Powered By Blogger

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aqui não é o Brasil!

el          Observei neste ano que os carros 0 km não são mais vistos com tanta frequência em minha cidade como em anos anteriores. Em dezembro reapareceram em menor quantidade, mas, com um fato significativo, não são carros populares, mas, de alto valor e que logicamente foram adquiridos por pessoas mais aquinhoadas da sociedade. Lembrei que uma amiga foi a uma concessionária de outro município onde adquiriu um automóvel usado e ao notar que a loja comercializava veículos novos de alto luxo perguntou sobre a crise, e o proprietário respondeu que para ele não havia crise, pois, nunca houve redução do fluxo de vendas. Faz todo sentido, no capitalismo, em épocas de vento em popa, ninguém ganha mais dinheiro do que a burguesia, e, em épocas de crise, é a classe trabalhadora chamada a pagar a conta. Crise, cujas origens, comumente é a jogatina irresponsável dos grandes capitalistas nesse cassino global em que se transformou o capitalismo atual.
            Chama a atenção o silêncio dos manifestantes que se diziam contrários à corrupção e que foram fundamentais no encorajamento do grupo que hoje se encontra no poder e que nas palavras de Romero Jucá (PMDB) “num grande acordo nacional, com Supremo, com tudo”, estupraram a Constituição Federal, violentaram as mais elementares normas do Direito nacional e internacional desrespeitando até mesmo os Direitos Humanos e lançaram o país no grupo das nações com status de República das Bananas. Esses manifestantes não cessam de provar a sua hipocrisia, a sua desonestidade, o seu preconceito social. Nunca foram contra a corrupção. Sempre foram contra o PT, contra a classe trabalhadora, contra o que chamam de “essa ralé”, “essa gente desqualificada”. 
            Incomodava-lhes trabalhadores comprando automóveis e ocupando as ruas. Incomodava-lhes ver trabalhadores nos aeroportos. Incomodava à patroa, a empregada que utilizava a mesma marca de perfume. E incomodava muito observar que os trabalhadores, já não mais passavam fome e se davam ao luxo de escolher o emprego que melhor remunerava. A elite brasileira nunca deixou de ser escravocrata, a Lei Áurea não mudou a mentalidade dos capitalistas tupiniquins. Porém, a elite não é culpada de tudo, pois, ela tem forte apoio de pessoas da classe trabalhadora, que surrealmente formam um grande contingente de pobres de direita, dado o seu analfabetismo político, têm amor aos grilhões, à chibata e ao pelourinho do século XXI que atende pelo nome de Capitalismo Selvagem. São os escravos que não podem ser libertos, pois, não são conscientes de sua condição de escravidão.
Outro importante papel na manutenção da sociedade injusta que temos é aquele exercido pela pequena burguesia, que constitui verdadeira massa de manobra da grande burguesia nacional e internacional. São os feitores de escravos modernos, fazem a sustentação de um sistema que beneficia uma minoria de milionários e bilionários, tal como os feitores de escravos, muitas vezes negros, eram cruéis com sua própria gente, e se sentiam importantes, melhores do que os escravizados. Pensavam ter a consideração do Senhor de escravos que, no entanto, jamais o convidava para sentar-se à mesa para jantar na Casa Grande. Assim é a pequena burguesia, quer ser rica, como dizia Cazuza, porém, depende da classe trabalhadora para sobreviver, precisa vender seus produtos a ela, mas, por meio do voto ou do apoio a golpes de Estado ajuda a grande burguesia que vende para o mercado externo, a reduzir os salários dos trabalhadores que comprarão menos e consequentemente minguarão as vendas e os lucros no mercado interno. A pequena burguesia é extremamente alienada e não consegue sequer perceber o papel de massa de manobra que historicamente sempre desempenhou.
            A reforma trabalhista apresentada como benéfica para a classe trabalhadora é um embuste. A CLT e a Constituição Federal jamais negaram aos patrões o direito de oferecer benefícios extras aos trabalhadores. A reforma trabalhista apenas beneficia o patronato. O objetivo agora é a inviabilização de Lula, mesmo sem provas contra ele, senão o golpe não fecha. Vivemos um Estado de exceção, a Justiça já deu provas suficientes de seu partidarismo, de sua parcialidade e da corrupção que lhe impregna as entranhas. As instituições estão podres. A Grande Mídia é antidemocrática. A grande burguesia nacional que é impatriótica deseja e está conseguindo fazer o país voltar ao estágio de colônia das metrópoles.
          Desde que assumiu o poder por meio de um golpe de Estado, Michel Temer tem feito jantares sofisticados e oferecido cargos e recursos financeiros para os deputados apoiarem reformas que prejudicam a população e beneficiam banqueiros e grandes capitalistas nacionais e estrangeiros. Qual teria sido a repercussão se Lula ou Dilma tivessem feito tais jantares e oferecido cargos e recursos financeiros a deputados mesmo que com outros objetivos? A Grande Mídia permaneceria calada? Os batedores de panela ficariam calados? Afinal, Temer está no poder, por causa dos opositores à Dilma. Aos manifestantes que bateram panela e apoiaram o golpe de Estado. Temer era para ser sempre um vice decorativo. A culpa de Temer no poder, e da reforma trabalhista, da reforma previdenciária e do entreguismo dos recursos naturais e das estatais é dos opositores que contribuíram para o golpe.  Mas saber isto não nos redime! Somos todos covardes em ver o país sendo destruído e nada fazermos! O povo argentino em manifestação contra as reformas do governo Macri, bradou: aqui não é o Brasil! Fiquei com vergonha! Com muita vergonha!  

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O essencial é invisível aos olhos!

               Na obra mundialmente consagrada de Antoine de Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”, que deve ser lida tanto pelo público mais jovem e também pelo público adulto, Saint-Exupéry cunha uma frase que considero emblemática dentre outras tantas não menos significativas: “o essencial é invisível aos olhos e só poder ser visto pelo coração”! 
                No governo Jaime Lerner (PFL – atual DEM), ocorrido no período de 1995 a 2002, o famoso arquiteto demonstrou como político e gestor que é um bom arquiteto. Sua gestão foi péssima, endividou o estado do Paraná, promoveu uma política de arrocho salarial sem a reposição da inflação ao magistério paranaense, atrasava o pagamento de promoções, progressões e gratificações estabelecidas em lei. Além disso, contra a vontade do povo paranaense tentou privatizar entre outras estatais a Copel, além do Banestado, cuja privatização foi uma espécie de queima de arquivos por conta do escândalo da CPI do Banestado cujas contas CC5 enviaram ilegalmente para o exterior cento e trinta e quatro bilhões de dólares em plena época das privatizações tucanas de FHC
              O doleiro envolvido no escândalo Banestado era Alberto Youssef, o delator premiado com uma redução de pena de 122 anos para três anos na Operação Lava-jato. O juiz da época era Sergio Moro, o mesmo da operação Lava-jato. Havia vários políticos e empresários ligados ao grupo que estava no poder, tucanos e atucanados. Apesar das provas, tudo foi arquivado e todos escaparam ilesos. Não vinha ao caso! Contribuía para isso o Procurador Geral da República, Geraldo Brindeiro, que ficou conhecido como “Engavetador Geral da República”, uma versão anterior de Raquel Dodge, que ainda não nos cabe julgar, mas, cuja expectativa do governo golpista e corrupto de Temer é a de que exerça este papel (num grande acordo nacional, com Supremo, com tudo...).
            Lerner fazia um governo que no entender da oposição, e também desse escriba acabava quando a TV era desligada. Havia muito marketing e pouca eficiência na gestão. A mídia constrói gigantes com pés de barro. Ao se fazer um exame acurado eles não se sustentam. Jamais concorreu a outro cargo público. Nesse clima de revolta com o arrocho salarial, de escolas com os repasses de recursos para a manutenção das mesmas, congelados e atrasados, este escriba e centenas de outros colegas, foram a um curso de motivação (lavagem cerebral) promovida por uma empresa privada paga a preço de ouro, realizada em Faxinal do Céu, município de Pinhão (PR) com recursos oriundos de empréstimo junto ao Banco Mundial
            Universidade do Professor, marketing perfeito, mas, para motivar os trabalhadores em educação, o sensato seria melhorar suas condições de trabalho. Greves se fizeram sem visar avanços, mas, para não perder direitos. Jaime Lerner e seu partido representavam a ponta de lança do neoliberalismo nacional. Em uma das oficinas, assisti a um filme intitulado “Festa de Babette”, em que uma cozinheira francesa se refugia na casa de duas irmãs dinamarquesas fugindo da Comuna de Paris. Trabalha de graça em troca do abrigo. Babette ganha na loteria e gasta toda a sua fortuna num jantar para as irmãs e seus convidados com o que há de mais fino na gastronomia francesa. Na época com o coração magoado pelos maus tratos do governo, eu e vários colegas não entendemos o significado do filme. Pensamos ser ridículo, gastar a fortuna de uma vida num jantar e viver como pobre no dia seguinte. Apesar de que na película, a personagem falava: “eu sou uma artista e artistas nunca são pobres”.
            Hoje, após publicar meu livro e todos os cuidados que tive visando à perfeição, a revisão, a capa, o papel, o tamanho da fonte, o lançamento, etc., entendo isso. Neste mesmo sentido, arquitetos elaboram para si, projetos que visam à perfeição, tantas vezes podados por seus clientes. Engenheiros automobilísticos constroem carros-conceitos cuja perfeição e alto valor agregado tornam seu custo de produção inviável para a produção comercial. O “essencial é invisível aos olhos, só se pode ver com o coração” ensinou Saint-Exupéry, da mesma, forma, desejo a você caro (a) leitor (a) que esse mundo que se apresenta nunca turve o seu olhar!

sábado, 16 de dezembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” Parte 5

            O Presidente John Fitzgerald Kennedy assassinado no dia 22 de Novembro de 1963 em Dallas no Estado do Texas, JFK como era conhecido faz parte do rol dos presidentes estadunidenses que não terminaram seus mandatos. A lista inclui além de JFK: Abraham Lincoln (1865); James Garfield (1881); William McKinley (1901). Outros nove presidentes sofreram atentados, mas, sobreviveram: Andrew Jackson (1835); Theodore Roosevelt (1912); Franklin Delano Roosevelt (1945); Harry Truman (1950); Richard Nixon (1974); Gerald Ford (1975), Jimmy Carter (1979) e Ronald Reagan (1981). Não se pode afirmar com certeza, mas, talvez as incumbências do cargo, contribuíram para as mortes naturais de quatro presidentes: William Henry Harrison, problemas pulmonares (1841); Zachary Taylor, complicação gastrointestinal aguda (1850); Warren G., infarto (1923); Franklin Delano Roosevelt, de AVC (1945). 
            Ocupar o cargo de mandatário mais poderoso do mundo tem seus riscos. JFK passou por um período turbulento da Guerra Fria, em que sentiu o vento quente da guerra termonuclear soprando-lhe o rosto. No governo, logo entendeu que havia um Estado dentro do Estado e que no entender dos militares caberia ao presidente chancelar as decisões destes. Porém, JFK esteve na guerra, e, certa vez confidenciou a um assessor que se atendesse a tudo que os militares solicitavam, a espécie humana estaria extinta em questão de horas. 
         Quando houve a tentativa de invasão da Baía dos Porcos em Cuba, JFK não aprovou o bombardeio aéreo de Cuba solicitado pela CIA, por receio de que a URSS pudesse intervir. A tentativa de invasão resultou em fracasso. Em 1961, durante a crise dos mísseis, os militares queriam ir para cima da URSS, mas, JFK e Nikita Krushev (URSS) chegaram a um acordo evitando o fim do mundo. Pairam inúmeras dúvidas sobre as circunstâncias da morte de Kennedy e seus possíveis envolvidos, talvez, da própria CIA. No lado soviético, Nikita Krushev perdeu apoio político no PCUS, pois, ao evitar a guerra nuclear, retirando os mísseis de Cuba, teria demonstrado fraqueza. 
             A arrogância estadunidense levaria a nação ianque ao desastre da Guerra do Vietnã (1959-1975), ocasião em que os EUA apoiavam uma ditadura capitalista no Vietnã do Sul contra os guerrilheiros comunistas que desejavam a derrubada da ditadura capitalista, a reunificação do país e a adoção do sistema socialista considerado de caráter mais nacionalista. Apesar do imenso poderio tecnológico e militar, e de ter utilizado armas químicas, Tio Sam sofreu uma enorme derrota contra um adversário fraco, porém, determinado a defender seus ideais. Essa derrota abriu uma enorme cicatriz na face dos EUA. 
             A crise do petróleo de 1973-1980 foi resultante das guerras árabe-israelenses, quando em represália, os países árabes resolveram utilizar o petróleo como arma política reduzindo a produção e a exportação, o que elevou substancialmente o preço do barril de petróleo causando inflação global. De má-fé, a crise foi anunciada como resultante do esgotamento do modelo Keynesiano e do Estado de Bem-Estar Social.
                  Os teóricos neoliberais da Escola de Chicago (Chicago boys) que tinham utilizado o Chile do ditador Augusto Pinochet como laboratório do neoliberalismo, agora pretendiam ir ao centro do sistema, e de lá irradiá-lo para o mundo todo. A “Dama de Ferro” Margareth Thatcher na Inglaterra (1979), e Ronald Reagan (1981) que foi ator e presidente do sindicato dos artistas iniciaram o trabalho de desmonte dos Estados de Bem-Estar Social e de toda a regulação da economia então existente. Fizeram reformas, retirando direitos trabalhistas e envidaram esforços na destruição ou enfraquecimento de sindicatos para beneficiar a acumulação capitalista, o que aumentou a desigualdade social em seus países, bem como a miséria, até então praticamente inexistente. 
            As grandes corporações financeiras e industriais passaram a dominar o Estado e os investimentos sociais foram e continuam a ser reduzidos. O Estado, por meio do Governo, independentemente do partido no Poder, passou a ser uma espécie de cartório para carimbar as solicitações da alta burguesia. A livre-negociação ou a “lei da selva” se tornou o mantra sagrado dos capitalistas nas suas relações com a classe trabalhadora. O livre-mercado é defendido quando beneficia os EUA, porém, diante de concorrentes mais competitivos, é substituído pelo velho protecionismo. Quanto ao protecionismo dos outros, este é aberto por meio de pressões, chantagens ou dos músculos de Tio Sam.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 4

     O primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) sempre se jactou da superioridade do povo anglo-saxão. Durante o período da colonização da África e da Ásia, os europeus afirmavam empreender uma missão civilizatória em benefício do povo africano e/ou asiático. Nada mais falso, o fardo do homem branco foi e continua a ser carregado pelos povos explorados, pois, suas riquezas se tornaram a causa de sua pobreza e das guerras que assolam principalmente o continente africano. 
                Os Estados Unidos que poderiam ter empreendido um papel proativo nas causas humanitárias e ambientais saíram pela tangente. Mas, os EUA, talvez por ser uma nação de colonização anglo-saxã adotaram o discurso do fardo do homem branco. A missão civilizatória dos EUA consiste em fazer guerras, invadir países, financiar e apoiar golpes de Estado. 
            Sob o falso discurso da defesa da democracia apóiam a implantação de ditaduras capitalistas para supostamente evitar ditaduras comunistas. Destroem a infra-estrutura dos países que lhe servem de alvo para em seguida oferecer suas empresas de engenharia para a reconstrução mediante pagamentos ou concessões. Enfim, os EUA com seu aparato bélico em ação estão a dizer: OK, garotos queremos negócios! O que vocês têm a nos oferecer em troca da nossa “Pax americana”? 
            Os Estados Unidos buscam impor ao mundo o “american way of life”, no entanto, segundo Perry Anderson citado por Kiernan: “se todos os povos da Terra possuíssem a mesma quantidade de geladeiras e automóveis quanto os da América do Norte e da Europa Ocidental, o planeta se tornaria inabitável. Hoje na economia global do capital, o privilégio de poucos exige a miséria de muitos para ser sustentável”. 
            Kiernan cita ainda Walter Lippmann: “todos pensam nos Estados Unidos como um império exceto o povo dos Estados Unidos. Nós nos arrepiamos com a palavra “império”. Insistimos que ela não deveria ser usada para descrever o domínio que exercemos do Alasca até as Filipinas, de Cuba ao Panamá, e além. Pensamos que tem de haver outro nome para o “trabalho civilizatório” (aspas nossas) que fazemos de modo “tão relutante” (aspas nossas) nesses países atrasados”.
               Ainda sobre a alienação do povo estadunidense acerca do papel global desempenhado por seu país, Kiernan cita Midge Decter, biógrafo adulador do então secretário de defesa Donald Rumsfeld: “Afinal de contas, os americanos são em geral pessoas boas, provavelmente as melhores do mundo, com medo da mesquinhez em outros, e talvez até mais temerosos da acusação de serem eles mesmos mesquinhos”. Kiernan afirma: “o americano médio acredita que os EUA dediquem 15% do orçamento nacional a ajuda externa, em vez do número verdadeiro de 0,1% o que faz do governo americano o menos generoso dentre as 22 nações da OCDE” (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). 
                Contribui para o analfabetismo político de considerável parcela da população estadunidense, a grande mídia, que é considerada antipatriótica pelas lideranças políticas, e até mesmo por outras empresas de mídia, sempre que se posiciona contra guerras ou interferências dos EUA em outros países. O ex-presidente George H.W. Bush citado por Kiernan, e se referindo a um avião iraniano lotado com 290 civis derrubado pelos Estados Unidos afirmou: “Eu nunca pedirei desculpas pelos Estados Unidos. Os fatos não me importam”. E assim são os EUA, que até hoje não pediram desculpas pelo lançamento das bombas atômicas contra o Japão. Acredito que tal nação continue a agir dessa forma até a extinção da humanidade neste pequeno planeta, que poderá ocorrer, quem sabe, por meio de bombas atômicas.

sábado, 11 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 3

        No final da Segunda Guerra Mundial, soldados estadunidenses e soviéticos comemoravam juntos às margens do Rio Elba a vitória sobre as tropas alemãs. Não podiam imaginar que o caminho da cooperação trilhado por suas nações seria abandonado no período seguinte conhecido como Guerra Fria. Hoje se sabe que o Japão estava disposto à rendição ainda em Maio de 1945, pois, sabia que a prometida entrada da União Soviética no front asiático era sua sentença de morte. Fazia uma única exigência: a preservação do Imperador tido como um semideus na tradição japonesa ante a afirmativa estadunidense de que não poderia impor nenhuma condição. 
        O desejo dos EUA de não mais cumprir as cessões já acordadas de áreas de influência para a União Soviética, o levam a lançar as bombas atômicas para intimidar esta, porém, Stalin por meio de seus espiões já sabia da bomba antes mesmo da explosão experimental (Trinity) no deserto de Alamogordo. Stalin mantém suas intenções por áreas de influência e acelera o programa nuclear soviético. 
        O presidente Truman, considerado despreparado para o cargo que assumiu após a morte de Roosevelt acreditava que os soviéticos jamais conseguiriam desenvolver sua própria bomba atômica. Ele estava enganado, os EUA ficaram pouco tempo no monopólio do poder nuclear. Algo já esperado pelo físico Julius Robert Oppenheimer líder do projeto Manhattan, afinal, “não havia segredo a esconder de um país que contasse com bons físicos”. 
            A Guerra Fria se traduziu numa disputa por áreas de influências entre os EUA e a URSS. Nunca houve um confronto direto, pois, este se traduzira na M.A.D. (mutually assured destruction), a destruição mutuamente assegurada tendo em vista o tamanho de seus arsenais nucleares. O mundo passou a ser dividido entre países alinhados aos EUA ou à URSS. Houve também o grupo dos não alinhados que discordavam da forma de agir de ambas as superpotências. 
             Após o soco no estômago recebido pela Revolução Cubana de 1959, os EUA não mediram mais esforços para intervir em outras nações especialmente as latino-americanas. A nação ianque preferia ditaduras a regimes socialistas em seu quintal. Várias destas nações sentiram-se envolvidas na Guerra Fria, quando golpes de Estado patrocinados, estimulados ou até orquestrados por Washington foram postos em prática. Malas de dólares foram dadas para generais corruptos do Exército Brasileiro. O Brasil recebeu em seu litoral uma frota estadunidense inteira inclusive com porta-aviões para apoiar o golpe caso o Exército não conseguisse dar conta do recado. 
             Os EUA treinaram militares brasileiros na prática de métodos de interrogatórios (tortura) na chamada Escola das Américas. O Brasil repassou seus ensinamentos aos países vizinhos que implantaram ditaduras com o aval e assistência técnica e financeira dos EUA (justamente o país que se declara o maior defensor da democracia no mundo). Sobre isto o presidente João Goulart deposto em 1964 disse: “Os EUA falam muito em democracia, mas, deveriam permiti-la”. 
         Em 1965, um ano após o golpe, empresas estrangeiras, principalmente estadunidenses, começaram a desfrutar dos benefícios da troca do governo democrata e patriota de João Goulart pela entrada de um governo autocrata e dócil a Washington. O caminho para os recursos naturais e o mercado brasileiro estava agora plenamente acessível. Veio o famigerado AI-5, o fim das garantias individuais, as prisões ilegais, as torturas, os assassinatos, a censura, etc. E até hoje, se busca ocultar o que ocorreu naquele período (1964-1985), mas, que parafraseando Kiernan ao falar do Haiti, compreende também o Brasil: “há um excesso de cadáveres no armário. Também, é claro, quanto mais tirânico e impopular um ditador, mais ele está ligado por lealdade a Washington”.

sábado, 4 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jônatas se transformou em Tio Sam” - Parte 2

          O estímulo concedido à economia dos EUA pelos países em esforço de guerra havia passado. Os EUA entraram, então, na sua maior crise econômica (1929). Os índices de desemprego e de pobreza eram alarmantes. Os preços das ações na bolsa de valores de Nova Iorque despencaram. Tal como na brincadeira de enfileirar peças de dominó, a crise se alastrou pelo planeta, derrubando as economias de inúmeros países. 
          O presidente Franklin Delano Roosevelt lançou o plano New Deal, cuja ênfase se deu em maciços investimentos estatais em infraestrutura, na forte regulação e intervenção estatal na economia para o constrangimento dos liberais radicais. No entanto, graças ao intervencionismo estatal amparado na teoria econômica de John Maynard Keynes, o capitalismo estadunidense foi salvo da ação destruidora dos próprios capitalistas. 
            Segundo Kiernan, “na Alemanha nazista, o capitalismo era recuperado por meios ainda mais drásticos, eliminando agitadores socialistas ou sindicalistas” (e pensar que em pleno século XXI, ainda há analfabetos políticos que acreditam que o governo de extrema direita de Hitler era socialista, apesar de este ter enviado milhares de socialistas e sindicalistas para as câmaras de gás). 
           Antes de finda a Segunda Guerra Mundial, o mundo mergulha na Guerra Fria. Os Estados Unidos da América resolve apressar o fim da guerra para evitar maiores perdas de vidas de soldados estadunidenses. O presidente Harry Truman autoriza o uso das famigeradas bombas atômicas contra o Japão. Segundo especialistas, a ação foi injustificada, pois, mantido o cerco naval, em poucas semanas, o Japão se renderia. Os EUA, pensando no mundo pós-guerra, resolvem fazer uma demonstração de poder ao mundo, e principalmente à União Soviética (sua aliada na luta contra a Alemanha nazista) e futura adversária na Guerra Fria. 
               Os EUA se tornam a primeira e única nação covarde o suficiente para utilizar o mais poderoso e vergonhoso artefato bélico já inventado contra uma população civil. Milhares de pessoas morreram na hora. As sobreviventes, certamente invejaram aquelas que morreram instantaneamente, devido aos terríveis sofrimentos e sequelas que lhes foram impostos. No Japão, ainda hoje, nascem pessoas com deficiências e má-formação congênita resultantes de alterações genéticas de seus ascendentes, sobreviventes do maior ato terrorista da humanidade, infligido pela nação mais terrorista da história. 
             A indústria bélica estadunidense é a mais desenvolvida do planeta e tem em seu próprio país, o maior comprador de armas. Ninguém investe tanto em armas e as utiliza tanto. Nenhuma nação fez mais intervenções em assuntos internos de outros países que os EUA, e para tal se utilizam do “Soft Power” que se traduz em pressões diplomáticas ou econômicas, e quando este falha, a opção seguinte é a utilização do “Hard Power”, quando o país exibe e utiliza seus músculos. 
            No entender de Kiernan: “a colossal máquina de guerra estadunidense é o punho que se esconde por trás da “mão invisível” do mercado”, e que torna possível a abertura de mercados para os produtos estadunidenses, e faz de sua economia, a superpotência que é. Ou ainda, conforme Michael Ledeen, citado por Kiernan: “a cada dez anos mais ou menos, os Estados Unidos precisam pegar algum país pequeno e sem importância e jogá-lo contra a parede, só para mostrar ao mundo que queremos negócios”. 
               A economia dos Estados Unidos foi enormemente beneficiada pelas duas Guerras Mundiais, pois, não sofreu grandes perdas por seu território não ser palco delas (exceção ao Havaí). Por ser grande provedor de armas e víveres para as nações em esforço de Guerra, os estoques de ouro das nações européias foram conduzidos aos cofres estadunidenses como pagamento. O país passou a ter banqueiros a financiar atividades econômicas no mundo todo, sendo estas de iniciativa de compatriotas ou não.
         Sempre disposto a desenvolver o capitalismo, a nação estadunidense por meio de seu representante na ONU sugeriu aos países subdesenvolvidos que realizassem a reforma agrária, pois, esta é essencial para elevar padrões de vida e de consumo da população. Então, para os EUA, a reforma agrária é ótima para o capitalismo. No entanto, as elites alienadas dos países latino-americanos não gostaram da idéia e afirmaram ver nela indícios de socialismo. O estranho é que a tal “proposta socialista” veio do país mais capitalista do planeta. Estão certos os Estados Unidos ou as “sábias” elites latino-americanas?

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 1

            O professor escocês Victor Gordon Kiernan (1913-2009) foi dono de uma mente iluminada, cujo conhecimento, mesmo após sua partida desse plano, continua a trazer luzes sobre as sombras da ignorância, que despudoradamente já não mais se escondem. Nestes tempos em que segundo Umberto Eco “a Internet e as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, pessoas não afeitas ao hábito da leitura e da reflexão se julgam donas de um saber que de fato não possuem, pois, ao se utilizarem do mero senso comum, de forma pretensiosa e arrogante, reduzem à mera opinião pessoal, todo o conhecimento científico exaustivamente produzido por intelectuais da área das humanidades. Tal fato confirma a constatação do saudoso geógrafo Milton Santos quando afirmou: “é muito difícil ser intelectual no Brasil. As pessoas não gostam de ouvir”. 
          Sabemos que a neutralidade científica inexiste, e, que todo posicionamento é político, e, portanto, ideológico, principalmente aquele que se diz neutro, pois ao se esconder por trás de uma impossível neutralidade, visa ocultar suas reais intenções para dela tirar proveito ou em benefício de outrem (pessoa, grupo ou classe social), no que desvela o caráter conservador e dissimulado. O intelectual é chamado a fazer a opção entre desenvolver ciência com viés inclusivo ou exclusivo, mas, isto jamais pode ser considerado mera opinião pessoal (senso comum).
          A obra: “Estados Unidos, o novo imperialismo: da colonização branca à hegemonia mundial”, mostra o caminho trilhado pelos Estados Unidos da América desde quando o navio Mayflower trouxe a primeira leva de imigrantes a se estabelecer nas terras que mais tarde formariam o país. Nos primórdios da nação ianque foram estabelecidas as treze colônias da Nova Inglaterra, as quais se encontram representadas nas faixas da atual bandeira (sete vermelhas e seis brancas). 
          A declaração de independência em IV de julho de 1776 teve como resposta da Inglaterra, uma guerra que durou até 1783. Reconhecida a independência pela Inglaterra, o Irmão Jonatas (como os ingleses chamavam os EUA quando ainda podiam considerá-lo um irmão caçula e não um pai de família) se lançou numa conquista territorial que se fez com cessões por parte do primo John Bull (como os estadunidenses chamam a Inglaterra) e da Espanha, aquisições territoriais junto à França e à Rússia, e de muito sangue derramado dos habitantes nativos peles-vermelhas, sobre os quais um cultuado herói estadunidense chegou absurdamente a afirmar: “índio bom é índio morto”. 
         Os indígenas que se recusaram a vender suas terras pelas ninharias determinadas pelas companhias colonizadoras, ou mudar-se para as reservas criadas em locais diversos ao solo sagrado de seus ancestrais, foram vítimas de massacres levados a cabo pelo próprio exército nacional. O México foi a principal nação prejudicada, pois, perdeu grande parte de suas terras (se de onde estamos, os EUA já incomodam, imagine sendo seus vizinhos). As pretensões da nação ianque não foram plenamente atingidas, pois, elas abarcavam a totalidade do território mexicano e a ilha de Cuba, isto sem falar em inúmeras ilhas do Oceano Pacífico.
             Em 1860, o presidente Abraham Lincoln iniciou seu mandato e logo em seguida ocorreu a deflagração da Guerra Civil ou de Secessão. O sul escravocrata sob a bandeira dos Estados Confederados da América pretendia separar-se do restante do país, dentre outras razões, e principalmente, para continuar a escravizar a população negra introduzida à força no território. Abraham Lincoln, em meio ao esforço de guerra, se reelege em 1864, as tropas da União vencem a guerra, e logo no início de seu segundo mandato (1865), Lincoln é assassinado por um ator defensor da causa sulista, enquanto assistia a uma peça no Teatro Ford
            Mesmo após sua formação territorial, os EUA ainda agiam como sendo o Irmão Jonatas. Embora sua estatura houvesse aumentado enormemente, como adolescente não sabia ainda como se portar no palco das nações. Titubeava entre ser um país solidário com as demais nações cujo grau de desenvolvimento lhe era inferior, ou fazer como seu primo John Bull (Inglaterra) e lançar-se ao mar para fazer guerras contra povos considerados atrasados e pilhar suas riquezas. Os EUA não demorariam muito a optar pela segunda opção. 
            Inicialmente, capitalistas ianques foram adquirindo terras e empresas na América Central, aproveitando-se das elites corruptas e entreguistas destes países, e com o auxílio governamental estadunidense na manutenção destas no poder. O caráter das elites latino-americanas é definido da seguinte forma pelo Padre Combrin citado por Kiernan: “as elites da América Latina são as mais alienadas do mundo, são cheias de pesar por não terem nascido européias ou norte-americanas”.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

“A falta que Brizola faz”

Em 15 de Novembro de 1989, o país comemorava o centenário da Proclamação da República, embora isto significasse muito pouco para um povo acostumado a não participar dos momentos decisivos da história nacional, geralmente tramados e executados pela elite. Acertadamente Lima Barreto afirmou: “o Brasil não tem um povo, mas um público. Povo luta por seus direitos e público apenas assiste de camarote”. Por ocasião da Proclamação da República tivemos algo que é rotineiro no Brasil: um golpe de Estado que visava atender os interesses da elite, e como é costume, o povo brasileiro se mostrou indiferente. Somos um país de tradição autocrática, os golpes de Estado se sucedem periodicamente após breves hiatos democráticos. Talvez por isso, que mesmo entre os trabalhadores é comum observar pessoas que pedem a volta de regimes ditatoriais. Em nosso país, a cultura democrática não está amadurecida. De um lado temos uma elite parasita que desde os primórdios da história da pátria suga os recursos públicos para fazer a manutenção dos injustos privilégios que desfruta à custa de milhões que não têm o mínimo para viver com dignidade. De outro, temos um povo com baixa instrução e reduzidíssima consciência política e de classe que contribui para a sustentação da parcela que os explora. Quando a Itália concluiu seu processo de unificação, o político Massimo D’Azeglio disse: “fizemos a Itália, precisamos agora fazer os italianos”. Massimo sabia que não se faz um país apenas com o território. É necessário um povo com sentimento de pertença ao território e ao sonho conjunto de nele construir uma grande nação. A Itália unificou seu território e foi bem sucedida na criação do povo italiano. Talvez devêssemos entrar em contato com historiadores e cientistas políticos italianos solicitando ajuda sobre como criar no Brasil, o povo brasileiro. Um povo com sentimento de pertença a este chão, e que seja comprometido em fazer deste rico território, aquilo que por natureza lhe está inevitavelmente reservado, ser uma grande nação, não apenas em tamanho de território. Afinal, ser uma potência é a vocação natural do Brasil. Se ainda não é, isto se deve às sabotagens de uma elite mesquinha, egocêntrica, cruel e com mente colonizada que prefere fazer o papel de feitor de escravos de seu povo em troca de benefícios espúrios a serviço dos senhores de escravos do grande capital nacional e estrangeiro. Neste momento obscuro pelo qual passa o país do “futuro”, que teima em nunca chegar e diante da crise moral em que se encontra, a falta de um grande líder político é muito sentida por todos aqueles que ainda têm em seus espíritos uma chama de patriotismo acesa. E esse líder é o saudoso Leonel de Moura Brizola (1922-2004). Brizola dedicou sua vida às grandes causas nacionais. Era acima de tudo um patriota. Orador eloquente, sua fala não passava despercebida, emocionava as pessoas que compartilhavam de seus ideais e irritava profundamente seus adversários. Escrevia tão bem quanto falava. A grande mídia lhe recusava espaço para divulgar seus pronunciamentos sempre de forte conteúdo, por isso, com recursos próprios e de seus companheiros comprava espaços na mídia para publicar seus artigos conhecidos como “tijolaços”. O grupo Globo lhe fazia oposição e buscava a todo custo prejudicar a sua imagem e campanhas políticas. Brizola, porém, nunca se curvou. Afirmava que não era caro o preço a se pagar para manter a dignidade e o caráter intactos. Vários de seus artigos foram direcionados em tom de resposta ao grupo Globo, e outros em forma de denúncias acerca de favorecimentos concedidos por governos e empresas estatais às empresas do referido grupo. Considerava o império midiático de Roberto Marinho (1904-2003) uma ameaça à população brasileira e à democracia nacional. Em certa oportunidade entrou para a história do jornalismo nacional ao ganhar na justiça um direito de resposta em horário nobre, mais especificamente durante o Jornal Nacional. O direito de resposta em questão foi lido pelo próprio apresentador âncora do JN Cid Moreira. Uma dura resposta à Globo e a Roberto Marinho, o que causou o êxtase da parcela mais esclarecida da sociedade. No dia 15 de Novembro de 1989, este escriba, então um jovem, depositava seu primeiro voto numa urna, e este foi em Leonel Brizola. Políticos como Brizola fazem muita falta neste momento sombrio pelo qual passa o país em que valores como o patriotismo e a decência na ocupação de cargo eletivo viraram tema de ficção, pois, a julgar por suas atitudes, grande parcela dos representantes eleitos zombam da sociedade. É importante que se diga que Brizola não se acomodaria ante o estado de coisas ocorridas após junho de 2013, quando milhões de manifestantes que se diziam insatisfeitos com a corrupção foram transformados em massa de manobra (devido o seu elevado grau de analfabetismo político), desestabilizando um governo democraticamente eleito e oportunizando a condução (via golpe) ao Poder de um grupo político que representa o suprassumo da corrupção nacional e que está destruindo qualquer possibilidade de desenvolvimento soberano do Brasil. O “público” brasileiro segue assistindo a destruição do país, a entrega de seus ricos recursos naturais ao capital estrangeiro e o desmonte da tímida tentativa de criação de um Estado de Bem-Estar Social. Rosa Luxemburgo disse: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Apáticos como são, os brasileiros sentem-se confortáveis presos aos grilhões da TV Globo, e não enxergam em suas miseráveis existências, a senzala da vida real!

 Sugestão de boa leitura:

 Tijolaços – Leonel Brizola – Ed. Galpão de idéias Leonel Brizola. 2017.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Não é comigo!

“Esta é uma estória sobre quatro pessoas: Todo Mundo, Alguém, Qualquer Um e Ninguém. Havia um importante trabalho a ser feito, e Todo Mundo tinha certeza que Alguém o faria. Qualquer Um poderia ter feito, mas Ninguém o fez. Alguém se zangou porque este era um trabalho para Todo Mundo. Todo Mundo pensou que Qualquer Um poderia fazê-lo, mas Ninguém imaginou que Todo Mundo deixaria de fazê-lo. Ao final, Todo Mundo culpou Alguém quando Ninguém fez o que Qualquer Um poderia ter feito”. A frase citada (de autoria desconhecida) é muito utilizada no meio empresarial, mas se encaixa muito bem ao momento que vivemos em nosso país. Afinal todas as pessoas esperam que as demais tenham o comprometimento, a honestidade, a dedicação, o respeito às leis, o patriotismo, o interesse no bem coletivo, a retidão de caráter, que, raramente seus rígidos padrões adotados lho aprovariam caso fosse avaliado pelos mesmos critérios aos quais julga os demais. Recentemente, um presidenciável viajou à Paris e fez uma “reunião de faz de conta” com uma importante autoridade local, haja vista que a referida autoridade não se encontrava na cidade, dessa forma, a reunião não aconteceu, mas, a notícia acerca da reunião sim, afinal, na sociedade atual se um evento ocorre, mas não é divulgado na mídia, afirma-se que ele não ocorreu! Esse tipo de gente pensa que para algo ocorrer não há a necessidade de sua materialidade, mas de sua publicização. Já tivemos em nosso país um caçador de marajás, que jamais caçou marajás. A Grande Mídia passa seus dias procurando encontrar um novo Salvador da Pátria de mentirinha, pois, se for de verdade não interessa às grandes oligarquias nacionais, que são abutres e desejam ter mais carniça, para se alimentar de seus despojos. Em nosso país, temos um “Presidente de faz de conta”, ele finge defender os interesses nacionais! Ele finge que tem alguma legalidade, mas ocupa seu cargo por meio de um Golpe de Estado Suave e sofisticado, que contou com o apoio do Departamento de Estado Americano. Uma vez no poder, Temer mostra a que veio, não para de entregar as riquezas nacionais estratégicas para grupos estrangeiros protegidos sob as bandeiras nacionais de potências, que não fizeram outra coisa na história do capitalismo mundial, que saquear as riquezas de outros povos e promover massacres, cujas vítimas são incontáveis, pois foram varridas para debaixo do tapete dos vencedores. O usurpador do cargo eletivo máximo da nação age com maldade impetuosa contra a classe baixa e média, porém, de forma terna, amistosa e generosa com a alta burguesia nacional e estrangeira. Para completar o quadro de pesadelo que o país vive, e parafraseando François Guizot (1787-1874), temos como ponta de lança do Judiciário “magistrados de faz de conta” cujos recintos nos quais trabalham foram contaminados pelo partidarismo político e munidos da parcialidade, da seletividade, há muito a Justiça se retirou pela porta dos fundos, escorraçada e humilhada. No Congresso, os “representantes de faz de conta” do povo que nada mais representam que seus mais espúrios interesses fisiológicos, são o câncer que ataca e enfraquece a nossa democracia e torna distante a possibilidade de desenvolvimento soberano. Eles nada mais fazem do que a metástase do atual regime corruptocrata, por tudo quanto suas influências alcançam torna-se corrupção! Nunca houve democracia plena no Brasil, apenas democracia de baixa intensidade. Hoje nem isso, pois, há apenas uma “democracia de faz de conta” e principalmente “cidadãos de faz de conta”. Lima Barreto já dizia: “O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos. Público apenas assiste de camarote”! Recentemente “paneleiros” indignados com a corrupção protestaram. Mas era uma “indignação de faz de conta”, pois era seletiva, portanto hipócrita, haja vista que com a maior quadrilha de criminosos instalada no Poder, suas panelas permanecem mudas! Enfim, o Brasil é um país que Todo Mundo faz de conta que é patriota, mas está ocupado demais com o próprio umbigo, e espera que Alguém faça algo para impedir a aniquilação do sonho de Qualquer Um em ter um país soberano! Porém, Ninguém faz nada e coloca a culpa em Todo Mundo! Todo mundo faz de conta que não é com ele e diz que Qualquer Um pode fazer. Mas, Ninguém faz! Todo Mundo diz que é necessário recorrer a Alguém para recuperar o país que foi sequestrado por uma quadrilha de criminosos, mas, não há a quem recorrer, porque não há como saber quem é cidadão e quem faz de conta!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

“Self made man” – parte 4 - Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 28 de dezembro de 1813, no município de Arroio Grande (RS). Ainda criança perdeu seu pai, o fazendeiro e pecuarista João Evangelista de Ávila e Souza, o qual foi assassinado por ladrões de gado. Sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho casou-se novamente e, seu novo marido não aceitou a permanência dos filhos de Mariana na casa. Guilhermina Evangelista de Sousa (13 anos de idade) teve que casar-se e Irineu com oito anos foi para o Rio de Janeiro com seu tio José Batista de Carvalho. No Rio de Janeiro, passou a trabalhar na casa de comércio do Sr. Pereira de Almeida, um português radicado no Brasil, e que vendia quase tudo, mas, cuja fonte principal de lucros era o comércio de africanos escravizados. O menino Irineu era tão inteligente e dedicado ao trabalho que aos doze anos já foi promovido a “guarda-livros”, profissão atualmente exercida pelo técnico contábil ou bacharel em Contabilidade (contador). Como a Inglaterra estava aprisionando os navios destinados ao tráfico de africanos, o preço destes subiu às alturas, os riscos de perdas financeiras se elevaram, porém, também as margens de lucros. E numa destas empreitadas seu Pereira de Almeida teve enorme prejuízo que quase o levou à ruína. Irineu negociou com o Sr. Carruthers, um credor escocês da dívida de seu patrão e conseguiu a dilatação do prazo para o pagamento desta. Envidou esforços e conseguiu receber os recursos que eram devidos ao Sr Pereira de Almeida por vários fazendeiros, cujos haveres já eram considerados perdidos. Irineu conseguiu manter para seu patrão, o palacete no Rio de Janeiro e sua fazenda. Ao comparecer ao escritório do Sr. Carruthers para quitar a dívida como havia prometido, teve seu talento reconhecido e foi convidado a trabalhar na empresa de importação e exportação deste. Por indicação de seu novo patrão, estudou os autores do liberalismo clássico, tinha então quinze anos. Quando contava vinte e três anos já era rico, e, sozinho passou a comandar a empresa de exportação e importação, pois, o Sr. Carruthers decidiu voltar para a Inglaterra. Numa visita à Inglaterra em 1840, maravilhou-se com as indústrias daquele país. Passou a sonhar em trazer a modernidade para o Brasil. Sua empresa de importação e exportação estava no auge, liquidou-a mesmo assim, pois, queria investir em indústria num país, cuja elite acreditava que a vocação do Brasil era e deveria ser sempre agrícola. Montou a fábrica de Ponta da Areia, uma fundição que produzia artefatos bélicos, canos metálicos, etc. além de ser também estaleiro, o qual chegou a ter mais de mil empregados. Opositor do regime escravista que considerava fator de atraso do país, acreditava que as pessoas deveriam ser remuneradas por seu trabalho para poderem consumir e movimentar a economia. Sonhava com o fim da escravidão para que o montante empregado no sistema fluísse para o financiamento da atividade industrial. Abriu o segundo Banco do Brasil, o primeiro (estatal) tinha sido liquidado alguns anos antes. Especulou com o câmbio e chegou a passar a perna na família Rotschilds, dona do mais poderoso banco inglês, causando a este perdas financeiras, mas, também espanto e admiração. Foi também construtor de ferrovias e por isso é considerado o patrono dos transportes. Estátuas e bustos seus estão espalhados pelo país em campus de cursos de administração de várias universidades. Sua ousadia nos negócios, sua metodologia estranha às oligarquias, seu enriquecimento rápido (aos trinta anos já possuía mais riqueza que todo o Império do Brasil, e sua fortuna se corrigida monetariamente, o colocaria na lista dos dez mais ricos do planeta com cerca de 60 bilhões de dólares) trazia-lhe admiração e repulsa de seus contemporâneos. Chegou a ter dezessete empresas, estas contavam com modernos padrões de gerenciamento e quatro de suas empresas estavam entre as seis maiores do país. Foi vítima de inveja e traições. Foi atraiçoado por políticos e até mesmo pelo Imperador Dom Pedro II. Sua derrocada começou com um incêndio criminoso em sua fábrica de Ponta de Areia. Também teve contra si, políticas que beneficiavam a importação de produtos manufaturados em detrimento do produto nacional e políticos que o atacavam e visavam prejudicar suas empresas. Montou empresas em seis países (Brasil, Argentina, Uruguai, Inglaterra, França e Estados Unidos). Possuía fazendas e seu plantel contava cento e trinta mil cabeças de gado bovino. Foi casado com sua sobrinha Maria Joaquina (May) com a qual teve muitos filhos, dos quais, apenas sete chegaram à idade adulta e somente cinco sobreviveram à sua morte. Foi à falência, mas, fez questão de pagar todos os seus credores, pois, dizia que seu nome era o maior patrimônio que possuía. Refez-se e ao final da vida era tão rico quanto aos 30 anos de idade (antes de montar a fábrica da Ponta da Areia), corretor de negócios de café, fazendeiro e pecuarista, não quis mais recriar o sonho do “império pessoal que durasse séculos”, pois, considerava que a mentalidade da elite brasileira ainda não estava amadurecida para suas idéias. Passou o resto da vida recebendo homenagens (Barão e Visconde de Mauá), e convites para recepções na corte, sem, no entanto atendê-los. Faleceu em 21 de outubro de 1889, três semanas antes da Proclamação da República.

 Sugestão de boa leitura:

 MAUÁ, empresário do império. Jorge Caldeira. Companhia das Letras.

 PS: Não deixe de assistir o filme: Mauá: o Imperador e o Rei, disponível no site You Tube.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

“Self made man” – parte 3 - Aristóteles Sócrates Onassis

Dentre os bilionários que ostentaram a condição de homem mais rico do mundo por mais tempo, Aristóteles Sócrates Onassis é até hoje insuperável. Ari como era chamado por seus amigos e familiares, nasceu em Esmirna, em território do Império Turco-Otomano, região que atualmente faz parte da Turquia. Turco de nascimento, mas, de família grega, seus pais Sócrates Onassis e Penélope levavam uma vida confortável como cidadãos da classe média até que a Turquia, alguns anos após o fim da Primeira Guerra Mundial recuperou o território tomado pela Grécia. O governo turco desapropriou os bens de cidadãos gregos, tendo em vista os ressentimentos com a Grécia após a tentativa desta em tomar Istambul. Num acordo entre os dois países, houve a troca de civis, um milhão de cidadãos gregos na Turquia, foram obrigados a voltar para a Grécia e quatrocentos mil turcos em terras gregas foram remetidos para a Turquia. A família de Onassis perdeu seus bens e foi obrigada a voltar à terra de origem. Onassis migrou para a Argentina, aonde chegou na condição de refugiado, falsificou seus documentos adulterando sua idade, para poder trabalhar mesmo não tendo ainda a idade legal para tal. Trabalhou como telefonista e se dedicou a estudar o mercado financeiro, investiu seus parcos recursos na bolsa de valores e obteve bons lucros. Comprou roupas caras e começou a frequentar o círculo da alta sociedade, fazendo laços de amizade com ricaços de Buenos Aires e, na companhia de belas moças de famílias tradicionais. Entrou em contato com seu pai na Grécia e se tornou importador de tabaco turco (mais suave que o cubano), e teve a idéia de expandir o hábito do fumo entre as mulheres. Conquistador se aproximou de belas e famosas atrizes e pediu que fumassem em público. Logo, a moda se popularizou. Para ampliar seus negócios fez empréstimos e montou sua própria frota de navios cargueiros para transportar suas encomendas de tabaco. Casou-se com Athina Livanos, filha do armador Stavros Livanos, que desejava primeiro casar a filha mais velha, Onassis repreendeu-lhe que ele não deveria agir como se estivesse vendendo navios. Convencido pela jovem Athina de 18 anos, o casamento se realizou e deu a Onassis, os filhos Alexander e Christina. Com o sogro (há quem diga que o casamento foi de conveniência) aprendeu o ofício de armador, e munido do conhecimento da área, adquiriu sua própria frota de navios petroleiros. Em certa ocasião, os EUA resolveram vender navios petroleiros que haviam sido utilizados na Segunda Guerra Mundial para cidadãos estadunidenses. Ari não preenchia os requisitos para as aquisições, tentou convencer as autoridades a mudar tais regras por ele consideradas absurdas. Não conseguiu. Interpelou judicialmente, sem sucesso. Então, montou um estratagema: uma empresa (com sócios majoritários estadunidenses, na verdade, laranjas, e ele como sócio minoritário) para participar do leilão em que comprou vários petroleiros a preço de ocasião, e algum tempo depois “adquiriu” todas as ações da empresa, se tornando o único proprietário dos petroleiros concluindo o drible da vaca no enfurecido Tio Sam que não se deu por vencido, e com um processo investigatório aberto pelo FBI, levou Onassis aos tribunais onde foi condenado a pagar uma multa milionária. Aristóteles, mesmo casado, nunca dispensou os romances de ocasião (era considerado um playboy incorrigível) e sua disposição em conquistar mulheres era tão grande quanto à de ganhar dinheiro. Sua grande paixão foi a também casada Maria Callas, a famosa soprano estadunidense. Callas desejava unir-se definitivamente ao armador grego, que até se separou de Athina para ficar com ela. Porém, a obsessão de Aristóteles por mulheres e status levou-o a aproximar-se de Jacqueline Kennedy, a viúva do presidente estadunidense John F. Kennedy. Feita a ata de contrato nupcial que garantia a Jacqueline Kennedy um terço dos bens de Onassis, o casamento se realizou e ela mergulhou fundo numa vida de ostentação e compras de supérfluos que poderia causar náuseas à qualquer pessoa, mas, não à Jacqueline. O filho de Onassis, Alexander, era piloto e morreu num acidente aéreo em 1974 com o avião que pilotava. Houve suspeita de sabotagem no avião que era costumeiramente utilizado por Aristóteles, o qual tinha vários desafetos. Onassis entrou em depressão com a perda do filho e jamais se recuperou. Morreu em 1975, aos 75 anos de idade, segundo os documentos oficiais (porém, 69 anos de idade biológica). Viveu se fazendo acompanhar das mais belas e famosas mulheres de seu tempo, e, também de magnatas, presidentes, príncipes e reis. Em certa ocasião afirmou: “várias pessoas dizem que não tenho classe, mas, felizmente as pessoas de classe estão sempre dispostas a perdoar esse defeito aos muito ricos”! 

Sugestão de boa leitura: 

ONASSIS: vida, época e amores de Aristóteles Sócrates Onassis – PETER EVANS. Editora Best Seller. 

PS: Christina, filha de Onassis, nasceu em berço de ouro, mas, jamais teve sorte no amor, casou e descasou várias vezes. Deprimida, morreu em 1988, deixando a fortuna construída pelo pai para sua filha Athina, então com três anos. Adulta, Athina assumiu o controle de sua fortuna, até então administrada por tutores indicados pela família. Casou-se com o jóquei brasileiro Doda Miranda de quem se divorciou recentemente. Há muita controvérsia sobre o tamanho de sua fortuna devido às dúvidas que resultam em separar o que é patrimônio de Athina e o que é patrimônio da Fundação Onassis.

sábado, 9 de setembro de 2017

“Self made man” – parte 2 - Percival Farquhar

Dentre as várias personagens que segundo os admiradores do capitalismo fazem jus em serem reconhecidas como “self made man” está o nome do empresário estadunidense Percival Farquhar (Iorque, 1864 - Nova Iorque, 1953). Nascido numa família abastada, cujo pai, um empresário industrial bem sucedido, Farquhar teve a possibilidade de estudar nas melhores escolas estadunidenses e de cursar engenharia na famosa e elitista Universidade Yale. Formado, começou a trabalhar na empresa de seu pai. Ainda jovem, também se dedicou à política, tendo duas passagens pela Câmara dos Representantes de Annapolis, a capital do Estado de Maryland. Ocupou também cargos executivos em empresas de transportes em Nova Iorque. Como o histórico sonho estadunidense sempre foi anexar Cuba, realizou uma viagem de exploração à ilha recém livre da dominação espanhola. Convenceu seus amigos endinheirados a embarcarem com ele na aventura que tinha como objetivo a exploração de serviços de utilidade pública em Havana, isto no período de 1898-1902. Concomitantemente, formou a empresa Cuba Railroad (1900-1903), que construiu a estrada de ferro que integrou regiões agrícolas até então isoladas com a capital Havana. O dinheiro para seus empreendimentos vinham sempre da sociedade com amigos capitalistas, ou ainda do lançamento de ações na bolsa de valores e/ou empréstimos, junto a banqueiros europeus. De 1903 a 1908 foi vice-presidente da Guatemala Railway. Também teve ferrovias e minas na Rússia, e negociou pessoalmente com Lênin. Ao se retirar desse país venceu uma disputa jurídica com o Estado, sendo, portanto indenizado. Percival Farquhar se gabava que era capaz de vender qualquer coisa. Em certa ocasião, um grande banqueiro inglês estava evitando recebê-lo em seu escritório, pois, considerava que seus empreendimentos envolviam riscos excessivos. Mas, Percival encontrou o banqueiro nas ruas de Londres, e, este não conseguiu escapar à sua lábia. Questionado por seus colaboradores sobre o motivo que o levou a mudar de opinião quanto a financiar os perigosos empreendimentos do estadunidense, o banqueiro inglês disse: “tenho sorte em não ser mulher” (pois, caso fosse, Farquhar teria conseguido mais do que dinheiro). Embora tenha atuado em vários países como o Paraguai, a Argentina e o Uruguai, no Brasil é que Percival Farquhar deu dimensões colossais ao seu império. Foi proprietário dos portos do Rio de Janeiro, de Rio Grande (RS) e do Pará e de empresas de navegação. Explorou serviços de bonde, água e eletricidade no Rio de Janeiro e na Bahia. Sua obra mais famosa foi a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré com o sacrifício de milhares de vidas principalmente pela malária no período de 1906 a 1915. Possuiu fazendas de gado com milhares de alqueires e igual número de reses. Montou o frigorífico Continental (segundo do Brasil) sendo que os animais eram trazidos de suas fazendas por meio de trem para o abate em Osasco (SP). Adquiriu e concluiu a construção da estrada de ferro que ligava São Paulo (SP) à Santa Maria (RS) e que deu origem a empresa Brazil Railway Company e a Southern Lumber & Colonization Company. Recebia em numerário por quilômetro, além de quinze quilômetros de terras para cada lado da ferrovia, assim impôs ao traçado da ferrovia, curvas desnecessárias, e procurava passar por terras ricas em madeiras nobres (araucárias e imbuias) as quais beneficiava em gigantescas serrarias de sua propriedade, que eram as maiores da América Latina e se localizavam em Três Barras (SC) e Calmon (SC). Após o aproveitamento das madeiras, as terras eram então vendidas. Suas empresas estiveram envolvidas na Guerra do Contestado (1912-1916) e constituíam um enclave dos EUA no Brasil. Hasteava-se a bandeira ianque e os feriados daquele país eram respeitados. A empresa costumava utilizar-se de pistoleiros estadunidenses para “pacificar” os funcionários descontentes, bem como expulsar posseiros que muito tempo antes da chegada da empresa à região já a ocupavam. Suas empresas tinham caixa 2 e funcionários especialmente designados para “convencer” os políticos resistentes aos seus interesses. As crises econômicas resultantes das Guerras Mundiais lhe causaram a queda de seu pedestal dourado, e os investidores de seus empreendimentos arcaram com os prejuízos de suas aventuras que resultaram em recuperação judicial. Reclamava muito de Getúlio Vargas, pela criação dos direitos trabalhistas da CLT e pela demora com que este tomava decisões. Sobre Vargas dizia: “ele costuma deixar tudo como está, para ver como fica”! Foi proprietário da empresa Itabira Iron Ore Co. Mas, Vargas e seus assessores a nacionalizaram dando origem à estatal Vale do Rio Doce (atual Vale), depois privatizada por FHC. Tentou criar a primeira grande siderúrgica brasileira, isso antes da CSN, mas, foi impedido por políticos nacionalistas. Fundou então a siderúrgica Acesita que acabou encampada pelo Banco do Brasil devido ao seu forte endividamento e privatizada por Collor. Jamais se aposentou. Morreu em 1953, aos 89 anos de idade, devido a complicações resultantes de uma cirurgia cerebral que visava vencer o Mal de Parkinson. Alguns historiadores fazem dele um herói, outros um vilão sem escrúpulos. A biografia que aqui indico é boa, porém, apologética, então não deve ser vista como a pura expressão da verdade. 

Sugestão de boa leitura:

FARQUHAR, O ÚLTIMO TITÃ: um empreendedor americano na América Latina – Charles A. Gauld.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

“Self made man”

A expressão “self made man” é tipicamente estadunidense e designa o homem que se fez por si próprio, ou seja, que por seus próprios méritos se elevou. Escrever sobre este tema é como pisar em terreno pantanoso, cada passo deve ser meticulosamente pensado antes de executado, embora nem isso evite que a dúvida ou a lama tomem conta do ser que caminha no pântano destas linhas. Meu público leitor é formado por duas pessoas, uma à esquerda e outra à direita do espectro ideológico, portanto preciso ser muito coerente em minhas reflexões para não apanhar de uma, ou das duas. Inicialmente preciso afirmar que essa expressão é carregada da ideologia capitalista e, toda ideologia inclusive aquela que prega a (impossível) ausência de ideologia deve ser objeto de reflexão à luz do conhecimento científico, que como sabemos, é também carregado de ideologia. Sei que é possível, um homem (peço desculpas às colegas feministas, mas, a expressão original é mesmo machista e não posso dar-lhe tonalidades que não possui) sair do estágio mais baixo da sociedade e chegar aos estratos intermediários (a classe média) ou ainda à pequena burguesia. Mas, o “self made man” padrão não é formado por indivíduos medianos, mas, de indivíduos que se agigantaram perante milhões ou bilhões de outros. Geralmente os estadunidenses afirmam ser “self made man” o indivíduo que amealhou grande fortuna. Fica o questionamento: Como é possível falar de um homem que se fez sozinho sem colaboradores (no jargão capitalista) ou no jargão marxista, de proletários cuja mais-valia lhes foi extraída? Ele realmente saiu dos estratos mais baixos da sociedade? Ou nasceu em berço privilegiado se comparado à maioria que forma a base da pirâmide social de seu país? Lembro de uma frase proferida por Honoré de Balzac que dita: “Por trás de toda grande fortuna há um crime”. Deve ser considerado “Self made man” quem utilizou de todos os artifícios para burlar o sistema e assim alcançar o ponto mais alto da pirâmide social e financeira? E quem pode dizer que é pelo patrimônio adquirido que se reconhece um “self made man”? E os critérios éticos e morais não contam? Afinal como se mede um “self made man”? Pelo patrimônio ou pelo caráter? Donald Trump ou Nelson Mandela? Carlos Slim ou Mohandas Karanchand Gandhi? No mundo de pessoas reais, neste do sopé da montanha societária, existem pessoas (da classe trabalhadora e da pequena burguesia) que batem no peito e afirmam que aquilo que possuem foi adquirido com o fruto do seu esforço e nada devem a ninguém! Não mesmo? Seus pais não fizeram esforços para que você estudasse (mesmo em escola pública) e não trabalhasse em sua adolescência? Você não precisou contar com uma política de pretenso Estado de Bem-Estar Social que em um país capitalista ainda assim lhe concedeu a oportunidade de ter acesso a Saúde e a Educação Pública (gratuita) das séries iniciais do Ensino Fundamental ao Ensino Superior, e até mesmo cursos de especialização, mestrado e doutorado bancados por meio da arrecadação de impostos junto à sociedade? Neste instante, lembro de outra frase, esta do genial Isaac Newton, a qual afirma: “gigantes são os mestres nos ombros dos quais me elevei”. Em sua vida, os mestres não foram fundamentais para as suas conquistas? Você não precisou de colaboradores/proletários? A expressão “self made man”, tal como a ideologia capitalista, se embasa na meritocracia. No entanto, sabemos que a classe trabalhadora (e não a classe patronal) é a verdadeira produtora de riquezas e que a classe média (desprovida do capital financeiro) é grande defensora da meritocracia porque deseja conservar os privilégios (que se baseiam no capital cultural) em relação ao andar de baixo da sociedade e que lhe confere a possibilidade de conseguir profissões bem remuneradas tais como a magistratura (via concurso público), ou ainda na medicina. Soa estranho que tal classe defenda tanto a meritocracia quando deseja conservar privilégios que impedem a ascensão de pessoas do andar de baixo e, portanto a igualdade tão necessária para a disputa meritocrática. Enfim, a expressão “self made man” tal como geralmente é apresentada, possui as nuances do individualismo, do personalismo e da idolatria ao materialismo, e como tudo em que se baseia a cultura do consumismo, apresenta o brilho da pirita (parece ouro, mas, não é)!

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O necessário resgate da bandeira nacional

A bandeira é o símbolo mais importante de um país. Não por acaso os filmes de Hollywood quando retratam tramas em que a grande nação ianque é atacada, mostram em seguida, flashes de bandeiras hasteadas em frente a prédios e residências junto a breves acordes do hino nacional. Feito isso, a trama continua com a reação aniquiladora da nação da águia contra seus oponentes. Tal estratégia não é ocasional, mas, pensada e estimulada por Washington, afinal, Hollywood faz parte do aparato estadunidense de conquista da hegemonia do discurso, pois, um ditador ou uma nação imperialista além do uso da força, precisa dominar também as mentes. Nisso reside a vital importância de insuflar em seus habitantes o orgulho nacional e o consequente patriotismo, mesmo que muitas vezes irrefletido e que levam jovens a morrer pela pátria, quando na verdade o fazem pelos negócios e capitalistas de sua pátria. Os filmes de Hollywood propagam o “american way of life”, ou seja, o estilo de vida estadunidense, tido por eles como modelo para a humanidade. Hollywood busca conquistar a simpatia e a admiração do público internacional ao país mais beligerante da história. E nisso tem sido eficaz. Este professor de ofício e escriba nas horas vagas quando de suas críticas à ação imperialista estadunidense, em várias oportunidades encontrou forte oposição de pessoas que se arvoraram em defesa daquela nação, mesmo que a ação desta ocorresse em flagrante prejuízo dos direitos humanos, da democracia e do princípio internacional de não ingerência em outras nações. Estarrecedor é pensar que vários destes brasileiros natos que fazem forte defesa dos Estados Unidos da América não têm pelo país que constitui seu berço natal uma atitude equivalente. Grande parte destas pessoas parece em seu íntimo lamentar ter nascido no Brasil, pois, mentalmente adotou os EUA como sua pátria apesar de nele não viver. Uma explicação para isto talvez resida no fato de que os Estados Unidos é a nação símbolo do capitalismo mundial, portanto, contestá-lo significa contrariar o sistema que se tornou uma religião cujo deus “Mercado” jamais deve ser questionado ou criticado sob o risco de cometer blasfêmia. Há uma imagem da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que considero emblemática. A fotografia em que soldados hasteiam a bandeira estadunidense após a vitoriosa batalha de Iwo Jima. Recorro a essa imagem, que o leitor (caso deseje) pode ver numa rápida busca no Google, para explicitar uma tarefa que os cidadãos patriotas que desejam ver o Brasil ocupando o justo papel que lhe cabe: o de potência e não como mera colônia dirigida por oligarquias acéfalas desprovidas de patriotismo e que agem de forma espúria em prejuízo da nação e em benefício de seus interesses particulares. A bandeira nacional foi usurpada por elementos conservadores que diziam estar em luta contra a corrupção. Estes se armaram com panelas e seguiram o pato da golpista FIESP e deram sustentação ao golpe midiático-jurídico-parlamentar que derrubou o governo democraticamente eleito da presidenta Dilma sem jamais comprovar um crime de responsabilidade contra ela. Considero um grave problema a bandeira nacional ter sido utilizada pelos conservadores no maior ato lesa-pátria pós 1964. Não se pode mais empunhá-la sem o receio de ser confundido com os golpistas que demonstraram não serem contrários à corrupção, mas, sim ao PT, Lula e Dilma e principalmente à política então implantada, a qual objetivou e conseguiu retirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU, reduzir mesmo que timidamente a desigualdade social, oportunizar o acesso à educação universitária a grupos sociais anteriormente dela excluídos, e, possibilitar a mobilidade social ao fazer que milhões deixassem os estratos de renda mais baixos. Com o golpe, o Brasil caminha de volta para o Mapa da Fome. A classe trabalhadora que vem perdendo direitos trabalhistas e previdenciários vai empobrecer, e o mercado consumidor irá encolher. A pequena burguesia que apoiou o golpe se afogará nas águas de sua ignorância política. O grande capital nacional e estrangeiro que não depende do mercado de consumo interno, mas, da especulação com os recursos naturais e da mais-valia resultante da mão de obra padrão “shing-ling” de contratação que ora se pretende implantar, será a única a lucrar. Nossas riquezas estão passando ao controle de estrangeiros. O governo golpista capitaneado por Temer e seus apaniguados planeja entregar a estratégica base de Alcântara aos EUA e está implodindo o edifício nacional da Ciência, da Educação e da Saúde comprometendo o futuro do país. Os usurpadores da bandeira nacional dizem que não votaram em Michel Temer. Mas, votaram em Aécio (PSDB) e em partidos que hoje no poder estão destruindo o projeto de país soberano. E além do mais, como os internautas costumam afirmar: Suzane Von Richthofen também não matou seus pais, “apenas” abriu a porta para os assassinos...