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domingo, 28 de dezembro de 2025

E na curadoria, a professora!

 

            A curadoria de obras literárias compreende a seleção, análise e organização criteriosa de livros por especialistas para um público-alvo, visando qualidade, relevância temática e expansão do repertório cultural. Essencial em livrarias, clubes de assinatura e feiras, diferencia-se da automatização ao promover a diversidade e mediação da leitura. O curador é portanto, um expert literário, uma pessoa com grande conhecimento da literatura nacional e internacional, ou ainda, da obra de algum determinado autor.

            Durante o ano que passou (2025), minha filha solicitou alguns livros que não dispunha em minha biblioteca. Tratavam-se de obras solicitadas pela sua professora da disciplina de Literatura. Após a leitura, ela teria que fazer síntese crítica de cada obra. Em minha casa, sempre disse, que livro não é despesa, mas, investimento. Após minha filha fazer a leitura dos livros, peguei-os para ler, movido pela curiosidade, pois se tratavam de obras que não havia lido.

            Eu peguei o hábito pela leitura na escola, tínhamos que fazer o diário de leitura e ler dois livros a cada bimestre, para conseguir parte da nota da disciplina de Língua Portuguesa. Confesso que inicialmente não era apegado na atividade da leitura. Lembro que líamos os livros da coleção Vaga-lume, que em sua contra-capa trazia imagens das capas de outros volumes da coleção. Era dessa forma que escolhíamos os próximos livros a serem lidos e também por indicação de nossos colegas. No Ensino de 1º Grau - séries iniciais (atual Ensino Fundamental I) a obra marcante foi "Expedição aos Martírios" de Francisco Marins. No Ensino de 1º Grau - séries finais (Ensino Fundamental II) o livro destaque para mim foi "Spharion" de Lúcia Machado de Almeida e no Ensino de 2º Grau (Ensino Médio) lembro do livro "A desintegração da morte" de Orígenes Lessa.

            Ler é um hábito que raramente se alcança de forma solitária, há que se ter sempre a influência dos pais, dos irmãos, dos amigos e, principalmente dos professores, especialmente nesses tempos de muitas distrações tecnológicas alienantes, o livro continua a ser a principal ferramenta para obtenção de cultura e de conhecimento, muito além da mera informação.

            Sei que os deixei curiosos, com a curadoria da professora de minha filha, li os livros "O auto de São Lourenço" de José de Anchieta, "Noite na Taverna" (e também Macário) de Álvares de Azevedo; "O seminarista" de Bernardo Guimarães, além de "O Guarani" e "Lucíola" ambos de José de Alencar. Obras que foram por mim, muito apreciadas! Concluo deixando minha gratidão aos professores que estimulam nossos adolescentes ao maravilhoso hábito da leitura!

           

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

Os fantasmas do Sr. Scrooge (versão sintetizada do original de 2017)

 

                 Alguns artigos, que no passado publicamos, merecem e devem ser republicados e relidos, é o caso de "Os fantasmas do Sr. Scrooge", especialmente nesta época natalina, eis-lo: Algumas pessoas tiveram o privilégio de assistir à bela apresentação da escola Ballerina de Laranjeiras do Sul, no ano de 2017, inspirada em “Um Conto de Natal” de Charles Dickens (1812-1870). Muitos, porém, conhecem a história pelo desenho da Disney, onde o protagonista Ebenezer Scrooge é o Tio Patinhas.

            Na obra de Dickens, Scrooge é um homem rico e endurecido, que explora seu empregado e rejeita o espírito natalino. Tudo muda quando o fantasma de seu sócio morto o alerta sobre as consequências de sua vida vazia. Visitado pelos fantasmas do Natal Passado, Presente e Futuro, ele revive sua trajetória e, ao testemunhar o sofrimento de seu funcionário e do filho doente deste, transforma-se profundamente.

            Hoje, ainda há muitos Scrooges entre nós. Eles celebram o Natal pelo comércio, pelos lucros, mas não pela reflexão. Declaram-se cristãos, mas defendem tortura, prisões arbitrárias e pena de morte, práticas que o próprio Cristo sofreu e rejeitou. Ele, que acolheu a todos, inclusive os marginalizados, propunha um reino de justiça aqui e agora, não apenas no além.

            Alguns Scrooges comandam igrejas como negócios, outros usam a política para servir a interesses contrários ao bem comum. Apaixonados pelo dinheiro, acumulam fortunas muitas vezes manchadas por injustiças, enquanto rejeitam políticas sociais, chamando-as de “comunismo”. Precisam da pobreza para fazer atos de caridade nas épocas festivas, para dessa forma parecerem generosos e sentirem-se seres humanos especiais.

            Enquanto isso, em muitos lares, o Natal será sem presentes ou sequer um prato de carne. Pais desempregados ou subempregados, com salários miseráveis, famílias na pobreza extrema, cortes de auxílios, realidades que, como disse Milton Santos, não são acidentais: “A fome é uma decisão política”.

            Termino com palavras que ecoam Paulo Freire: "sonho com o dia em que a justiça social venha antes da caridade". Que este Natal nos incomode, nos mobilize e nos lembre que um outro mundo é possível, mais humano, mais justo, mais fraterno.


sábado, 13 de dezembro de 2025

Che leitor

 



Este humilde escriba e inveterado leitor tem o costume de assistir a booktubers para descobrir novas obras para aquisição. Com o mesmo objetivo, busco referências em intelectuais e personalidades cuja erudição admiro. Também assino o Clube do Livro da Editora Expressão Popular, por meio do qual, chegou às minhas mãos o livro "Che leitor".

Che Guevara é como ficou popularmente conhecido Ernesto Guevara de La Serna (1928-1967), o lendário revolucionário argentino-cubano que juntamente com o cubano Fidel Alejandro Castro Ruz (1926-2016), liderou a Revolução Cubana que em 1959 pôs fim à ditadura de Fulgêncio Batista Zaldívar (1901-1973).

A obra "Che Leitor" explora uma faceta menos conhecida do revolucionário, a sua paixão pelos livros. Guevara carregava obras na mochila durante campanhas guerrilheiras e lia-os nos momentos de espera entre combates. Há fotografias suas de tais momentos, lendo em plena selva.

Engana-se quem pensa que seu interesse se restringia às obras de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Che lia sobre economia, política, filosofia e literatura de diversos pensadores, inclusive biografias. Criticava os manuais soviéticos, por considerá-los pouco reflexivos, e acreditava que o conhecimento marxista não era estático, dado, era necessário ir além, ver o que há na direção que Marx apontou, mas não teve tempo de visualizar.

Che Guevara era um socialista convicto, certa vez afirmou: "nós socialistas somos mais livres porque somos mais plenos; somos mais plenos por sermos mais livres", ironicamente, o capitalismo fez de sua face estampada em camisetas, um artigo de grande venda no mundo todo, especialmente nos países do Sul Global. Vários integrantes de movimentos sociais e/ou anti-colonialistas a utilizam e inspiram-se nele dando suas vidas na luta pela sua causa.

O intelectual francês Jean Paul Sartre (1905-1980), o qual dispensa apresentações, considerou que Che foi o homem mais completo de seu tempo. Che era um grande leitor e escritor, um revolucionário traduzido nas suas próprias palavras "digo com o receio de parecer ridículo que todo autêntico revolucionário deve ser movido pelo profundo amor ao povo, às causas pelas quais luta e, mesmo assim ser capaz de tomar decisões dolorosas sem contrair um só músculo". Nesse sentido, é mundialmente conhecida sua frase "hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás". Fica a dica!



Sugestão de boa leitura:

Título: Che leitor.

Autor: Biblioteca Nacional de la República Argentina (Org.).



Editora: Expressão Popular, 2025, 160 p.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Macário

 

A vida de Manoel Antônio Álvares de Azevedo foi tão breve e intensa quanto o clarão de um meteoro. Nascido em 1831, o poeta que entraria para a história simplesmente como Álvares de Azevedo partiu aos vinte anos, deixando uma obra que só veria a luz após sua morte. Ainda assim, esse curto tempo foi suficiente para que ele se tornasse o mais emblemático representante da segunda geração do Romantismo brasileiro, capturando em versos e prosas a melancolia, o tédio e os devaneios de uma juventude ardente.

            Em “Macário”, o autor constrói uma narrativa peculiar, com formato que lembra uma peça teatral, ainda que não destinada aos palcos. No centro está o jovem estudante que dá nome à obra, um aventureiro cético que, em certa noite, crê encontrar-se com o próprio Satã. Desse encontro surge um diálogo filosófico ácido, em que Macário despeja seu desencanto: para ele, o mundo é “monótono de fazer morrer de sono”, o amor não passa de uma quimera e a única realidade tangível é o dinheiro.

            Apesar da pouca idade, Macário porta-se como um homem vivido, narrando suas conquistas amorosas como meras buscas de prazer, longe de qualquer idealização romântica. Divertia-se com mulheres que considerava “erradas”, enquanto aguardava de forma quase cínica  o encontro com a “virgem fiel e dedicada”, único perfil que julgava digno de matrimônio.

            Na segunda parte da obra, a cena desloca-se para a Itália, onde entra em cena "Penseroso" (aquele que pensa). Aqui, o tom muda: se Macário ridiculariza o sentimento do amor, Penseroso é seu refém. Apaixonado por uma italiana e tomado pelo medo da rejeição, ele envereda pelo tema da morte como escape, chegando a ingerir veneno. Mesmo arrependido, no último instante, sucumbe, levantando a questão do suicídio como fuga da dor amorosa.

            A trama é um retrato fiel do universo de Álvares de Azevedo cuja obra é carregada de pessimismo, fascínio pela morte, desilusão afetiva e um profundo tédio existencial. Entre linhas, discute-se a virgindade, a inocência idealizada e a beleza inatingível, tudo temperado pela ironia mordaz do autor. Contar mais seria desvendar os fios dessa trama curta e impactante, na qual cada página respira o desalento e o brilho precoce de um talento que, como seu criador, partiu cedo demais.

 

Sugestão de boa leitura:

Título:  Macário.

Autor: Álvares de Azevedo.

Editora: L&PM, 2001, 112 p.