Powered By Blogger

sábado, 6 de dezembro de 2025

Macário

 

A vida de Manoel Antônio Álvares de Azevedo foi tão breve e intensa quanto o clarão de um meteoro. Nascido em 1831, o poeta que entraria para a história simplesmente como Álvares de Azevedo partiu aos vinte anos, deixando uma obra que só veria a luz após sua morte. Ainda assim, esse curto tempo foi suficiente para que ele se tornasse o mais emblemático representante da segunda geração do Romantismo brasileiro, capturando em versos e prosas a melancolia, o tédio e os devaneios de uma juventude ardente.

            Em “Macário”, o autor constrói uma narrativa peculiar, com formato que lembra uma peça teatral, ainda que não destinada aos palcos. No centro está o jovem estudante que dá nome à obra, um aventureiro cético que, em certa noite, crê encontrar-se com o próprio Satã. Desse encontro surge um diálogo filosófico ácido, em que Macário despeja seu desencanto: para ele, o mundo é “monótono de fazer morrer de sono”, o amor não passa de uma quimera e a única realidade tangível é o dinheiro.

            Apesar da pouca idade, Macário porta-se como um homem vivido, narrando suas conquistas amorosas como meras buscas de prazer, longe de qualquer idealização romântica. Divertia-se com mulheres que considerava “erradas”, enquanto aguardava de forma quase cínica  o encontro com a “virgem fiel e dedicada”, único perfil que julgava digno de matrimônio.

            Na segunda parte da obra, a cena desloca-se para a Itália, onde entra em cena "Penseroso" (aquele que pensa). Aqui, o tom muda: se Macário ridiculariza o sentimento do amor, Penseroso é seu refém. Apaixonado por uma italiana e tomado pelo medo da rejeição, ele envereda pelo tema da morte como escape, chegando a ingerir veneno. Mesmo arrependido, no último instante, sucumbe, levantando a questão do suicídio como fuga da dor amorosa.

            A trama é um retrato fiel do universo de Álvares de Azevedo cuja obra é carregada de pessimismo, fascínio pela morte, desilusão afetiva e um profundo tédio existencial. Entre linhas, discute-se a virgindade, a inocência idealizada e a beleza inatingível, tudo temperado pela ironia mordaz do autor. Contar mais seria desvendar os fios dessa trama curta e impactante, na qual cada página respira o desalento e o brilho precoce de um talento que, como seu criador, partiu cedo demais.

 

Sugestão de boa leitura:

Título:  Macário.

Autor: Álvares de Azevedo.

Editora: L&PM, 2001, 112 p.

Nenhum comentário:

Postar um comentário