A vida de Manoel Antônio
Álvares de Azevedo foi tão breve e intensa quanto o clarão de um meteoro.
Nascido em 1831, o poeta que entraria para a história simplesmente como Álvares de Azevedo partiu aos vinte
anos, deixando uma obra que só veria a luz após sua morte. Ainda assim, esse
curto tempo foi suficiente para que ele se tornasse o mais emblemático
representante da segunda geração do Romantismo brasileiro, capturando em versos
e prosas a melancolia, o tédio e os devaneios de uma juventude ardente.
Em “Macário”, o autor constrói uma narrativa peculiar,
com formato que lembra uma peça teatral, ainda que não destinada aos palcos. No
centro está o jovem estudante que dá nome à obra, um aventureiro cético que, em
certa noite, crê encontrar-se com o próprio Satã. Desse encontro surge um
diálogo filosófico ácido, em que Macário despeja seu desencanto: para ele, o
mundo é “monótono de fazer morrer de sono”, o amor não passa de uma quimera e a
única realidade tangível é o dinheiro.
Apesar da pouca idade, Macário porta-se como um homem
vivido, narrando suas conquistas amorosas como meras buscas de prazer, longe de
qualquer idealização romântica. Divertia-se com mulheres que considerava
“erradas”, enquanto aguardava de forma quase cínica o encontro com a “virgem fiel e dedicada”,
único perfil que julgava digno de matrimônio.
Na segunda parte da obra, a cena desloca-se para a
Itália, onde entra em cena "Penseroso" (aquele que pensa). Aqui, o
tom muda: se Macário ridiculariza o sentimento do amor, Penseroso é seu refém.
Apaixonado por uma italiana e tomado pelo medo da rejeição, ele envereda pelo
tema da morte como escape, chegando a ingerir veneno. Mesmo arrependido, no
último instante, sucumbe, levantando a questão do suicídio como fuga da dor
amorosa.
A trama é um retrato fiel do universo de Álvares de
Azevedo cuja obra é carregada de pessimismo, fascínio pela morte, desilusão
afetiva e um profundo tédio existencial. Entre linhas, discute-se a virgindade,
a inocência idealizada e a beleza inatingível, tudo temperado pela ironia
mordaz do autor. Contar mais seria desvendar os fios dessa trama curta e
impactante, na qual cada página respira o desalento e o brilho precoce de um
talento que, como seu criador, partiu cedo demais.
Sugestão
de boa leitura:
Título: Macário.
Autor: Álvares de Azevedo.
Editora: L&PM, 2001, 112 p.

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