A expressão “self made man”
é tipicamente estadunidense e designa o homem que se fez por si próprio, ou
seja, que por seus próprios méritos se elevou. Escrever sobre este tema é como
pisar em terreno pantanoso, cada passo deve ser meticulosamente pensado antes
de executado, embora nem isso evite que a dúvida ou a lama tomem conta do ser
que caminha no pântano destas linhas. Meu público leitor é formado por duas
pessoas, uma à esquerda e outra à direita do espectro ideológico, portanto preciso
ser muito coerente em minhas reflexões para não apanhar de uma, ou das duas.
Inicialmente preciso afirmar que essa expressão é
carregada da ideologia capitalista e, toda ideologia inclusive aquela que prega
a (impossível) ausência de ideologia deve ser objeto de reflexão à luz do
conhecimento científico, que como sabemos, é também carregado de ideologia. Sei
que é possível, um homem (peço desculpas às colegas feministas, mas, a
expressão original é mesmo machista e não posso dar-lhe tonalidades que não
possui) sair do estágio mais baixo da sociedade e chegar aos estratos
intermediários (a classe média) ou ainda à pequena burguesia. Mas, o “self made
man” padrão não é formado por indivíduos medianos, mas, de indivíduos que se
agigantaram perante milhões ou bilhões de outros.
Geralmente os estadunidenses afirmam ser “self made man”
o indivíduo que amealhou grande fortuna. Fica o questionamento: Como é possível
falar de um homem que se fez sozinho sem colaboradores (no jargão capitalista)
ou no jargão marxista, de proletários cuja mais-valia lhes foi extraída? Ele
realmente saiu dos estratos mais baixos da sociedade? Ou nasceu em berço
privilegiado se comparado à maioria que forma a base da pirâmide social de seu
país? Lembro de uma frase proferida por Honoré de Balzac que dita: “Por trás de
toda grande fortuna há um crime”.
Deve ser considerado “Self made man” quem utilizou de
todos os artifícios para burlar o sistema e assim alcançar o ponto mais alto da
pirâmide social e financeira? E quem pode dizer que é pelo patrimônio adquirido
que se reconhece um “self made man”? E os critérios éticos e morais não contam?
Afinal como se mede um “self made man”? Pelo patrimônio ou pelo caráter? Donald
Trump ou Nelson Mandela? Carlos Slim ou Mohandas Karanchand Gandhi?
No mundo de pessoas reais, neste do sopé da montanha
societária, existem pessoas (da classe trabalhadora e da pequena burguesia) que
batem no peito e afirmam que aquilo que possuem foi adquirido com o fruto do
seu esforço e nada devem a ninguém! Não mesmo? Seus pais não fizeram esforços
para que você estudasse (mesmo em escola pública) e não trabalhasse em sua
adolescência? Você não precisou contar com uma política de pretenso Estado de
Bem-Estar Social que em um país capitalista ainda assim lhe concedeu a
oportunidade de ter acesso a Saúde e a Educação Pública (gratuita) das séries
iniciais do Ensino Fundamental ao Ensino Superior, e até mesmo cursos de
especialização, mestrado e doutorado bancados por meio da arrecadação de
impostos junto à sociedade? Neste instante, lembro de outra frase, esta do
genial Isaac Newton, a qual afirma: “gigantes são os mestres nos ombros dos
quais me elevei”. Em sua vida, os mestres não foram fundamentais para as suas
conquistas? Você não precisou de colaboradores/proletários?
A expressão “self made man”, tal como a ideologia
capitalista, se embasa na meritocracia. No entanto, sabemos que a classe
trabalhadora (e não a classe patronal) é a verdadeira produtora de riquezas e
que a classe média (desprovida do capital financeiro) é grande defensora da
meritocracia porque deseja conservar os privilégios (que se baseiam no capital
cultural) em relação ao andar de baixo da sociedade e que lhe confere a
possibilidade de conseguir profissões bem remuneradas tais como a magistratura
(via concurso público), ou ainda na medicina.
Soa estranho que
tal classe defenda tanto a meritocracia quando deseja conservar privilégios que
impedem a ascensão de pessoas do andar de baixo e, portanto a igualdade tão
necessária para a disputa meritocrática. Enfim, a expressão “self made man” tal
como geralmente é apresentada, possui as nuances do individualismo, do
personalismo e da idolatria ao materialismo, e como tudo em que se baseia a
cultura do consumismo, apresenta o brilho da pirita (parece ouro, mas, não é)!
*Da série Vale a Pena Ler de Novo! - Publicado originalmente em 24 de agosto de 2017.