"Becos da Memória" é meu primeiro encontro com a renomada escritora, linguista e professora universitária aposentada Conceição Evaristo (1946). A escolha do livro se deveu à sua reconhecida trajetória literária e aos elogios por mim ouvidos à sua obra "Olhos d'água". A leitura confirmou a excelência, trata-se de uma escrita elegante e prazerosa que instiga a refletir sobre a sociedade que construímos.
É impossível ao ler o livro "Becos da Memória" não lembrar de "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). A leitura de uma obra não dispensa a outra. Ambas tratam do mesmo tema, mas com abordagens únicas: Carolina traz o relato bruto do cotidiano de uma pessoa abaixo da linha da miséria e moradora de uma favela, enquanto Conceição constrói um romance que instiga uma profunda reflexão filosófica e sociológica sobre a condição humana, o racismo estrutural, a desigualdade social e a resistência dos moradores de comunidades.
A autora afirma que o livro não é autobiográfico, e que "nele nada é verdade, mas também nada é mentira". Ela criou o conceito de "escrevivência" afirmando que nossa memória é falha e, ao reconstruí-la, a mente ficciona trechos, amalgamando-os. São os "becos da memória", em analogia aos becos (sem saída) da favela.
A trama trata do processo de gentrificação no centro de Belo Horizonte (cidade natal da autora) ocorrido em meados do século XX. No livro, a jovem Maria Nova (suposta alter ego de Conceição Evaristo), deseja escrever sobre a comunidade onde cresceu, sua história e as personagens que conheceu ou que sobre elas ouviu relatos das pessoas mais velhas. Na obra acompanhamos o processo de desfavelização e remoção compulsória de seus moradores para a periferia, fato que, apesar da melhoria habitacional, impõe distâncias maiores e custos de transporte que dificultam a vida das pessoas segregadas do centro transformado em cidade do cartão postal.
Evaristo mostra que a comunidade não é homogênea, e sim diversa em sujeitos e visões de mundo. É, acima de tudo, um lugar de pertencimento ancestral. Sua obra nos leva a refletir sobre desigualdade, segregação espacial, miséria e as injustiças acentuadas pela ausência do Estado onde ele é mais necessário.
Sugestão de boa leitura:
Título: Becos da Memória.
Autor: Conceição Evaristo.
Editora: Pallas, 2017, 200 p.

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