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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 4 - o analfabetismo geopolítico.

 

                A Geopolítica é um ramo da ciência que aborda a relação entre a Geografia, acontecimentos históricos e políticos, com o objetivo de interpretar fenômenos globais. A ideia é entender como os humanos interagem com seu ambiente, considerando as relações de poder, para então compreender suas posições políticas e impactos das ações a nível global (CNN Brasil 08/02/2023). O objetivo é compreender o tabuleiro global das nações para melhor administrar o país, seu território e suas potencialidades, visando suprir suas necessidades ao inseri-lo da forma mais satisfatória possível nas relações internacionais.

            O analfabetismo geopolítico é a incapacidade de compreender as dinâmicas, conflitos e relações de poder no cenário internacional. O analfabetismo geopolítico decorre de uma carência em sua formação nas áreas de Geografia e História e isso, nem sempre é culpa do indivíduo, pois o estudo de História e Geografia foram sempre negligenciados por governos autocráticos e neoliberais. As ciências humanas formam seres críticos e pensantes, os quais são mais difíceis de serem dominados, por isso, as aulas de humanidades estão minguando nos currículos escolares. Não podemos excluir a culpa dos mestres, pois, tal como o geógrafo e geopolítico francês Yves Lacoste (1929) em sua obra "A Geografia, isso serve em primeiro lugar, para fazer a guerra" sentenciou que "os professores (mesmo inconscientemente) quase sempre apresentam a Geografia como um saber inútil, ao mascarar seu verdadeiro significado por meio de um discurso inócuo em classe, omitindo seu grande valor estratégico e de poder, seja para fazer a guerra ou para desenvolver uma nação".

            Se é facilmente verificável a condição de analfabetismo político quando constatamos que uma pessoa ou grupo de pessoas pede mais investimentos públicos em educação e saúde, mas apoia e vota em partidos e candidatos da extrema-direita que, historicamente e até por seus estatutos partidários e ideologias professadas defendem o Estado Mínimo e a consequente privatização dos serviços públicos que deixam de ser direitos sociais e passam a ser mercadorias remuneradas pelos seus consumidores. Da mesma forma, ou seja, por meio do discurso fica latente o analfabetismo geopolítico de parcela significativa da sociedade, pois sua análise geopolítica denota um maniqueísmo (a divisão em bem x mal / nós x eles), pois na Geopolítica, a análise superficial e apaixonada não tem lugar afinal, os países além de amizades, têm interesses.

            É verdade que as verdadeiras intenções das potências imperialistas agressoras sempre são ocultadas por um "verniz" moral. A colonização da África se fez com o "fardo do homem branco" onde a Europa alegava levar a civilização aos povos "atrasados" da África enquanto se apropriava de suas riquezas. Hoje, a China atua fortemente na África e, embora os africanos prefiram o modus operandi chinês, a reflexão sobre os interesses chineses no continente africano não pode ser analisada de forma superficial.

            Recentemente, os Estados Unidos da América ao invadir a Venezuela, um país soberano, afirmaram ter o objetivo de levar a democracia. Houve parcela significativa da sociedade brasileira que acreditou, sem refletir e questionar sobre seus verdadeiros objetivos, apesar de seu mandatário (Trump) falar abertamente sobre os grandes negócios que poderão fazer com o petróleo venezuelano. Não há um país no mundo que, tendo sido invadido pelos Estados Unidos da América, as condições de vida de sua população tenha melhorado em decorrência disso. Há muitos países que possuem governos autocratas, mas que não possuem recursos naturais cobiçados pela potência americana e que não fazem parte do rol de países para os quais desejam exportar a sua democracia. Repito: países têm interesses e não apenas amizades com outros países e isso vale para os Estados Unidos e vale para a China.

            O analfabetismo geopolítico leva as pessoas a terem uma visão rasa e ingênua da realidade em que estão inseridas e acarreta-lhes a falta de consciência de pertença à América Latina, ao Sul Global, portanto aos países subdesenvolvidos. Ao modelo educacional deficiente na oferta das humanidades, o trabalho inócuo de parcela significativa dos mestres da área, soma-se as informações parciais e manipuladas da mídia tradicional e a profusão de fake news além do fanatismo ideológico que causa uma cegueira à razão, o que dificulta o entendimento do complexo jogo de xadrez das nações.

             Concluímos que o analfabetismo geopolítico, a exemplo do analfabetismo político, é também consequência do analfabetismo funcional. A recente reforma do Ensino Médio foi pautada sob os interesses empresariais capitalistas visando mão de obra barata, eficiente e alienada, indo na contramão de uma formação integral para a vida em sociedade. Com o Novo Ensino Médio e, falando do chão que piso, o Estado do Paraná, teremos mais analfabetos políticos e geopolíticos, dada a carga insignificante das humanidades no novo currículo educacional revisado (2026). A reforma do Ensino Médio piorou o que anteriormente havia e terá que ser não apenas revista, mas totalmente reformulada no futuro.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 3 - o analfabetismo político.


        Há uma relação direta entre o analfabetismo funcional e o analfabetismo político. A dificuldade de interpretar textos e contextos é a mesma enfrentada por quem não lê o mundo como campo de disputa. Engana-se quem pensa que o analfabetismo político atinge apenas os mais pobres: ele cruza classes, níveis de instrução, credos e raças.
    Ao publicar “O analfabeto político”, o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) chamou atenção para um problema ainda atual. O debate continua necessário, porque suas consequências são coletivas. Toda a sociedade perde quando parte significativa dos cidadãos se ausenta da vida política, ignora o passado e não enxerga no presente as marcas de decisões políticas que poderiam ter sido outras.
       O analfabeto político trata a palavra “política” como palavrão. Mas política é simplesmente o modo como nos organizamos coletivamente e deveria ser ensinada, não evitada. É dessa ingenuidade ou preguiça intelectual que se aproveitam políticos malandros. Eles convencem a sociedade majoritariamente formada por trabalhadores, por exemplo, de que uma greve é “política” como se pudesse ser religiosa, ou como se houvesse greve fora da política. Toda greve é política. Toda omissão também.
        A neutralidade da qual tantos se orgulham é, ela mesma, um posicionamento conservador: quem não age para mudar o jogo beneficia quem sempre venceu. A democracia não sobrevive de espectadores. Sobre isso o jornalista e escritor Lima Barreto (1881-1922) disse: "O Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por seus direitos e se mobiliza, público apenas assiste".
      Também a filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975) lembra que a democracia exige participação ativa para se manter viva. Os ataques de 8 de janeiro de 2023 no Brasil e os movimentos da atual gestão Trump nos EUA escancaram sua fragilidade. Democracia é como bebê: precisa de adultos responsáveis que a protejam.
        Aqui e além, há quem culpe imigrantes, negros, LGBTQIAPN+ ou a esquerda por suas próprias frustrações. O fascismo se nutre dessa falta de autoconsciência, desse analfabetismo de si mesmo. Ele não floresce onde as pessoas compreendem a própria história. Reduzir o analfabetismo funcional e político é, antes de tudo, adubar o chão onde a democracia pode, enfim, criar raízes.

Clique no link abaixo e assista a apresentação do poema O analfabeto político de Bertolt Brecht.

 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 2 - o analfabetismo funcional.

 

        Os profissionais da educação são sempre apontados como os culpados pelos insucessos da educação brasileira, porém, a escola não é uma bolha separada da sociedade, o seu entorno e suas mazelas sociais afetam os resultados escolares. Reduzir as causas do insucesso dos estudantes unicamente ao trabalho dos profissionais da educação é resultado de uma análise não apenas equivocada, mas desonesta. Roberto Catelli (coordenador da área de educação de jovens e adultos da Ação Educativa) citado pela Agência Brasil corrobora essa tese ao apontar que "resultados melhores somente serão alcançados com políticas públicas significativas no campo da educação e também na redução das desigualdades e na melhoria das condições de vida da população".

            Sabemos que os problemas estruturais da educação brasileira e a desigualdade social constituem entraves nacionais a impedir a melhora dos índices de analfabetismo funcional nas faixas etárias mais jovens. No entanto, se engana o leitor que pensa isso ser problema da educação pós ditadura militar (1964-1985), pois na faixa etária de 50 a 64 anos, o índice de analfabetismo funcional atinge 51% dos indivíduos e historicamente o Brasil esteve sempre entre os dez piores colocados do planeta no quesito.

            O analfabetismo funcional é quase tão grave quanto o analfabetismo absoluto, um analfabeto funcional é alguém que não sabe interpretar o contexto que permeia a realidade vivida. É vítima fácil das fake news, pois é incapaz de ler/interpretar as entrelinhas das informações que recebe e, dessa forma, muitas vezes age contra seus próprios interesses, sem disso ter consciência.

            O educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997) afirmou que a alfabetização vai muito além da decodificação dos códigos escritos, sobre isso, é mundialmente conhecida sua frase "Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho".

            A Pedagogia Crítica desenvolvida por Paulo Freire não somente era muito eficaz no combate ao analfabetismo funcional, como também na formação da consciência crítica, algo considerado "perigoso e subversivo". Por ousar ensinar o pobre a ler o livro da vida e a interpretar as relações de trabalho nas quais estava inserido, foi preso e exilado durante a ditadura militar  (1964-1985) e ainda hoje é odiado por ricos e também por pessoas não conscientes de sua própria condição de classe social dado o seu analfabetismo funcional.