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domingo, 28 de dezembro de 2025

E na curadoria, a professora!

 

            A curadoria de obras literárias compreende a seleção, análise e organização criteriosa de livros por especialistas para um público-alvo, visando qualidade, relevância temática e expansão do repertório cultural. Essencial em livrarias, clubes de assinatura e feiras, diferencia-se da automatização ao promover a diversidade e mediação da leitura. O curador é portanto, um expert literário, uma pessoa com grande conhecimento da literatura nacional e internacional, ou ainda, da obra de algum determinado autor.

            Durante o ano que passou (2025), minha filha solicitou alguns livros que não dispunha em minha biblioteca. Tratavam-se de obras solicitadas pela sua professora da disciplina de Literatura. Após a leitura, ela teria que fazer síntese crítica de cada obra. Em minha casa, sempre disse, que livro não é despesa, mas, investimento. Após minha filha fazer a leitura dos livros, peguei-os para ler, movido pela curiosidade, pois se tratavam de obras que não havia lido.

            Eu peguei o hábito pela leitura na escola, tínhamos que fazer o diário de leitura e ler dois livros a cada bimestre, para conseguir parte da nota da disciplina de Língua Portuguesa. Confesso que inicialmente não era apegado na atividade da leitura. Lembro que líamos os livros da coleção Vaga-lume, que em sua contra-capa trazia imagens das capas de outros volumes da coleção. Era dessa forma que escolhíamos os próximos livros a serem lidos e também por indicação de nossos colegas. No Ensino de 1º Grau - séries iniciais (atual Ensino Fundamental I) a obra marcante foi "Expedição aos Martírios" de Francisco Marins. No Ensino de 1º Grau - séries finais (Ensino Fundamental II) o livro destaque para mim foi "Spharion" de Lúcia Machado de Almeida e no Ensino de 2º Grau (Ensino Médio) lembro do livro "A desintegração da morte" de Orígenes Lessa.

            Ler é um hábito que raramente se alcança de forma solitária, há que se ter sempre a influência dos pais, dos irmãos, dos amigos e, principalmente dos professores, especialmente nesses tempos de muitas distrações tecnológicas alienantes, o livro continua a ser a principal ferramenta para obtenção de cultura e de conhecimento, muito além da mera informação.

            Sei que os deixei curiosos, com a curadoria da professora de minha filha, li os livros "O auto de São Lourenço" de José de Anchieta, "Noite na Taverna" (e também Macário) de Álvares de Azevedo; "O seminarista" de Bernardo Guimarães, além de "O Guarani" e "Lucíola" ambos de José de Alencar. Obras que foram por mim, muito apreciadas! Concluo deixando minha gratidão aos professores que estimulam nossos adolescentes ao maravilhoso hábito da leitura!

           

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

Os fantasmas do Sr. Scrooge (versão sintetizada do original de 2017)

 

                 Alguns artigos, que no passado publicamos, merecem e devem ser republicados e relidos, é o caso de "Os fantasmas do Sr. Scrooge", especialmente nesta época natalina, eis-lo: Algumas pessoas tiveram o privilégio de assistir à bela apresentação da escola Ballerina de Laranjeiras do Sul, no ano de 2017, inspirada em “Um Conto de Natal” de Charles Dickens (1812-1870). Muitos, porém, conhecem a história pelo desenho da Disney, onde o protagonista Ebenezer Scrooge é o Tio Patinhas.

            Na obra de Dickens, Scrooge é um homem rico e endurecido, que explora seu empregado e rejeita o espírito natalino. Tudo muda quando o fantasma de seu sócio morto o alerta sobre as consequências de sua vida vazia. Visitado pelos fantasmas do Natal Passado, Presente e Futuro, ele revive sua trajetória e, ao testemunhar o sofrimento de seu funcionário e do filho doente deste, transforma-se profundamente.

            Hoje, ainda há muitos Scrooges entre nós. Eles celebram o Natal pelo comércio, pelos lucros, mas não pela reflexão. Declaram-se cristãos, mas defendem tortura, prisões arbitrárias e pena de morte, práticas que o próprio Cristo sofreu e rejeitou. Ele, que acolheu a todos, inclusive os marginalizados, propunha um reino de justiça aqui e agora, não apenas no além.

            Alguns Scrooges comandam igrejas como negócios, outros usam a política para servir a interesses contrários ao bem comum. Apaixonados pelo dinheiro, acumulam fortunas muitas vezes manchadas por injustiças, enquanto rejeitam políticas sociais, chamando-as de “comunismo”. Precisam da pobreza para fazer atos de caridade nas épocas festivas, para dessa forma parecerem generosos e sentirem-se seres humanos especiais.

            Enquanto isso, em muitos lares, o Natal será sem presentes ou sequer um prato de carne. Pais desempregados ou subempregados, com salários miseráveis, famílias na pobreza extrema, cortes de auxílios, realidades que, como disse Milton Santos, não são acidentais: “A fome é uma decisão política”.

            Termino com palavras que ecoam Paulo Freire: "sonho com o dia em que a justiça social venha antes da caridade". Que este Natal nos incomode, nos mobilize e nos lembre que um outro mundo é possível, mais humano, mais justo, mais fraterno.


sábado, 13 de dezembro de 2025

Che leitor

 



Este humilde escriba e inveterado leitor tem o costume de assistir a booktubers para descobrir novas obras para aquisição. Com o mesmo objetivo, busco referências em intelectuais e personalidades cuja erudição admiro. Também assino o Clube do Livro da Editora Expressão Popular, por meio do qual, chegou às minhas mãos o livro "Che leitor".

Che Guevara é como ficou popularmente conhecido Ernesto Guevara de La Serna (1928-1967), o lendário revolucionário argentino-cubano que juntamente com o cubano Fidel Alejandro Castro Ruz (1926-2016), liderou a Revolução Cubana que em 1959 pôs fim à ditadura de Fulgêncio Batista Zaldívar (1901-1973).

A obra "Che Leitor" explora uma faceta menos conhecida do revolucionário, a sua paixão pelos livros. Guevara carregava obras na mochila durante campanhas guerrilheiras e lia-os nos momentos de espera entre combates. Há fotografias suas de tais momentos, lendo em plena selva.

Engana-se quem pensa que seu interesse se restringia às obras de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Che lia sobre economia, política, filosofia e literatura de diversos pensadores, inclusive biografias. Criticava os manuais soviéticos, por considerá-los pouco reflexivos, e acreditava que o conhecimento marxista não era estático, dado, era necessário ir além, ver o que há na direção que Marx apontou, mas não teve tempo de visualizar.

Che Guevara era um socialista convicto, certa vez afirmou: "nós socialistas somos mais livres porque somos mais plenos; somos mais plenos por sermos mais livres", ironicamente, o capitalismo fez de sua face estampada em camisetas, um artigo de grande venda no mundo todo, especialmente nos países do Sul Global. Vários integrantes de movimentos sociais e/ou anti-colonialistas a utilizam e inspiram-se nele dando suas vidas na luta pela sua causa.

O intelectual francês Jean Paul Sartre (1905-1980), o qual dispensa apresentações, considerou que Che foi o homem mais completo de seu tempo. Che era um grande leitor e escritor, um revolucionário traduzido nas suas próprias palavras "digo com o receio de parecer ridículo que todo autêntico revolucionário deve ser movido pelo profundo amor ao povo, às causas pelas quais luta e, mesmo assim ser capaz de tomar decisões dolorosas sem contrair um só músculo". Nesse sentido, é mundialmente conhecida sua frase "hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás". Fica a dica!



Sugestão de boa leitura:

Título: Che leitor.

Autor: Biblioteca Nacional de la República Argentina (Org.).



Editora: Expressão Popular, 2025, 160 p.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Macário

 

A vida de Manoel Antônio Álvares de Azevedo foi tão breve e intensa quanto o clarão de um meteoro. Nascido em 1831, o poeta que entraria para a história simplesmente como Álvares de Azevedo partiu aos vinte anos, deixando uma obra que só veria a luz após sua morte. Ainda assim, esse curto tempo foi suficiente para que ele se tornasse o mais emblemático representante da segunda geração do Romantismo brasileiro, capturando em versos e prosas a melancolia, o tédio e os devaneios de uma juventude ardente.

            Em “Macário”, o autor constrói uma narrativa peculiar, com formato que lembra uma peça teatral, ainda que não destinada aos palcos. No centro está o jovem estudante que dá nome à obra, um aventureiro cético que, em certa noite, crê encontrar-se com o próprio Satã. Desse encontro surge um diálogo filosófico ácido, em que Macário despeja seu desencanto: para ele, o mundo é “monótono de fazer morrer de sono”, o amor não passa de uma quimera e a única realidade tangível é o dinheiro.

            Apesar da pouca idade, Macário porta-se como um homem vivido, narrando suas conquistas amorosas como meras buscas de prazer, longe de qualquer idealização romântica. Divertia-se com mulheres que considerava “erradas”, enquanto aguardava de forma quase cínica  o encontro com a “virgem fiel e dedicada”, único perfil que julgava digno de matrimônio.

            Na segunda parte da obra, a cena desloca-se para a Itália, onde entra em cena "Penseroso" (aquele que pensa). Aqui, o tom muda: se Macário ridiculariza o sentimento do amor, Penseroso é seu refém. Apaixonado por uma italiana e tomado pelo medo da rejeição, ele envereda pelo tema da morte como escape, chegando a ingerir veneno. Mesmo arrependido, no último instante, sucumbe, levantando a questão do suicídio como fuga da dor amorosa.

            A trama é um retrato fiel do universo de Álvares de Azevedo cuja obra é carregada de pessimismo, fascínio pela morte, desilusão afetiva e um profundo tédio existencial. Entre linhas, discute-se a virgindade, a inocência idealizada e a beleza inatingível, tudo temperado pela ironia mordaz do autor. Contar mais seria desvendar os fios dessa trama curta e impactante, na qual cada página respira o desalento e o brilho precoce de um talento que, como seu criador, partiu cedo demais.

 

Sugestão de boa leitura:

Título:  Macário.

Autor: Álvares de Azevedo.

Editora: L&PM, 2001, 112 p.

sábado, 29 de novembro de 2025

Credibilidade, ora credibilidade...

 

        Durante as Jornadas de Junho de 2013, tomei uma decisão: parei de assistir ao jornalismo da TV Globo. Explico: o Movimento Passe Livre protestava contra o aumento das tarifas de ônibus e foi inicialmente criticado pela emissora, porém, quando as manifestações cresceram e ganharam outras bandeiras, a Globo deu uma guinada de 180 graus. Isso ocorreu porque a emissora percebeu a chance de fustigar o Governo Dilma Rousseff (PT), sendo que o mesmo comentarista que havia condenado os atos, passou a apoiá-los dias depois.

            Foi um espetáculo de falta de credibilidade, com a emissora transmitindo ao vivo os panelaços e incentivando a adesão popular. Aquele jornalismo mau caráter me enojou, e lá se vão doze anos sem noticiários da TV Globo em minha casa.

            Uma contradição similar veio do Estadão. Em 2018, o jornal defendeu que o então ex-presidente Lula cumprisse pena "como qualquer preso". Agora, com Bolsonaro, argumenta que um ex-presidente não deve ser tratado assim, sugerindo prisão domiciliar, que no caso de Bolsonaro, trata-se de uma mansão. Ora, se a regra vale para todos, por que o privilégio? Argumentam que Bolsonaro está doente, ora, como são tratados os "outros presos" doentes? Todos têm direito à prisão domiciliar?

            A ironia é que, em 2017, seu filho Eduardo Bolsonaro publicou em uma rede social: "Ladrão de galinha ir para a prisão e ladrão amigo do rei para prisão domiciliar é sinônimo de impunidade". A frase, hoje, soa como um retrato da seletividade que se pretende, beneficie seu pai.

            Nós brasileiros, parecemos estar presos no roteiro do filme O Feitiço do Tempo, pois a cada dia, a cada novo amanhecer, a velha mídia abre espaço para os improdutivos e custosos parlamentares da extrema direita falarem sobre a necessidade da  aprovação de um projeto de lei (ao arrepio da Constituição Federal) concedendo a anistia para os criminosos golpistas para a "pacificação" do país.

            Penso que o país só se pacificará quando a impunidade histórica do golpismo acabar e a democracia for fortalecida com uma mídia regulada, livre do domínio de poucos grupos empresariais que, na sustentação de interesses escusos, praticam uma interpretação contorcionista da realidade, ditando a opinião pública para uma sociedade pouco afeita ao pensamento crítico, pois assim demonstram as pesquisas sobre analfabetismo funcional.

            É de se lamentar, que grupos de comunicação brasileiros constituam marcas valiosas, mas ao mesmo tempo tão pobres em credibilidade, que é ou deveria ser seu maior patrimônio.

 

sábado, 22 de novembro de 2025

O alquimista

 

        Após muito ouvir críticas à literatura de Paulo Coelho (1947), resolvi reler "O Alquimista", publicado originalmente em 1988, sendo sua obra mais famosa, a qual foi traduzida para 81 idiomas e com mais de 150 milhões de cópias vendidas, tornando-o o escritor brasileiro mais lido e traduzido da história. Eleito imortal da Academia Brasileira de Letras - ABL (2002) em meio a controvérsias, Paulo Coelho sempre foi alvo de ressalvas de acadêmicos e críticos, que afirmam ser sua escrita simplória e pouco elaborada.
            Li o livro em 1992, no auge de seu sucesso quando se manteve na lista de mais vendidos do jornal New York Times por incríveis 425 semanas. Na época, eu, um leitor menos tarimbado, emocionei-me com a história e passei a admirar não só o letrista genial que compôs com Raul Seixas (1945-1989), mas também o escritor. Com a intenção de melhor abalizar meu veredicto, reli também, Brida (1990), a qual considerei uma escrita mais consistente.
            Ao reler, confirmo: não se trata de alta literatura e tenho que reconhecer que sua escrita não se compara à de autores como Vitor Hugo, Tolstói ou Kafka, mas é importante lembrar que há leitores para todos os perfis. Paulo Coelho ocupa um espaço singular no qual oferece narrativas leves, de fácil compreensão, que conduzem à reflexão sem exigir grande esforço intelectual, enfim, uma leitura fluída e prazerosa, ideal para momentos em que desejamos escapar da dureza do cotidiano.
            A trama acompanha Santiago, um pastor de ovelhas da Andaluzia (Espanha) que abandona tudo em busca de um tesouro enterrado próximo às pirâmides do Egito, revelado em sonhos repetidos. Em sua jornada, ele encarna valores como desapego, resiliência e fé, aprendendo a escutar os sinais do universo e a persistir mesmo diante dos maiores obstáculos.
            Uma das frases mais célebres do livro resume bem seu espírito: “o universo inteiro conspira a favor de quem persegue seu sonho”. E, de fato, Santiago segue e encontra não apenas um tesouro, mas também a realização da sua lenda pessoal.

Sugestão de boa leitura:

Título: O alquimista.
Autor: Paulo Coelho.
Editora: Rocco, 1992, 208 p.





domingo, 9 de novembro de 2025

Lincoln

 

Foi por meio de artigos motivacionais sobre a vida da personagem histórica Abraham Lincoln (1809-1865), que tive aguçada a curiosidade, o que me levou a adquirir a biografia que deu origem ao filme. A leitura, finalmente realizada dois anos após a aquisição, ofereceu-me um sabor agridoce. A obra centrou-se demais na presidência (de 1861 a 1865) e pecou por lacunas históricas e pela falta de mapas das batalhas da Guerra Civil. Descobri, com certa frustração, que a versão brasileira foi sintetizada, enquanto a original nos EUA esmiúça os fatos com muito mais riqueza.

            Essa busca por detalhes me levou a redescobrir a trajetória extraordinária daquele extraordinário homem. Sua infância foi marcada pela pobreza extrema, pela perda da mãe ainda menino e por uma luta constante pela sobrevivência. O jovem Lincoln, alto e magérrimo, trabalhou como lenhador e condutor de barcaças. Sua educação formal não chegou a dois anos, mas sua sede de conhecimento era insaciável. Tornou-se um autodidata obstinado, devorando livros que carregava para todo lado.

            A vida o testou incessantemente: reprovado no exame para o ingresso na faculdade de Direito, estudou por conta própria até ser aprovado na prova da ordem. Como advogado, era temido por sua inteligência afiada em apontar contradições. Fracassou como empresário e em quase todas as tentativas políticas, além de carregar a dor da perda de dois filhos.

            Em 1860, contra todos os prognósticos e com o que muitos consideravam o pior currículo dentre os postulantes, esse homem de origens humildes foi eleito presidente. Sua grandeza se revelou na humildade e sagacidade, pois convidou seus rivais derrotados para compor seu gabinete, formando uma equipe de feras que ele sabia liderar com mão firme.

            Quando a guerra civil (1861-1865) estourou, ele não a desejou, mas enfrentou seu fardo com uma determinação solene. Após quatro anos e 600 mil mortos, sua perseverança manteve a União intacta e libertou os escravos. No entanto, ao ousar defender o direito ao voto para os negros, atraiu o ódio mortal daqueles que não aceitavam a nova era. Sua vida foi tragicamente ceifada no Teatro Ford, um de seus poucos refúgios de paz, mas seu legado como um dos maiores líderes dos Estados Unidos permanece eterno. Sua história é um testamento pungente de que a força do caráter supera qualquer currículo.

Sugestão de boa leitura:

Título: Lincoln

Autor: Doris Kearns Goodwin

Editora: Record, 2013, 322 p.

sábado, 1 de novembro de 2025

Os sapatos de Francisco

 

        Recordo-me da minha juventude, quando, professor de geografia em uma escola privada confessional, acreditava, com a fé dos sonhadores, que minha missão era aguçar a sensibilidade dos educandos perante as injustiças do mundo. Queria formar cidadãos que não se acostumassem com a chocante cena de pessoas revirando lixo em busca de comida, um retrato triste da realidade que jamais deveria ser tratado como "normal". Desejava que meus alunos não virassem o rosto diante da miséria, pois entendia que a "invisibilidade" a perpetua.

            Naquela época, encontrei na videoteca da escola o filme "Irmão Sol, Irmã Lua" de Franco Zeffirelli. Assistir àquela obra foi uma experiência que me comoveu profundamente, embora diante da turma tentasse manter a postura de um revolucionário impassível. Ao exibir o filme, meu objetivo era estimular a crítica ao consumismo e ao culto da aparência em contraposição à essência, pilares do sistema capitalista que nos cerca.

            Décadas se passaram. Aquele jovem professor chegou à meia-idade sem ter mudado o mundo, mas, felizmente, sem nunca ter abandonado o ideal. Aprendi que nossa função, como parte de uma classe trabalhadora intelectualizada, é ser como a água: paciente e persistente, desgastando lentamente a rocha dura do capitalismo para, um dia, sedimentar as bases de um mundo novo.

            E então, em 2013, veio a notícia: "Habemos Papa". Um colega me contou que o Cardeal Jorge Mario Bergoglio (1936-2025) escolhera o nome Francisco, em alusão a São Francisco de Assis. Comentei, na época, que ele era muito auto-confiante, pois ao utilizar tal nome, colocava sobre os ombros uma tarefa hercúlea. E Francisco não fracassou. Seu papado, ainda que dentro dos limites de uma instituição milenar, foi um farol de esperança.

            Tal como seu inspirador, ele ousou confrontar os "adoradores do bezerro de ouro", falando-lhes verdades inconvenientes e defendendo com paixão os direitos universais à terra, ao teto e ao trabalho. Chamaram-no de "comunista", termo costumeiramente utilizado contra quem luta por justiça social. Francisco não se abateu. Seguiu sorridente, afirmando que lutar por um mundo justo é verdadeiramente viver o Evangelho.

         Seu pontificado, foi breve, porém inspirador. E no fim, seu último gesto foi a confirmação final de sua jornada: pediu para ser sepultado não no Vaticano, mas na Basílica de Santa Maria Maggiore, e que calçassem em seus pés os sapatos velhos que usou para peregrinar pelo mundo. Um símbolo poderoso de que a mente professa a partir do chão que os pés pisam.

 

 

sábado, 18 de outubro de 2025

A Educação como prioridade x a Educação como discurso

 

           Há alguns dias, li uma postagem em uma rede social do conferencista, palestrante e consultor em educação e gestão Renato Casagrande e, inevitavelmente relacionei-a com os tristes e obscuros tempos da educação paranaense sob o atual governo de Ratinho Júnior. A frase de  Renato Casagrande ecoa com triste precisão no Paraná: "Se a educação é prioridade, mas o professor não é valorizado, então a prioridade nunca foi a educação, foi apenas o discurso". Esta reflexão sintetiza a realidade educacional sob o governo Ratinho Júnior, onde o discurso é a verdadeira prioridade, e não a educação em seu sentido pleno.

            A situação concreta dos professores paranaenses desmente qualquer retórica oficial. Relatam-se casos chocantes: um professor obrigado a fazer um curso online do leito de um hospital, sem o direito de apresentar atestado médico. Há registros de milhares de profissionais adoecidos e até de mortes no ambiente de trabalho, com uma professora falecendo no momento em que era cobrada por não bater metas.

            A valorização, na prática, é inversa. Trabalhar doente tornou-se uma necessidade, não uma opção. Quem falta, mesmo com atestado, sofre descontos salariais (perda de gratificação) e pode ser rebaixado na atribuição de aulas, ameaçando seu emprego no ano seguinte. Até professoras em licença-maternidade, um direito constitucional, tiveram gratificações cortadas. O salário, já com uma defasagem de 47% ante a inflação, força o professor a desobedecer ordens médicas e trabalhar para sustentar a família.

            A prioridade discursiva fica ainda mais clara com ações concretas do governo: não pagar a reposição inflacionária há sete anos, desfigurar o plano de carreira, desrespeitar a hora-atividade garantida por lei e fechar escolas, superlotando as salas remanescentes. Essa política não visa a formação integral do cidadão, mas "treinar" alunos para atingir índices como o IDEB, formando mão de obra barata em vez de mentes críticas.

            Lembro de Jô Soares (1938-2022) quando disse: "o professor é o material escolar mais barato da praça". No Paraná, infelizmente, essa máxima parece ser a regra. O governador chegou a se vangloriar de nunca atender e que nunca atenderá as reivindicações docentes. Diante disso, fica evidente que, enquanto os professores não forem verdadeiramente valorizados, a educação nunca será a real prioridade. No caso de Ratinho Júnior, a prioridade sempre foi o discurso, não a educação!

 

domingo, 12 de outubro de 2025

Ser rico e de esquerda é fácil?

 

            Há alguns dias, o apresentador Ratinho dirigiu fortes críticas a algumas celebridades, tais como o músico multi-instrumentista Júnior Lima, que se posicionou contra a anistia aos criminosos golpistas. Sobre Júnior, disse que ele não tem o talento da irmã Sandy, da qual teria resultado o sucesso da dupla. Penso que ser multi-instrumentista é uma mostra de enorme talento, Ratinho, talvez não pense assim. No entanto, sobre um dos componentes de uma dupla ou banda dominar os vocais é algo comum. Mick Jagger é a voz dos Rolling Stones, mas, ninguém afirma que os demais Stones não tenham talento e contribuído para o sucesso da banda, a menos que eles venham a fazer falas contra a anistia e afirmem ser de esquerda.

            Penso ser infeliz e também ingênua a afirmação de que "para ser de esquerda, tem que ser aquele pobre que não acredita mais na vida". Essa ideia é desmontada com um exemplo histórico contundente: Friedrich Engels (1820-1895), um homem muito rico, foi co-autor intelectual da obra de Karl Marx (1818-1883). Juntos, buscaram instrumentalizar a classe trabalhadora para construir uma sociedade mais justa. A luta por justiça social, portanto, não é uma questão financeira, mas de consciência social e filosófica. O pensamento de Ratinho é invertido, pois se alguém pobre é de esquerda, é justamente porque acredita profundamente na vida e na possibilidade de torná-la melhor, recusando-se a se contentar com as migalhas do sistema.

            Quanto a sua fala de que os artistas "globais" serem todos de esquerda, isso é um equívoco, pois nem todos têm a consciência de seu tempo, mas assim deveria ser, porque como os Titãs já cantaram, "a fome não é só de comida, mas de arte e de uma vida que vale a pena ser vivida", para além de meras peças da engrenagem do sistema capitalista. O artista imprescindível (ler "Sobre o artista e a consciência de seu tempo" publicado neste espaço em 04/10/2025) tem uma sensibilidade, que pessoas comuns não têm, pois "não fazem seu público de tonto" fazendo discursos embasados no senso comum.

            Encerro afirmando que ser de esquerda, rico ou pobre, é difícil, exige muito estudo, reflexão e uma vida de árdua luta contra as injustiças. Para o rico, especificamente, é um desafio ainda maior, pois significa nadar contra a maré de seus pares, resistir ao status e ao conforto "para manter a solidariedade acima do egoísmo", como definiu o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica (1935-2025).

 

sábado, 4 de outubro de 2025

Sobre o artista e a consciência de seu tempo: tributo a Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque

 

            Há uma ideia que me toca profundamente: a de que o artista carrega a missão de ter a consciência do seu tempo. Não basta o talento bruto, a técnica apurada. Para ser verdadeiramente imprescindível, ele precisa ler o mundo ao seu redor, sintonizar-se com os anseios da sua gente e transformar a arte em um instrumento de reflexão e mudança.

            Esse artista necessário não é um alienado, um mero negociante de suas obras. É um ser que medita sobre as agruras e os sonhos da sociedade. Através da sua criação, ele afina nossa percepção, aguça nossos sentidos e nos guia em um reencontro conosco mesmos e com o coletivo. E no Brasil, nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque personificam esse ideal. Eles já seriam eternos apenas pela imensa beleza que trouxeram à nossa MPB, mas sua grandeza vai além das notas e versos.

            Recentemente, vimos essa trinca de gigantes, mais uma vez, usando suas vozes e sua inabalável consciência política. Uniram-se para mobilizar a população contra a impunidade que historicamente protege criminosos golpistas e em repúdio a projetos que visam blindar parlamentares. A cena é poderosa: os mesmos jovens que um dia enfrentaram a ditadura militar, agora idosos mas incansáveis, seguem na linha de frente, defendendo a democracia com a mesma chama. A frase "da luta ninguém se cansa" parece ecoar em suas existências.

            Ficamos pensando que deveriam ser imortais, mas sabemos que a imortalidade pertence apenas à sua obra. Eles se tornam gigantes não só pelas canções que compuseram, mas por terem usado, durante toda a vida, seu lugar de fala para oferecer um farol a um povo tão castigado pela realidade, um povo que, na labuta diária, por vezes esquece de sonhar. Eles nos lembram que podemos e devemos acreditar em dias melhores.

            Não sou poeta para homenageá-los como merecem, mas como um brasileiro que ama este país, deixo meu tributo: Caetano, Gil e Chico, vocês são, de fato, imprescindíveis. A vocês, nossa eterna gratidão.

 

 

sábado, 27 de setembro de 2025

Os adultos responsáveis e as molecagens do atual Congresso Nacional

             Em nosso recente artigo "Um pequeno passo para o STF, um grande salto para o Brasil" de 20/09/2025, afirmamos que a democracia é tal como um bebê humano, que se não cuidado por adultos responsáveis, perece. Bastou sair o resultado do julgamento de Bolsonaro com sua justíssima condenação, para que a Câmara dos deputados acenasse com o inconstitucional projeto de anistia para todos os envolvidos na recente tentativa de Golpe de Estado.

            Várias vezes, em nossa história, a anistia foi concedida com vistas a pacificação dos espíritos. O resultado é que várias lideranças golpistas anistiadas, incorreram em novas tentativas de golpe, algumas vezes bem sucedidas. A Carta Constitucional (1988) proíbe a anistia a golpistas, mesmo assim, os parlamentares insistem nela, pois desejam o embate com o STF, guardião da Constituição Federal pois, no mínimo, reforçam o discurso da suposta "ditadura  do STF", perante seu fanático eleitorado.

            Ocorre que o Congresso Nacional, em especial, a Câmara dos Deputados, não raras vezes, rasga a Constituição, forçando os "adultos responsáveis" (Ministros do STF), a defendê-la, condenando projetos de leis inconstitucionais, resultantes da molecagem de parlamentares da extrema-direita. Algumas lideranças golpistas e, até advogados de defesa dos réus disseram aos Ministros, durante o julgamento do Golpe de Estado, que o povo não suporta mais a "ditadura do STF".

            Na realidade, o povo, em especial, o esclarecido e afeito à democracia, não suporta mais, o uso de fake news para desinformação e os constantes ataques à democracia e à soberania nacional por parte de políticos, que deviam zelar pela Constituição Federal, e consequentemente, pelo Estado Democrático de Direito. A nação brasileira não suporta mais, políticos que buscam no Congresso Nacional, uma fortaleza inexpugnável de proteção, produzindo uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para blindá-los contra crimes de quaisquer natureza por eles praticados.

            O atual Congresso Nacional é tão horroroso que, não teme demonstrar, por suas falas e ações, o conteúdo deletério de seu "trabalho" legislativo, produzindo excrescências históricas na forma de projetos de leis inconstitucionais, como a anistia de golpistas, a proteção de criminosos para livrá-los da ação da Justiça tal como a famigerada PEC da blindagem/bandidagem que  transformaria o Congresso Nacional num refúgio seguro para  o crime institucionalizado.

            O Brasil precisa virar essa página da história! O Brasil não pode continuar refém de uma famíglia e de seus seguidores sectários.  

sábado, 20 de setembro de 2025

Um pequeno passo para o STF, um grande salto para o Brasil

 

              A chegada do homem à Lua em 20 de Julho de 1969, simbolizada pela famosa frase de Neil Armstrong (1930-2012) "Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade" foi celebrada como uma vitória de toda a humanidade, uma conquista do intelecto humano que transcendia nacionalidades.

            Neste espaço, em várias oportunidades, destacamos ser a democracia brasileira, breves hiatos entre períodos ditatoriais. Afinal, o Brasil teve em sua história, sete golpes de Estado bem sucedidos e sete tentativas de golpe de Estado frustradas. Temos nas Forças Armadas, em especial, no Exército, uma histórica tradição golpista. Também temos uma elite econômica egoísta, mesquinha e antipatriótica, a qual jamais quis fazer parte da construção de um verdadeiro projeto de nação para o Brasil. Também pesa contra a democracia brasileira, a apatia e a alienação de grande parcela do povo brasileiro, que assistiu de camarote os vários atentados à democracia, sem nada fazer.

            A condenação de Jair Messias Bolsonaro e dos militares e civis partícipes da tentativa de golpe de Estado é histórica e também pedagógica. A história nos mostra que a anistia concedida às lideranças militares encorajaram-nas a novas tentativas de golpes de Estado. O STF cumpriu seu papel, tal como na conquista da Lua pelos EUA, o mundo democrático comemora, pois a democracia é frágil, tal como um bebê humano, se não cuidado por adultos responsáveis, perece. Quando se salva a democracia em um país, ela se fortalece nos demais.

            Os Estados Unidos que se arvoram, a maior democracia do planeta e, sabemos, não são mais, têm muito a aprender com o Brasil. Nós fizemos a lição de casa, estamos punindo os golpistas de 08/01/2023. Os EUA terão que arcar com o castigo pedagógico pela falta de coragem de enfrentar os seus monstros do 06/01/2021. Fosse os Estados Unidos, o país democrático, que sempre afirmaram ser, não estariam em conluio com traidores da pátria brasileira, impondo sanções econômicas e fazendo ameaças do uso de força militar contra o Brasil e, sim elogiando a consolidação da democracia brasileira.

            Enquanto o povo estadunidense, devido à fraqueza de suas instituições e à escolha equivocada de seu presidente, somente podem olhar pelo retrovisor, para lembrar dias democráticos e mais promissores. Nós brasileiros, vislumbramos na estrada à nossa frente, um futuro democrático e de dias melhores para o país!

sábado, 13 de setembro de 2025

A falência

 

Mais do que o simples relato de uma ruína financeira, "A Falência" é um mergulho profundo na alma humana, um retrato sensível e crítico de uma época e de seus paradoxos. Escrita por Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), uma das vozes mais importantes e, injustamente, mais esquecidas do Brasil do século XIX.

A história nos apresenta a família Teodoro, um microcosmo da elite carioca pós-abolição. Francisco, o patriarca imigrante português, construiu um império do café com suas próprias mãos. Sua esposa, Camila, é a bela matriarca que gravita um mundo de aparências, futilidades e segredos. Seus filhos, o bonvivant irresponsável Mário, a sonhadora Ruth e as gêmeas Lia e Raquel desfrutam de uma opulência nababesca, alheios às bases frágeis sobre as quais a vida é construída.

A narrativa tece com maestria os fios da traição, da hipocrisia e dos desejos reprimidos. Camila mantém um caso com o médico da família, Gervásio, um segredo conhecido por todos menos pelo marido, mas que corrói a dinâmica familiar, especialmente o ressentimento do filho Mário.

Contudo, o grande triunfo de Júlia não é apenas narrar a decadência moral, mas conectá-la à queda material. A "falência" do título é muito mais que um evento econômico, é o colapso de um mundo. Quando Francisco perde toda a sua fortuna em especulações na bolsa, a família é brutalmente arrancada de seu universo de sedas e festas e obrigada a confrontar uma realidade brutal para a qual não estava preparada.

Júlia, com sua escrita realista e afiada, não poupa críticas. Ela expõe a frivolidade dos ricos, o preconceito racial latente e a exploração dos trabalhadores recém libertos, mostrando os dois lados de um Brasil em transformação. A genialidade da autora está em nos fazer sentir, primeiro, um certo asco pela futilidade daquela família e, depois, uma comovente compaixão por sua fragilidade exposta.

"A Falência" é a obra-prima de uma mulher à frente de seu tempo, uma autora que viveu da pena e que, apesar de ter sido excluída da Academia Brasileira de Letras por ser mulher, legou à literatura brasileira um romance poderoso, humano e eternamente relevante.




Sugestão de boa leitura:

Título: A falência.

Autor: Júlia Lopes de Almeida.

Editora: Penguin-Companhia, 2019, 304 p.

sábado, 6 de setembro de 2025

Comunista! Eu?

 

         Há algum tempo, no auge do radicalismo extremista de direita (perdoem a redundância, ela é necessária), representado pela ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, muitos dele simpatizantes, se sentiam representados/empoderados com a ascensão de seu "mito", e espumavam ódio a todas as pessoas que tinham uma visão/compreensão de mundo diferente.

            Sabedor que mesmo a noite mais escura passaria e, haveria de novamente nascer o sol, assimilei o golpe, era necessário fazer a resistência democrática. Não foi tranquilo, havia entre nós simpatizantes e militantes da esquerda, o receio de ataques perpetrados por integrantes ensandecidos das fileiras extremistas do bolsonarismo que, em várias oportunidades e locais do país, infelizmente ocorreram.

            Em um final de tarde qualquer, praticava a minha caminhada diária, quando uma picape acelerada passou por mim, sendo que seu motorista gritou: comunista!!! Eu não o reconheci e sequer tive tempo de agradecer o elogio. Em outra oportunidade, na mesma época, em um carro rebaixado, um jovem motorista, gritou de igual forma, no exato momento, em que lembrei que havia sido cancelado o evento semanal para o qual ia, fiz o retorno imediatamente, tomando o rumo de casa, então após notar que o seguia (não intencionalmente), o rapaz acelerou. Para não desobedecer as regras de trânsito, também não pude lhe agradecer o elogio.

            A limitação cognitiva de ambos não lhes permitiu entender, que ser chamado de comunista, é para nós da esquerda um elogio, que poucos de nós merecemos. No meu caso, em um breve exame de consciência, me falta leitura, meu embasamento teórico é incipiente e, me falta militância, eu precisaria ser mais atuante nas lutas sociais.

            Lembro que também fui chamado de vagabundo, por algumas pessoas que, em seus veículos, passaram por mim, não me ofendi, sei que eles não aguentariam a minha carga de trabalho semanal, nem teriam capacidade intelectual e a responsabilidade necessária para lecionar para mais de trezentos estudantes, nas péssimas condições de trabalho ofertadas aos docentes. E se tivessem, teriam a polidez e a inteligência que não demonstraram possuir.

            Sei por algumas pessoas próximas, que afirmaram ter ouvido de outras que sou comunista. Minha honestidade intelectual impede que assim me considere, pois precisaria ser uma pessoa muito melhor do que em realidade sou. No entanto, se estas pessoas assim me consideram, pois me promovem, não serei eu a me rebaixar!  Se você diz e, apenas porque você diz, comunista eu sou!

P.S. Parcela significativa das pessoas ignora o que de fato é o comunismo, inclusive seus detratores. Em outra oportunidade abordarei o tema neste espaço.

sábado, 30 de agosto de 2025

As mentiras que os homens contam

 

Luis Fernando Veríssimo (1936) é um escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e romancista brasileiro. É ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns conjuntos. Com mais de oitenta títulos publicados, é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos (Wikipédia).

            Tenho centenas de livros não lidos em casa, mas, sempre faço olho gordo a algum livro de minha esposa ou que algum(a) colega professor(a) está lendo e, após ver por dias seguidos, abandonado em uma mesa na sala de professores de minha escola, o livro que dá título a esse artigo, convidando à leitura, tomei-o emprestado sem saber de quem, ao me ver lendo-o, uma professora revelou ser a dona e autorizou o empréstimo, que já estava em curso.

            A época era propícia, fechamento de trimestre escolar, dado o agigantamento do trabalho característico desse momento, em que os professores deixam de viver e apenas sobrevivem. Uma leitura leve e com o bom humor e a sagacidade de Luis Fernando Veríssimo, vinha mesmo a calhar.

            Lembro que, o escritor que nunca se omitiu em posicionar-se politicamente e sempre defendeu a pauta progressista, desferiu críticas ao governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que as sentiu fortemente e, em resposta, afirmou que Luis Fernando era escritor menor que seu pai Érico Veríssimo (1905-1975).

            Eu duvido que Luís Fernando tenha tomado como crítica a fala de FHC. Para ele deve ter soado algo assim: "Lionel Messi joga mais futebol do que você"! e ele,  diria: óbvio!!! Quem em sã consciência, sendo filho ou não, teria a pretensão de superar o gigante literato Érico Veríssimo?

            Meu primeiro contato com a obra do autor foi com o livro "todas as histórias do Analista de Bagé", com as histórias absurdas e muito divertidas da famosa e impagável personagem. Muito atarefado e estressado, foi aos poucos que a leitura da obra "As mentiras que os homens contam" me ganhou, aliviou meu estresse e pude rir um pouco com as quarenta histórias bem humoradas e criativas.

            Deixo a dica e, também o registro da minha concordância com o autor, em gênero, número e grau de que "nós homens, não mentimos, apenas inventamos histórias para proteger as mulheres".

            Muita força Luis Fernando Veríssimo!!!

Sugestão de boa leitura:

Título:  As mentiras que os homens contam.

Autor: Luis Fernando Veríssimo

Editora: Objetiva, 2001, 166 p.


P.S. Infelizmente, na data da publicação desse artigo, Luis Fernando Veríssimo deixou esse plano! Obrigado Luis Fernando Veríssimo por sua contribuição à literatura brasileira e por seu posicionamento político sempre a favor dos mais humildes!

domingo, 24 de agosto de 2025

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - Parte 6

 

           

        O presidente Donald Trump (1946) e o seu homônimo russo Vladimir Putin (1952) realizaram no dia 15 de agosto de 2025, um encontro carregado de simbolismo na base americana Elmendorf-Richardson em Anchorage, no Alaska (EUA). O Ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov chegou ao território americano com uma camiseta com as iniciais da União Soviética como que a dizer: "a URSS e seu poder militar ainda habita na pátria russa".

        A reunião tinha como pauta, mas não obviamente a única e, para Putin, talvez, nem mesmo a principal, a questão da guerra entre Ucrânia e Rússia, embora essa pauta fosse importante para Trump, que adoraria encontrar uma solução para tirar os EUA e a OTAN da enrascada de apoiar uma guerra cara e, cuja possibilidade de vitória é inexistente (pois, traria a hecatombe nuclear) e, de quebra, quem sabe, ganhar um prêmio Nobel da Paz, algo em nosso ver, absurdo, mas, que Obama provou não ser impossível.

        Na pauta de Putin, além dos termos já conhecidos para a paz, considerados inaceitáveis pela Ucrânia, certamente está a redução ou o fim das sanções econômicas e políticas contra a Rússia, a reintegração da Rússia no G-8, o início do esboço ou redesenho da Ordem Mundial, na qual os papeis de cada potência precisam ser delimitados para evitar embates perigosos, sendo que na visão de Trump, os EUA não podem enfrentar russos e chineses ao mesmo tempo, como pensavam os democratas da gestão Biden, para Trump, a China representa o maior perigo para os Estados Unidos.

        A frase na camiseta de Lavrov é justificada com o desenrolar atual da referida guerra que, em seu início, acreditava-se que a vitória russa seria questão de poucas semanas, porém com a forte entrada da OTAN (liderada pelos EUA) fornecendo equipamento bélico, inteligência e, a imposição de fortíssimas sanções econômicas e políticas do ocidente contra a Rússia, o prognóstico passou a ser de que a Rússia desabaria economicamente, a guerra perderia apoio interno e Putin seria derrubado.

        Ledo engano, a Rússia resistiu, avança na tomada de territórios ucranianos e sua economia cresceu estimulada pelo esforço de guerra, Putin tem apoio popular, pois a população entende que o ocidente faz uma cruzada (via OTAN) para cercá-la e enfraquecê-la e o espírito russo é conhecido: o de lutar até o último homem e, a Rússia tem mais população para defender sua pátria do que a Ucrânia.

        Os líderes das nações se encontraram e, enquanto Putin, um ex-agente da KGB e talvez, o mais brilhante estrategista geopolítico dentre os líderes das grandes nações, caminhava no tapete vermelho com seu característico "andar do pistoleiro" ao lado do magnata e apresentador de reality shows Donald Trump, agora no papel de presidente da nação mais rica do planeta, numa demonstração de força pensada para o evento, um bombardeiro B-2 escoltado por quatro f-35, todos com capacidade stealth, fizeram um voo baixo nesse exato momento.

        Os Estados Unidos mostravam seus músculos, visando intimidar, mas, o oponente pareceu estar, à vontade no encontro, falou de tempos de união contra o inimigo nazista, da preservação de nomes russos em lugares do Alaska e elogiou a escolha do local, pois, as nações distam apenas quatro quilômetros (limites entre ilhas no Estreito de Bering). Putin pisou firme em solo estadunidense, Trump é que não parecia estar à vontade, afirmou que não houve acordo, que se tratavam de conversas iniciais e de que outras deverão ser feitas com o presidente da Ucrânia e com os líderes da OTAN.

        O caminho para a paz é sempre longo e envolve muitas negociações. Um bom acordo de paz é aquele que as partes envolvidas, saem com alguma frustração, pois não podem ter tudo, afinal, é necessário também ceder alguma coisa. Os EUA e a Europa erraram ao não envidar maiores esforços para evitar a guerra na Ucrânia e, ante a resistência heróica do povo ucraniano, se iludiram com a possibilidade de levar a Rússia à derrocada e assim enfraquecer a tentativa sino-russa da construção de uma Nova Ordem Mundial Multipolar. Essa Nova Ordem é algo inevitável, salvo uma guerra direta, cujo resultado mais previsível é apocalíptico.

        O estrategista prussiano Carl Von Clausewitz (1780-1831) afirmou: "A guerra é a continuidade da política por outros meios". Há uma frase na geopolítica que diz "é fácil prever como uma guerra iniciará, mas, jamais como terminará". O tarifaço de Trump, a mudança de parcerias comerciais entre os países, a desglobalização, a contestação à Ordem Mundial Unipolar, as questões geoestratégicas mundiais, o petróleo do Oriente Médio e da Venezuela, a cobiça estadunidense pelas terras raras groenlandesas (Dinamarca/União Europeia), chinesas e brasileiras, as guerras regionais pelo mundo, o genocídio em Gaza levado à cabo pelo segregacionista Estado de Israel, etc. Enquanto houver espaço para diálogo, a esperança persiste, no entanto, existem muitos atritos regionais no planeta e, o risco de uma faísca incendiar o mundo nunca foi tão grande.