
tão grave quanto o analfabetismo absoluto, um analfabeto funcional é alguém que
não sabe interpretar o contexto que permeia a realidade vivida. É vítima fácil
das fake news, pois é incapaz de ler/interpretar as entrelinhas das informações
que recebe e, dessa forma, muitas vezes age contra seus próprios interesses,
sem disso ter consciência.
O educador e filósofo Paulo Freire
(1921-1997) afirmou que a alfabetização vai muito além da decodificação dos
códigos escritos, sobre isso, é mundialmente conhecida sua frase "Não
basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que
Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem
lucra com esse trabalho".
A Pedagogia Crítica desenvolvida por
Paulo Freire não somente era muito eficaz no combate ao analfabetismo
funcional, como também na formação da consciência crítica, algo considerado "perigoso
e subversivo". Por ousar ensinar o pobre a ler o livro da vida e a interpretar
as relações de trabalho nas quais estava inserido, foi preso e exilado durante
a ditadura militar (1964-1985) e ainda
hoje é odiado por ricos e também por pessoas não conscientes de sua própria
condição de classe social dado o seu analfabetismo funcional.
