sábado, 31 de outubro de 2020
O Prêmio Nobel, o Brasil e os brasileiros
sábado, 24 de outubro de 2020
A letra escarlate
P.S. No livro e no filme, o pai da criança é revelado bem antes do final. Não foi para evitar spoiler que eu não contei, foi por ruindade mesmo! Será que cometi pecado com isso?
Sugestão de boa leitura:
Título: A letra escarlate.
Autor: Nathaniel Hawthorne.
Editora: Penguin, 2011, 336 p.
domingo, 18 de outubro de 2020
Os sofrimentos do jovem Werther
Sugestão de boa leitura:
Título: Os sofrimentos do jovem Werther.
Autor: Johann Wolfgang von Goethe.
Editora: Estação Liberdade, 1999, 200 p.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Os sertões
Ler "Os Sertões" constitui um marco na vida de um
leitor entusiasta, afinal, trata-se de um grande clássico. O fato de tratar-se
de um calhamaço (700 páginas) e o cientificismo empregado no texto do livro
assusta muita gente, mas, não devia. É importante que se diga que inúmeras
vezes o leitor precisará recorrer ao dicionário, mas, que o esforço é
grandemente recompensado. Na época em que "Os Sertões" foi escrito, a
escrita rebuscada e a abundância de termos científicos eram comuns nas grandes
obras e, o engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geógrafo, professor,
poeta, romancista, ensaísta e escritor Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha
(1866-1909) o redigiu durante cinco anos para ser um grande livro, sua
obra-prima e foi exitoso.
A obra é dividida em três partes: A terra, o homem e, a
luta. Na parte intitulada "A terra", Euclides da Cunha descreve e
explica minuciosamente os aspectos naturais da região, sua formação geológica e
geomorfológica. É importante que se diga que após 118 anos de sua publicação, o
conhecimento científico evoluiu e a obra se encontra defasada. Há também
críticos que afirmam que Euclides ousou demais e cometeu alguns deslizes
(erros) na abordagem científica. Digo que não há como ler "Os
Sertões" e não se assombrar com o gênio que o Brasil perdeu quando de sua
trágica morte aos 43 anos de idade. Na parte intitulada "O homem"
Euclides move seu olhar para o sertanejo, sua origem por meio da miscigenação e
sua forma de viver no sertão. Descreve o jagunço e o vaqueiro e cunha a frase
"o sertanejo é antes de tudo um forte". Faz isso sempre sem deixar de
ancorar o que observa in loco no
conhecimento antropológico e sociológico obtido por meio de suas leituras.
É na parte intitulada "A luta" que o escritor
vai dizer a que veio seu livro, ou seja, para denunciar o genocídio contra uma
multidão de excluídos levado a cabo pela República recém instaurada por meio do
Exército Brasileiro. É importante que se diga que Euclides foi militar e era
republicano, logo, opunha-se à restauração da Monarquia. E com esse espírito
ele acompanhou a quarta expedição militar à Canudos. Canudos era uma fazenda
abandonada na Bahia na região da caatinga e nela foi fundado o povoado de Monte
Belo pelo cearense Antonio Vicente Mendes Maciel vulgo "Antonio
Conselheiro" (1830 -1897). Antonio Conselheiro foi um asceta que
peregrinou pelo sertão pregando durante quase trinta anos, reformando e
construindo igrejas e açudes para a população pobre. Tinha uma fala mansa e
tratava a todos como irmãos e estes chamavam-no de pai. A forte religiosidade
da população sertaneja pobre levava-os a acreditar que ele era a reencarnação
de Jesus, embora, Conselheiro negasse ser. Na década de 1870 uma seca severa e
prolongada tornou a vida dos sertanejos ainda mais difícil. A elite local já
havia solicitado à Monarquia que se tomasse alguma providência contra
Conselheiro e, ele até foi preso, mas, nunca se encontrou nada contra ele,
apesar dos inúmeros boatos de assassinatos. A ascendência dele sobre a
população incomodava os coronéis (fazendeiros) da região.
O país havia passado por grandes transformações
históricas, houve o fim do ciclo da cana-de-açúcar, a libertação dos escravos
(1888) e, a consequente Proclamação da República (1889). A instauração da
República não trouxe mudanças para a população pobre, menos ainda, nos rincões
interioranos do Brasil. O país estava atrelado a uma grande e pesada dívida
externa, a moeda estava depreciada, o preço do café (nosso principal produto de
exportação) estava em queda e o governo republicano para fazer frente às
dificuldades financeiras aumentara os impostos, no entanto, o sertanejo
continuava tão abandonado quanto na época da Monarquia, porém, agora lhe eram
cobrados pesados impostos. Os fazendeiros, se irritavam com Antonio Conselheiro,
pois, os sertanejos o seguiram e com ele fundaram Monte Belo (1893), não mais
trabalhando em troca de quase nada para os coronéis. Em Monte Belo (Canudos)
construíram 5200 casebres e estavam construindo uma grande e nova igreja. Trabalhavam
nas terras e produziam alimentos que eram divididos entre todos. Produziam
farinha de mandioca, feijão, milho, batata, cana de açúcar, carne de sol
(cabras), leite e queijo de cabra. Não era muito, mas, para muitos era mais do
que tiveram a vida toda.
Antonio Conselheiro adquiriu madeiras para a igreja nova
e pagou à vista, o comerciante que não gostava de Conselheiro recebeu, mas,
resolveu não entregar a madeira. Antonio Conselheiro avisou que levaria sua
gente e traria a madeira à força para Canudos. O comerciante procurou
autoridades locais e estas solicitaram ajuda do Governo Federal. No primeiro
embate, houveram pesadas mortes no lado de Conselheiro e poucas das tropas
oficiais (a madeira não foi entregue). Como os coronéis não suportavam mais
Antônio Conselheiro juntamente com as autoridades locais ampliaram as falas de
Conselheiro que considerava a chegada da República como se fosse a do próprio
Anti-Cristo e "pintaram em seu grupo as cores" de um movimento com
ramificações internacionais para a restauração da Monarquia (algo que
absolutamente não existia). Por sua vez, a República queria dar uma demonstração
de força e Canudos seria o exemplo para todo o país. Conselheiro e sua gente
que nada recebiam em troca do Governo Federal, apenas, não queriam pagar
impostos, pois, o povoado estava progredindo e até exportando couro.
Estimulado pelas autoridades e pela elite baiana e,
também pela classe média brasileira que exigia a asfixia do movimento tido por
ela como monarquista, o governo preparou três expedições contra Canudos que
foram humilhantemente rechaçadas pelos sertanejos que, embora mal armados,
conheciam como ninguém o terreno e tinham ânimos invencíveis, pois, lutavam
pelo Conselheiro a quem tinham como o próprio "Bom Jesus" e pela vida
que, apesar de simples, nunca fora tão boa. O Governo Federal preparou uma mega
expedição com tropas de vários estados brasileiros e levou o que havia de
melhor em armamentos (canhões, carabinas, metralhadoras, fuzis, granadas,
dinamite, etc.). Após uma campanha que se mostrou mais demorada e difícil do
que se esperava, "Canudos que não se rendeu e que não foi vencida, foi
extinta". À exceção de mulheres, crianças e velhos inválidos, todos os
prisioneiros eram interrogados e degolados pelo Exército. Os mortos foram contados
em cinco mil militares e vinte mil canudenses. O arraial foi reduzido à pó e a
guerra só acabou a 05/10/1897 com a morte simultânea dos últimos quatro combatentes que de uma vala em meio a cadáveres repeliam o fogo de um
destacamento inteiro de soldados. O palco da guerra retratado em fotografia
mostrava a destruição das construções, cadáveres mutilados para todo lado e as
duas igrejas destruídas encontra-se hoje sob 18 metros de água do reservatório
de Cocorobó, que poderia ter sido construído a jusante de forma a evitar a
inundação das ruínas do arraial (escolha infeliz se, não premeditada).
Conselheiro que havia morrido cerca de duas semanas antes, teve seu corpo
exumado, fotografado e sua cabeça cortada e levada para a capital. Foi um
genocídio (mais um na conta do Exército Brasileiro) e Euclides fez questão de denunciá-lo.
Fez bem e, de forma magistral!
Sugestão de boa leitura:
Título: Os
sertões.
Autor:
Euclides da Cunha.
Editora: Ubu
Editora/SESC, 2016, 700 p.
Preço:
R$178,50 (versão com fortuna crítica) - há versões mais baratas.
sábado, 3 de outubro de 2020
A necessidade dos serviços públicos e o ódio ao servidor
O Brasil é um dos países mais injustos do mundo. O índice
de Gini utilizado para comparar a desigualdade social nos coloca na vergonhosa
7ª colocação atrás apenas de seis países africanos. O Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH) também não é motivo de orgulho, muito pelo contrário, somos o 79º
melhor país em qualidade de vida. Tendo em vista que estamos num país que é a
9ª economia do mundo, algo obviamente está errado e, há muito tempo. E se a condução
da economia nacional historicamente produziu esse gigante com pés de barro,
obviamente, não pode ser obra do acaso, mas, de um projeto. É um grande erro
dizer que o país nunca vai dar certo, para uma minoria ele sempre deu certo.
Falo dos bilionários que aumentaram em número e capital durante a pandemia, sem
que haja críticas contundentes da sociedade para tal fato, como há (e sempre
há) quando uma categoria de trabalhadores luta (por meio de greve) na
manutenção de seus direitos e pela reposição de salários defasados visando
garantir sua mera sobrevivência de forma digna. Sobre isso, Simone de Beauvoir
(1908-1986) já alertava: "o opressor não seria tão forte se não tivesse
cúmplices entre os próprios oprimidos". O trabalhador alienado é algoz de
seu semelhante e, por consequência de si mesmo.
Em um país com
tamanha desigualdade social, a oferta de serviços públicos é vital para a
sobrevivência da população pobre (trabalhadora). Sim, se você é trabalhador
assalariado, você é pobre. No entanto, surrealmente vemos pessoas
trabalhadoras, portanto, pobres (é importante repetir) que sem dinheiro para
pagar, pregam a total privatização dos serviços públicos. Que os ricos desejem
o Estado Mínimo é compreensível, não lhes falta dinheiro para pagar por tais serviços
e, também vêm na privatização dos serviços públicos uma grande possibilidade de
ganhar dinheiro, ofertando-os, mas, você que é trabalhador (pobre) não poderá pagar
por eles, quer um exemplo? Quanto custa um tratamento prolongado em UTI? E uma
cirurgia cardíaca? (É bom ter SUS). Precisa melhorar, mas, é bom ter! E quanto
custa para formar o filho em um curso de medicina numa universidade privada? (É
bom ter universidades públicas). Precisa melhorar o acesso da classe
trabalhadora a esses cursos, mas, é bom ter!
Nessa sociedade onde indivíduos sem terras defendem latifundiários,
pobres votam em milionários para legislar sobre o destino do país (e de suas
vidas) e criticam raivosamente quem tem consciência de classe chamando-os de
comunistas, como se chamar alguém de comunista constituísse ofensa, quando na
verdade é elogio, inclusive, esse escriba acha graça quando assim o chamam,
porém, (dotado de honestidade intelectual) sabe não merecer, mas, que
envaidece, envaidece. Dentre os trabalhadores (pobres) que defendem a total
privatização dos serviços públicos, há os que fazem por seu estado de alienação
e, outros por nutrir profundo ódio ao funcionalismo público. Há quem pense que
todos os funcionários públicos recebem super-salários, quando muitos sequer
recebem o salário mínimo regional. Os super-salários estão reservados a
magistrados, políticos e seus assessores em cargos comissionados. A
precarização das condições de trabalho (salarial, inclusive) do servidor
público não resultará em melhoria do serviço público e, tampouco, a oferta por
agentes não concursados resultaria.
Existem políticos e não são poucos que gostariam que os
servidores públicos não fossem concursados, pois, assim poderiam fazer das repartições
públicas seu curral eleitoral e nelas alocar os apoiadores de campanha. Cada
novo governante, trocaria os servidores, em prejuízo para a população, mas, em
benefício dos bajuladores (apadrinhados políticos). Um trabalhador concursado
teve méritos (a tão defendida meritocracia dos liberais) ao passar no concurso
público (aberto a todos), o bajulador, não. Um servidor concursado pode se
negar a fazer algo ilegal, o bajulador, sob medo de perder seu ganha-pão, faz.
Quanto a muitos serviços que foram privatizados, basta lembrar que muitos
investimentos estrangeiros em plantas industriais estão evitando o Brasil
devido ao alto custo da energia elétrica, das telecomunicações e dos transportes
e que na Europa, muitas privatizações estão sendo desfeitas devido a má
qualidade dos serviços prestados. Digo ainda que um estado de bem-estar social
(social democracia) tal como proposto na Constituição Federal de 1988 não é
comunismo, aliás, comunismo no Brasil é como a lenda do bicho-papão, porém,
usado para causar medo em adultos que não amadureceram.



